Esportes
Reinaldo diz que fama de "resenha" o prejudicou e cita impacto de rede social: "Entrava no jogo com medo"
Lateral do Mirassol afirma ser torcedor fanático do São Paulo, repassa carreira e entende que ficou estigmatizado por brincadeiras: "Não olharam a performance"
GLOBOESPORTE.COM / BRUNO CASSUCCI, EMILIO BOTTA E RAFAEL SANCHEZ
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No dicionário dos boleiros, o termo "resenha" tem duas aplicações. Pode ser um substantivo, que significa conversa ou papo descontraído, mas também um adjetivo, que qualifica aquele que é engraçado, gosta de fazer brincadeiras e contar histórias.
Reinaldo, lateral-esquerdo do Mirassol, representa bem o que é ser resenha. O jogador parece estar sempre de bom humor, alegrando o ambiente onde está e rindo de si mesmo e dos outros.
O lado extrovertido e alto astral é motivo de orgulho para Reinaldo, mas ele também entende que sua carreira foi prejudicada por isso. Hoje com 36 anos, o lateral reflete sobre sua trajetória e acredita ter ficado estigmatizado por parte da opinião pública:
– Vivi grandes momentos no São Paulo, anos maravilhosos em números, em desempenho, em tudo. E eu acho que era para ser lembrado até em seleção, por exemplo, nunca se falava do Reinaldo, mesmo performando em alto nível – disse o jogador, em entrevista ao Abre Aspas.
– As pessoas ficaram muito na parte da resenha e não olharam tanto para números e performance. Acho que isso pegou muito. Mas agora, no fim da carreira, todo mundo está vendo que não é só resenha, tem futebol também.
Ficha técnica
Nome: Reinaldo Manoel da SilvaNascimento: 28 de setembro de 1989 (36 anos), em Porto Calvo, AlagoasPosição: lateral-esquerdoClubes: Penapolense, Paulista, Sport, São Paulo, Ponte Preta, Chapecoense, Grêmio e MirassolTítulos: Paulista Série A3 (2011), Copa Paulista (2011), Campeonato Paulista (2021), Campeonato Catarinense (2017), Recopa Gaúcha (2023) e Campeonato Gaúcho (2023 e 2024)
Nesta entrevista, Reinaldo não abriu mão da tal resenha. Relembrou o dia em que marcou o holandês Arjen Robben, da vez em que enfrentou Lionel Messi, "daquele tamanhinho", e contou histórias engraçadas sobre Luis Suárez nos tempos de Grêmio.
Mas também teve muito assunto sério. Ele detalhou a importância de Fernando Diniz em sua carreira, declarou ser torcedor fanático do São Paulo e contou como comentários em rede social impactaram negativamente um período de sua carreira:
– Eu entrava nos jogos com medo de errar, aí me travava – revelou o jogador, que já atuou em mais de 800 partidas como profissional e disputa o Brasileirão pela 15ª temporada consecutiva.
Abre Aspas: Reinaldo
Você é sempre visto sorridente, brincando com as pessoas. Qual o segredo de tanto bom humor? – É estar sempre feliz onde você está trabalhando, onde te acolhe muito bem. Por onde eu passei sempre tive esse carinho. E para retribuir esse carinho eu procurei sempre estar em campo, nos treinos, no dia a dia, sempre feliz, para que quem estiver à minha volta esteja feliz também, seja leve. Isso, para mim, é o que mais importa, independentemente de fase ruim, fase boa, que em tudo na nossa vida a gente tem altos e baixos.
– No meu baixo ali, que eu vivi uma época no São Paulo, eu fiquei muito triste, mas não por muito tempo, porque depois nasceu o meu Davi, né? Ali eu procurei me apegar muito ao meu Davi, à minha esposa, e sempre falei que a tristeza nunca mais iria reinar na minha vida. Desde então, estou sempre com essa felicidade, esse sorriso no rosto, contagiando quem está à minha volta, isso é muito importante. Isso é desde o meu começo, chegando em São Paulo, uma cidade enorme, vindo de Porto Calvo, do interior, sem saber muito o que ia acontecer, e hoje estou aqui, realizado. E momentos de tristeza são poucos, porque onde eu cheguei eu só tenho que agradecer e ser muito feliz.
Já que você mencionou essa saída do interior de Alagoas para São Paulo, gostaria que contasse as memórias mais vivas que você tem dessa época. – Nossa, quando eu saí ali de Porto Calvo, que cheguei no aeroporto pra pegar o avião, já falei: nossa, será que eu vou conseguir chegar em São Paulo? Mas, graças a Deus, fiz uma excelente viagem e quando cheguei em São Paulo o seu Ataíde, que Deus o tenha, me levou ali na cidade grande. E eu olhando aqueles prédios que eu só via na TV, aquelas coisas todas gigantes ali. Cheguei a ficar emocionado. E um frio, né? Um dia que eu liguei até pra minha mãe e disse: "mãe, aqui é muito frio". Não sei se eu estou com pouca roupa, mas eu estava com muita blusa e ficava me tremendo por dentro ainda, de tanto frio.
