Esportes
Diego em La Pampa: como foram os dias de Maradona isolado numa fazenda antes da sua última Copa
Com treinos caseiros e belas imagens no meio da Patagônia, Maradona trabalhou duro para entrar em forma e fugir do vício em cocaína porque havia prometido às filhas que jogaria o Mundial de 1994
GLOBOESPORTE.COM / TéBARO SCHMIDT
Sem clube e motivado pelas filhas, Maradona isolou-se em uma fazenda na Patagônia argentina. Ele buscou recuperar a forma física e combater a dependência química.
A rotina intensa incluía corridas de até 16 quilômetros, treinos de boxe e exercícios improvisados. Os testes físicos posteriores igualaram os índices de seu auge no Barcelona.
O preparador Fernando Signorini priorizou o suporte emocional para afastar os demônios do vício. Apesar do esforço, Maradona acabou cortado do Mundial dos Estados Unidos por doping.
Maradona pulando sobre caixas de madeira no meio do que parece ser uma fazenda, conduzindo a bola sob os olhares de vacas e cavalos ao fundo ou correndo no chão acidentado de uma enorme plantação de milho. Você provavelmente já se deparou com essas imagens dos treinos caseiros de Don Diego. Elas foram feitas em abril de 1994.
Veja a lista de convocados da Argentina para a Copa do Mundo 2026
Não, Maradona não estava de férias nem em pré-temporada, como o aspecto rudimentar dos treinamentos pode sugerir. Na verdade, ele estava se preparando para disputar uma Copa do Mundo .
As memórias em ruínas da primeira vez da seleção brasileira em TeresópolisVeja todas as seleções convocadas para a Copa do Mundo 2026
Naquele momento, o craque cuja morte vai completar seis anos em novembro estava sem clube. Mas, como havia prometido às duas filhas pequenas que se esforçaria para jogar o seu quarto e último Mundial, ele aceitou a sugestão do amigo e preparador físico Fernando Signorini e se isolou por sete dias numa fazenda na região de La Pampa, no coração da patagônia argentina.
Lá, sem dispor sequer de sinal de televisão, o que o deixou furioso no primeiro dia, Maradona trabalhou duro em atividades que iam desde sessões de corrida matinais até a fabricação dos próprios materiais de treino, feitos de madeira. "Eu tratava de ocupá-lo a maior quantidade de tempo possível para que sua cabeça não ficasse por aí dando voltas", contou Signorini ao ge.
Além de precisar recuperar sua forma física ideal, o argentino lutava contra a abstinência do vício em cocaína. Técnico da seleção da Argentina, Coco Basile monitorou a maior parte da empreitada à distância e chegou a visitar a fazenda nos últimos dias. Ele queria saber se o craque do título mundial de 1986 e da campanha que levou o país à decisão em 1990 estava sóbrio e disposto a ajudar no torneio que seria disputado nos Estados Unidos.
O isolamento funcionou, no final das contas. Maradona foi convocado para a Copa e chegou em boas condições, mesmo sem atuar em um jogo oficial desde janeiro. Fez um golaço na goleada por 4 a 0 na estreia contra a Grécia, no lance eternizado por sua comemoração furiosa em direção à câmera. Também atuou no segundo jogo, contra a Nigéria. Mas testou positivo para uma substância proibida no antidoping, a efedrina, e foi cortado do Mundial.
— Me cortaron las piernas — lamentou Diego no adeus à Copa e à seleção argentina.
Maradona jurou até a morte que não se drogou para jogar nos Estados Unidos. As cinco variantes da efedrina detectadas na sua urina podiam ser encontradas em parte do seu tratamento nutricional, sobretudo em um suplemento que ele tomava para melhorar o rendimento físico e auxiliar na perda de peso. O episódio colocou ponto final no sonho, mas o esforço feito por El Diez na província de La Pampa até hoje é assunto de crônicas e não deixa de ser um célebre capítulo na história desse personagem.
Maradona se enfurece: "Aonde me trouxeram?"
Maradona fez parte da campanha da Argentina nas eliminatórias para a Copa do Mundo dos Estados Unidos, com a classificação alcançada com vitória sobre a Austrália na repescagem. Mas entrou no ano de 1994 sem saber se teria condições e principalmente ânimo para disputá-la. Aos 33 anos, ele parecia mais inclinado a encerrar a carreira do que jogar o seu quarto Mundial.
