Esportes
Saudade do Botafogo
É um desperdício que o melhor time do Brasil no ano passado tenha derretido tão rapidamente
GLOBOESPORTE.COM / ALEXANDRE ALLIATTI
O Botafogo me dá saudade. Ele foi minha dose de diversão no futebol brasileiro no ano passado. Eu sempre dava um jeito de vê-lo jogar. Foi bonito ver aquela dinâmica se construindo: a defesa se solidificando enquanto o talento ofensivo se encaixava, a forma como os setores se comunicavam, a capacidade de acelerar o jogo quando era preciso e de acalmá-lo quando convinha.
E de repente tudo derreteu. É um desperdício que o melhor time do Brasil no ano passado tenha minguado tão rapidamente. A derrota de 1 a 0 para o Estudiantes, nesta quarta-feira, na Argentina, nem é o melhor exemplo (era um jogo duro): mas é mais um elemento dessa nova realidade.
+ As notas dos jogadores do Botafogo contra o Estudiantes
O campeão da América corre sério risco de eliminação na fase de grupos da Libertadores; o campeão nacional patina no Brasileirão. E é tudo consequência da autossabotagem que o clube se impôs: os 55 dias sem treinador, a falta de reposições à altura para Thiago Almada e Luiz Henrique, a saída de jogadores que não eram titulares (mas compunham bem o elenco), a escolha duvidosa do técnico Renato Paiva como substituto de Artur Jorge.
John, o goleiro, tomou um frango na derrota de 1 a 0 para o Estudiantes, mas a culpa pelos repetidos problemas é de outro John, o Textor. O dono do futebol alvinegro se permitiu o pecado da autossuficiência – essa mosquinha que ronda a cabeça dos campeões. O resultado está aí.
Esta semana, antes do jogo na Argentina, John Textor defendeu Renato Paiva e disse que são os jogadores que não estão executando os pedidos do treinador. Acredito que ele tenha sido benevolente com o técnico. É evidente a queda de rendimento dos atletas (um clássico em anos seguintes a temporadas de títulos), mas o time é pobre taticamente – consequência também da falta de tempo para treinar.
São oito jogos desde a estreia do treinador português. E o Botafogo tem apenas duas vitórias (2 a 0 contra Carabobo e Juventude). Nas demais partidas, foram dois empates e quatro derrotas. Com Renato Paiva, o time ainda não fez gols fora de casa: teve quatro derrotas por 1 a 0 e um empate por 0 a 0.
O que mais preocupa é a compatibilidade entre resultados e atuações. As derrotas se justificam em campo. Contra o Estudiantes, o time foi novamente protocolar, sobretudo no primeiro tempo. O gol saiu em um lance excepcional, uma enorme falha de John, que leu errado o giro da bola e não anteviu a direção que ela poderia tomar após o toque no gramado. Mas os argentinos dominavam a partida e mereciam a vantagem.
Depois do intervalo, o Botafogo melhorou. Foi convidado pelo Estudiantes a ser mais agressivo. Quase chegou ao empate em bom contra-ataque finalizado por Savarino com chute no travessão. Mas chamou a atenção, mais uma vez, a timidez de Paiva nas substituições: lateral-direito por lateral-direito, volante por volante, atacante por atacante, meia-atacante por atacante. A exceção foi a saída de Patrick de Paula para a entrada de Matheus Martins.
Depois do jogo, Paiva disse, com razão, que o time de 2024 “já não existe'. Ele tem razão – infelizmente. Mas ainda é possível resgatar a memória do que restou daquela ótima equipe e aproveitar os reforços para criar, com atraso, a versão 2025 do Botafogo.
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