– A lembrança mais é de ver aqueles prédios gigantes e o frio que estava em São Paulo, que eu me tremia bastante. E ainda me lembro que eu não fui direto para o clube, eu fiquei na casa do seu Ataíde, ele acordava não só eu, mas todos os meninos que estavam lá também, às 5h da manhã para ir treinar no parque, para ir correr no parque, acho que era Guarapiranga. Já ia com aquela dedicação, com aquele foco de querer vencer mesmo. Era 5h da manhã, ali no frio, correndo, mas depois que começava a correr ali tudo passava.
Foi sua primeira viagem? Nunca tinha deixado Porto Calvo? – Nunca, nunca tinha saído da minha cidade. Eu saía da minha cidade para jogar numa cidade vizinha, que dava 15 minutos, Matriz de Camaragibe. Foi onde eu comecei a disputar competições mesmo, Campeonato Alagoano Sub-20. Estudava de manhã, saía de Porto Calvo meio-dia, ia para a Matriz do Camaragibe, treinava, e depois voltava ali para o ponto de novo, pegava a van, ia para casa feliz da vida que treinava. E ali tinha o dono do time que, por eu ser de outra cidade, jogava lá, dava o dinheiro da passagem e ainda dava o dinheiro do lanche, isso aí eu voltava pra casa, economizava no lanche para que eu pudesse levar pelo menos que seja R$ 2 ou R$ 3 ainda que sobrava para dar para minha mãe, para comprar alguma coisa em casa.
As dificuldades enfrentadas na infância e adolescência fazem com que você valorize mais a sua profissão e a vida que você leva hoje? – Com certeza, sem dúvida. Eu até falo para os meninos mais jovens por onde eu passei que eles possam valorizar onde eles estão, seja no São Paulo, no Sport, no Grêmio, aqui no Mirassol, eu falo para os meninos que valorizem, porque tem lugares que não têm essa estrutura que tem aqui. Que eles foquem mesmo, sem ter alguma distração fora daqui. Para mim, foi muito importante esse aprendizado antes de ser profissional, antes de viajar para São Paulo, de sair lá de Porto Calvo bem antes, porque eu trabalhei e ajudava muito a minha mãe jogando futebol, ganhando um dinheirinho extra, mas também quando dava nos finais de semana eu ia ajudar meus irmãos a trabalhar no frigorífico, matar galinha, e sempre ganhava um trocado para que eu pudesse ajudar ainda mais na renda da minha mãe. Porque a gente era de família humilde e sempre tinha que estar ajudando. Aos domingos, tinha outro irmão meu que trabalhava batendo laje, ele me chamava e eu ia lá e batia laje com ele. Por isso eu valorizo, todo esse esforço que eu faço hoje em dia não foi à toa, valorizo muito estar apto a estar sempre treinando. Eu não gosto de ficar fora de treino.
Você mencionou o trabalho no frigorífico e também como pedreiro. Teve mais alguma outra profissão antes de virar jogador? – Além de trabalhar no frigorífico, matando galinha, e na laje, lá na minha cidade tem feira de rua, de frutas, uma feira muito grande, eu sempre ia com o carrinho de mão, e tinha as mulheres que não aguentavam levar as compras da feira, porque compravam muita coisa. Aí elas alugavam o nosso carrinho de mão para a gente levar (as compras) pra casa delas. Na minha cidade tem muita ladeira, então subia a ladeira, descia a ladeira, tive essa profissão também. Era mais de final de semana que tinha esses trabalhos. Durante a semana eu estudava de manhã e à tarde jogava futebol. Era meio-dia e a minha mãe dizia: "Vem comer, menino." Eu falava: não, mãe, vai começar agora a pelada, não tem como, não tem como, não posso perder essa pelada, porque era muito boa, era muito competitiva, era futsal, né? Jogava apostando Coca-Cola. Era muito bom.
Jogou na base de algum clube? – Não tive base, não tive nada. Minha base foi jogando amador, jogando futsal. Isso aí foi muito bom. Quando eu fui para a cidade vizinha jogar o Campeonato Alagoano, já era sub-20 também, então eu não tive muita base. Eu não podia ir treinar todos os dias, então eu ia duas vezes na semana para essa cidade, porque era muito longe e o dono do time não tinha condição de pagar todos os dias para eu ir. Então ele escolhia os dias mais importantes, que era para montar o time já para o jogo, e aí eu ia sempre esses dias que eram mais coletivos.