Diego havia acabado de rescindir com o Newell's Old Boys, numa passagem que durou apenas seis meses e cinco jogos. Mas, depois de algumas conversas com Coco Basile, decidiu que valia a pena tentar. E havia um motivo pessoal para isso: suas filhas Dalma e Giannina, com sete e quatro anos na época, ainda não o tinham visto jogando um Mundial.
Ele e seu estafe, então, se reuniram para decidir onde poderia ocorrer a preparação. Dois haras localizados perto do centro de Buenos Aires estavam entre as opções, mas Maradona naquele momento estava em pé de guerra com a imprensa. Em fevereiro, o jogador havia se irritado com jornalistas estacionados na frente da sua casa e disparado contra eles com um rifle de ar comprimido. Ao menos seis pessoas ficaram feridas.
Maradona precisava definitivamente se afastar.
Um terceiro lugar surgiu como alternativa: a fazenda de um homem que Maradona e sua família haviam conhecido durante as férias na praia. Ángel Rosa, proprietário do rancho "El Marito", próximo à cidade de Santa Rosa, na região pampeana, havia deixado as portas abertas para quando o craque quisesse descansar ou caçar – sem saber que o convite serviria para uma finalidade ainda mais importante.
— Então eu perguntei onde ficava e me disseram que era isso, era uma fazenda a uns 40 quilômetros da cidade de Santa Rosa, capital da província de La Pampa — contou Fernando Signorini em conversa com o ge.
— Eu, sem conhecer o lugar, sem dizer nada, como Diego havia me delegado a responsabilidade de escolher sozinho o lugar, eu disse: "esse é o lugar". Quando ele me perguntou "por quê?", por que era longe? Não, eu disse. Esse é o lugar porque você tem que se reencontrar - completou o preparador físico.
Diego Dal Santo, autor do livro "Maradona en La Pampa: cómo se preparó Diego para su último Mundial", dividiu uma passagem cômica sobre esse episódio. Segundo ele, quando Fernando e o empresário Marcos Franchi ligaram para o dono da fazenda para combinar a estadia de Maradona, ele achou que se tratava de um trote. Foram necessárias algumas ligações para que a ficha caísse.
Signorini, a esposa Cláudia, as duas filhas, os pais de Maradona e alguns amigos foram na frente e chegaram ao rancho no dia 9 de abril. Foi preciso trabalhar até de madrugada para ajeitar o local, que normalmente só era habitado no verão. Compraram muita comida, roupas, cobertores e deixaram as lenhas a postos, pois a noite em La Pampa é gelada. No dia 10, Diego e Marcos Franchi foram de avião até o local.
Ao chegar, uma das primeiras coisas que Maradona tentou fazer foi ligar a televisão, mas não havia sinal na fazenda. "Aonde me trouxeram?", resmungou furioso. Signorini respondeu atravessado, da maneira que só uma amizade de décadas permite, e acalmou a situação. Em seguida, foram caminhar por entre as plantações para definir a programação da estadia.
🔍 Adicione o ge nas suas fontes favoritas do Google
Na crise, Maradona corre
A fazenda "El Marito" fica a 60 quilômetros do centro da cidade de Santa Rosa. Da rodovia até a casa principal, a distância é de 1,5 quilômetro. Maradona estava literalmente isolado no coração da província de La Pampa.
Pela manhã, ele e Signorini corriam ao redor da fazenda. A princípio, num trajeto de 10 a 12 quilômetros, para que o jogador pudesse readquirir a resistência muscular que havia perdido nos meses de inatividade. No sétimo dia, chegaram a fazer 16 quilômetros.
A rotina seguia com exercícios físicos e alguns trabalhos com bola. O estafe de Maradona levou para o rancho um aparelho de "espaldar russo", que ao longo da carreira auxiliou o craque argentino a cuidar das dores crônicas no ciático. Nas imagens, é possível vê-lo de ponta-cabeça, com os pés fixos numa barra posicionada entre duas árvores, esticando a coluna.
Depois do almoço (churrasco na maioria das vezes), respeitava-se religiosamente o descanso na siesta. "Era imprescindível para recuperarmos as energias", explica Signorini. Em seguida, o grupo se dirigia para Santa Rosa. Sempre em horários alternados para não provocar aglomeração nas ruas.
A segunda etapa da preparação se dava num ginásio de boxe. Maradona trocou socos por uma semana com ex-boxeador profissional e campeão argentino Miguel Campanino. Aos 49 anos, o lutador aposentado ainda tinha a mão pesada e obviamente pegava leve nos treinos que serviam sobretudo para cansar Diego.
