• Segunda, 01 de Junho de 2026

"Amor leve" vira tema de campanha para identificar relações abusivas

Ao lançar quarta edição da ação, MPMS destaca que informação e medida protetiva ainda salvam vidas

GUSTAVO BONOTTO E FERNANDA PALHETA / CAMPO GRANDE NEWS


Mulher exibe hematomas e ferimentos. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) lançou nesta segunda-feira (1º), em Campo Grande, a quarta edição da campanha 'Você Merece um Amor Leve'. A iniciativa marca o Dia Estadual de Combate ao Feminicídio e busca ampliar a conscientização sobre violência doméstica, divulgar a rede de proteção e incentivar mulheres a procurarem ajuda antes que a agressão chegue ao estágio mais grave.

Idealizadora da campanha, a promotora de Justiça Lívia Carla Guadamhaim Bariani afirmou que, mesmo após anos de debate sobre o tema, ainda falta informação sobre os serviços disponíveis para mulheres em situação de violência.

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'O que ainda precisa para todos nós são informações e acolhimento. A gente acredita que todo mundo sabe onde ir e o que procurar, mas não sabe. Se você perguntar para dez pessoas na rua o que fazer caso uma irmã ou amiga diga que sofre violência doméstica, muitas não saberão responder', disse.

Segundo a promotora, a campanha chega ao quarto ano com o objetivo de reforçar orientações consideradas básicas, mas que continuam desconhecidas por parte da população. Ela citou serviços como a Casa da Mulher Brasileira, Poder Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública e forças de segurança como portas de entrada para quem busca apoio.

Lívia destacou que muitas mulheres deixam de procurar ajuda porque acreditam que uma denúncia obrigatoriamente resultará em processo criminal contra o agressor. Ela explicou que a medida protetiva pode ser solicitada para interromper o ciclo de violência e aumentar a segurança da vítima.

'A medida protetiva salva vidas. Mais de 90% das mulheres que sofreram feminicídio ou tentativa de feminicídio desde 2015 sequer tinham pedido ajuda ou solicitado proteção judicial', afirmou.

A promotora também ressaltou que o feminicídio costuma ser precedido por uma sequência de comportamentos abusivos que nem sempre são reconhecidos como violência. Entre eles estão humilhações, xingamentos, destruição de objetos pessoais, controle da rotina e afastamento de amigos e familiares.

'O feminicídio é o último degrau da violência. A pessoa humilha, xinga, quebra seu celular, afasta você dos amigos e da família. A mulher precisa se perguntar se realmente vive um amor leve ou se está em um relacionamento tóxico que pode evoluir para algo mais grave', declarou.

Durante o lançamento, a subsecretária estadual de Políticas Públicas para Mulheres, Carla Stephanini, avaliou que o enfrentamento à violência exige não apenas prevenção e acolhimento, mas também respostas rápidas do sistema de Justiça.

'Nós queremos trabalhar na prevenção e na proteção, mas também precisamos trabalhar na responsabilização. A sociedade precisa enxergar que existe resposta para esses crimes', afirmou.

Ela destacou avanços na estrutura de atendimento da Casa da Mulher Brasileira e citou ferramentas tecnológicas que agilizam o encaminhamento de pedidos de medidas protetivas ao Judiciário.

A subsecretária lembrou ainda o julgamento recente de um caso de feminicídio em Anastácio, concluído em 83 dias.

'Se queremos cumprir o desafio de prevenir, punir e erradicar a violência contra as mulheres, precisamos de mais julgamentos como esse, com resposta célere e respeito às garantias legais', disse.

Representando a Secretaria de Estado da Cidadania, a subsecretária de Políticas Públicas para Mulheres, Manuela Nicodemos Bailosa afirmou que a campanha aposta em uma abordagem diferente ao discutir relacionamentos saudáveis em vez de focar apenas na punição dos crimes.

'A gente já sabe que não pode agredir e não pode matar. Quando falamos de amor leve, discutimos a raiz do problema, que é o controle exercido sobre a vida das mulheres', afirmou.

Ela defendeu que o debate sobre violência de gênero avance para escolas, bairros e comunidades, especialmente entre crianças e adolescentes.

'É tão óbvio e, ao mesmo tempo, tão necessário dizer o óbvio. A campanha traz uma possibilidade de mudança nas relações afetivas e mostra que a violência não começa com a agressão física', declarou.

Manuela também chamou atenção para a situação de mulheres indígenas, negras, idosas e pessoas com deficiência, grupos que, segundo ela, enfrentam vulnerabilidades específicas e muitas vezes permanecem invisíveis nas estatísticas e políticas públicas.

Ao longo de junho, promotores de Justiça de diferentes cidades vão intensificar palestras, entrevistas e atividades educativas. A expectativa é ampliar o conhecimento da população sobre canais de denúncia, medidas protetivas e formas de identificar os primeiros sinais de violência.

'A vida já é sufocante demais para que alguém viva um relacionamento marcado por medo, controle e agressões. Todos merecem um amor leve', concluiu Lívia.



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