Sempre foi lateral? – Não, jogava mais à frente, de meia e meia-atacante. E quando eu me apresentei no sub-20 do Penapolense também jogava de meia e extremo. Aí fui jogando, fui jogando, até que o Sergião (Sérgio Santos), que era auxiliar do (Marcelo) Veiga, do Bragantino, falou: "Ó, vou botar você de lateral-esquerdo." Quando eu subi para o profissional. Aí me botou de lateral-esquerdo e fiquei jogando de lateral, jogava de ala. Isso aí foi muito bom pra mim. E depois, ali na Série A3, ele me colocou mais na frente, pra jogar de ala. Pude fazer gols, dar assistência. Começou ali. Aí saí do Penapolense, fui para o Paulista de Jundiaí, ainda de meia também, aí o Luís Carlos Martins, que treinou aqui (no Mirassol), me botou de meia e depois eu recuei, fiquei de lateral, fiz um excelente Campeonato Paulista e fiquei de lateral até hoje.
Depois de defender estes clubes do interior de São Paulo você foi para o Recife, para o Sport. – Lá foi o momento mais difícil da minha vida, da minha carreira. Foi o momento mais feliz, mas também o mais difícil que eu vivi. Feliz de estar indo para o Sport, de estar jogando uma Série A de Campeonato Brasileiro, mas muito triste porque lá eu peguei uma gripe mal curada, um resfriado, e peguei começo de tuberculose. Então, foi muito difícil para mim, eu achei que não iria conseguir jogar mais. Teve um dia que eu estava treinando lá, já estava ruim, eu fui chutar uma bola e deu uma dor do lado, uma dor insuportável, eu caí lá. Falei para o doutor: não sei o que é isso. Fez o raio-x e o meu pulmão estava pretão. Nessa noite, o doutor me deu a notícia que estava com começo de tuberculose e já à noite escarrei um pouco de sangue e fiquei morrendo de medo. Liguei pra minha mãe e ela me tranquilizou.
– Eu peguei todos os remédios com o doutor, e o Sport me liberou para ir pra casa, porque eu não podia ficar junto com o elenco que poderia passar a doença. Fui pra casa, fiquei ali um mês, um mês e pouco, tratando. Foi muito difícil, de passar um monte de coisa na minha cabeça. Será que eu vou conseguir voltar? Será que eu vou voltar a jogar futebol? E ligava pro doutor e perguntava. O doutor falava "não, fica tranquilo que vai dar tudo certo e logo você está de volta." Graças a Deus eu fui curado, graças à minha mãe, o carinho dela, dos meus irmãos, de todo mundo que estava comigo, graças ao mastruz com leite que a minha mãe fazia todo dia de manhã ali pra tomar.
De lá você vai para o São Paulo, clube em que você mais jogou. Há uma relação especial até hoje, não é? – Com certeza. Até hoje, quando estou assistindo ao jogo eu sofro, eu sou um torcedor mesmo, fanático, porque eu não perco nenhum jogo. É até engraçado que a minha esposa me chama, ela fala: "não posso ir pra cama sozinha, você tem que ir comigo, você é meu esposo." Eu falo: está certo, amor. Mas eu vou já preparado com o celularzinho, eu deixo ali, assistindo ao jogo do São Paulo quando é mais tarde. Eu não deixo de assistir ao jogo do São Paulo porque, além de amigos que eu tenho lá, o São Paulo mora no meu coração. É o clube do meu coração, o clube que eu me identifiquei muito, não só porque joguei lá, vem desde antes, de noite de Libertadores, vendo os meus conterrâneos jogando com a camisa do São Paulo, o Aloisio Chulapa, depois o Willian José, o Souza, vendo esses caras jogando lá, eu falava: nossa, eu tenho que jogar, eu tenho que vestir essa camisa também.
– Até tem um vídeo (de 2011) em que eu falo: não quero jogar lá fora, não, quero jogar no São Paulo. Eu falo que palavras têm poder, então, graças a Deus, eu realizei esse sonho de vestir a camisa de São Paulo não só uma vez, mas muitas, muitas vezes por quase 10 anos. É inesquecível tudo que eu vivi dentro daquele clube, jogando só com craques. Chegando lá, fui cumprimentar o Rogério Ceni todo tremendo.