Por fim, eles davam o dia por encerrado depois de uma atividade regenerativa na piscina do clube All Boys e voltavam para o rancho, entre o fim da tarde e o início da noite.
— Depois do jantar, jogávamos cartas. E depois praticamente já era a hora de dormir porque tínhamos que recuperar as energias para o dia seguinte. Os primeiros dias foram de muito cansaço, porque o seu organismo havia perdido o hábito e tinha que recuperar isso, a adaptação aos esforços — lembra-se Signorini.
Mesmo entre um treino e outro, havia a preocupação de Fernando Signorini e todos a sua volta de manter Maradona ocupado e, dessa forma, evitar os pensamentos autoflagelantes. "Quando ele se entediava, começavam os problemas", resume Diego Dal Santo, acrescentando que isso valia para todos os aspectos da vida do jogador.
Maradona, durante os sete dias de estadia em La Pampa, passou por crise de abstinência uma única vez. O episódio se deu por volta de meia-noite, quando a maioria das pessoas já estava dormindo. Signorini o tirou de casa e o acompanhou em uma corrida noturna — os dois bem agasalhados, já que as temperaturas se aproximavam de 0ºC de madrugada.
Signorini conta que a lua cheia brilhava tão intensamente naquela noite "que deixava a fazenda iluminada como um estádio". Ele só se deu por satisfeito e permitiu que voltasse para a casa quando Maradona, esgotado, disse quase sem fôlego:
— Ya está! ("Chega!")
"Os melhores dias que passei com ele"
Maradona chegou em La Pampa com o objetivo de perder cinco quilos. E saiu de lá com a sua melhor forma física em anos.
Sua evolução foi monitorada pelo Centro Nacional de Alto Rendimiento Deportivo, que na época reunia dados de todos os atletas argentinos de modalidades olímpicas. Néstor Lentini, que era o chefe do CeNARD, revelou em entrevista ao livro de Diego Dal Santo que os testes realizados depois da semana na fazenda mostraram resultados similares ao que Maradona apresentava quando atuava no Barcelona, em 1983. No seu auge.
— Quando eu conto isso, dá para entender que, de alguma maneira, apesar da preparação rudimentar, eles trabalharam tanto a consciência de Diego que o corpo mostrou resultado - arremata o escritor, que se orgulha de ser santaroseño e maradoniano.
Ele conta com brilho nos olhos sobre as várias vezes que seu ídolo falou maravilhas de Santa Rosa: "Por isso adoro contar essa história". Maradona dizia que o céu em La Pampa era azul, que ele conseguia respirar. E agradecia pelo carinho e pelo fato de as pessoas na província terem respeitado seu espaço, sem aglomeração ou episódios de confusão quando eles estavam na cidade.
Para além do corpo, o craque conseguiu colocar a cabeça no lugar durante aqueles sete dias. Fernando Signorini, partindo dessa perspectiva, nunca gostou de ser chamado de preparador físico de Maradona.
— O que eu fundamentalmente tinha que preparar no Diego não era seu corpo porque ele era um privilegiado, um dotado naturalmente. Mas, sim, toda a parte emocional, a parte afetiva, psicológica, se quiser, para que ele pudesse vencer todos os demônios que ele enfrentava, sobretudo o do vício em cocaína — recorda ao ge.
"Preparar Diego para jogar futebol era como preparar um gato para caçar ratos, entendeu? Não era muito complicado. O tema era puramente emocional e afetivo", acrescenta.
Signorini se lembra com muito carinho das tardes em que tomavam mate e, em seguida, saíam para caminhar pelo rancho. Eles conversavam a respeito de tudo, menos futebol.
A prosa tinha como objetivo distrair a cabeça de Maradona e aliviar um pouco a tensão inerente ao fato de que ele era o ídolo de um país inteiro, que oito anos antes havia alcançado o auge da glória na Copa de 86, mas que, naquele momento, travava uma batalha interna violenta contra o uso de substâncias entorpecentes.
— Dos mais de 4 mil dias que eu passei com Diego, eu escolho esses como um privilégio, porque foram momentos muito complicados, muito difíceis da sua vida — ele afirma.
— Passados os anos, eu sigo dizendo o mesmo, que os dias nesse lugar foram os melhores que passei com ele por tudo o que significava esse momento e pela maneira decidida, quase obcecada, com que ele encarou o caminho para cumprir a promessa que ele havia feito a suas filhas de que iria jogar o Mundial — conclui o amigo.
Leia mais



Primeira página