– Graças a Deus, tenho uma relação muito boa lá. E saí pelas portas da frente, ninguém pode falar um "A" do Reinaldo. Tem aqueles que falam que eu era paneleiro, não sei o quê, mas a minha panela é sempre do bem, não querendo passar por cima de ninguém. A minha panela é aquela panela que traz todo mundo e deixa todo mundo feliz, quem quer estar ali perto. Isso foi o que eu passei em todos os times e eu levei isso na vida, no São Paulo, no Grêmio, Chapecoense, Penapolense, Paulista de Jundiaí, Sport, Mirassol. Sempre foi uma panela do bem, uma panela que era para deixar todo mundo bem, livre, leve e solto, para mostrar o seu futebol, para gostar de estar no clube e dizer: "nossa, mais um dia naquele ambiente maravilhoso." Era isso que eu fazia, que eu faço para que o ambiente seja sempre esse, maravilhoso e prazeroso de estar aqui e de fazer o seu trabalho.
Sua estreia foi num clássico. – No jogo contra o Corinthians veio a primeira oportunidade com o professor Paulo Autuori. Ele confiou e me colocou para jogar e, graças a Deus, eu fui bem. Terminou o jogo 0x0, mas fui bem. Isso aí me deu muita moral, me deu muita confiança para o professor Autuori estar me usando nos jogos. E, graças a Deus, depois foi só maravilha.
– O meu próximo jogo era contra o Bayern. Foi muito bom. O meu terceiro jogo foi contra o Milan. E assim foi. Aí depois o Benfica, lá em Portugal. E eu falei, caramba, se eu não amadurecer agora, eu não vou amadurecer nunca.
Como alguém que fala do São Paulo com tanto amor lidou com tantas críticas em determinados momentos? – Eu sei que não era todo mundo da torcida, né? Então a gente tem que separar muito bem, vão existir essas críticas. Teve um momento em que eu sofri muito, muito, porque eu olhava muito o Instagram. Aí eu via todos os comentários, entrava e aí eu me liguei, eu falei: ah, eu não posso estar vendo isso, eu nem sei se é o torcedor do São Paulo mesmo, se é torcedor de outra equipe. Hoje em dia pode até ser torcedor de outra equipe, que vai lá e te xinga e fala que você é ruim, e aí eu acabava acreditando um pouco.
– Eu entrava nos jogos com medo de errar, aí me travava. Eu falava: caramba, por que eu não estou desempenhando muito bem o meu futebol? E com isso vinham as críticas, né? E eu sei que foi um momento muito difícil ali.
– Mas eu me apeguei muito ao meu filho, à minha esposa. Foi em 2015, meu filho tinha acabado de nascer também. Isso foi maravilhoso, coincidir de o meu filho nascer nesse período, porque eu me apeguei muito ao meu filho. Mas antes disso eu entrava no jogo (pensando): acho que eu vou errar, com medo de errar. Depois que eu falei: eu não posso jogar desse jeito. Quando saí do São Paulo, eu falei assim: caramba, isso não é o Reinaldo que chegou onde chegou, não. Eu vou mostrar pra todo mundo que eu sou bom e que eu cheguei aqui não por acaso, não foi de paraquedas. Na Ponte Preta eu falei: em todos os jogos aqui eu vou mostrar quem é o Reinaldo. E já contra o São Paulo eu faço um gol, né? 1 a 0, gol do Reinaldo. E aí veio mais crítica ainda, né? "Ah, não faz gol, não fazia gol aqui, aí quer fazer contra nós e ainda quer comemorar?". Algum dos meus ex-companheiros falou, na época, que até comemoraram o meu gol na Ponte Preta contra o São Paulo.
– E quando eu volto para o São Paulo, em 2018, eu falo: sem medo de nada, eu mostrei o que eu posso durante dois anos, fiz um excelente Campeonato Brasileiro pela Chapecoense, só tenho que fazer o que eu fiz lá na Chape. E eu fiz muito bem. É o São Paulo, outro clube, um clube muito gigante, mas eu falei: tenho que mostrar meu futebol do mesmo jeito que mostrei na Chape, eu vou mostrar para todo mundo, aqueles que eu saí daqui sendo criticado, eu vou mostrar que além de ser apaixonado por esse clube eu vou dar a vida e vou mostrar que a minha qualidade vai fazê-los muito felizes, fazê-los mudar de opinião. Então aí já em 2018, 2019, começaram me chamar de Kingnaldo. E eu também esqueci um pouco o Instagram, as redes sociais. Isso me fortaleceu ainda mais. E eu pude mostrar o meu futebol em alto nível, jogando todas as temporadas que eu joguei em São Paulo. Tenho certeza de que eu performei muito bem.
– Foram anos maravilhosos até o último, porque no último ano a gente chegou numa final de Campeonato Paulista, chegamos numa final de Sul-Americana, infelizmente não fomos campeões, porque Deus não quis e o futebol não quis também, mas sempre mostrei o meu futebol em alto nível, jogando em alto nível, porque a camisa que eu estava vestindo merecia que eu voltasse e desse a volta por cima. Isso foi uma das coisas mais lindas da minha vida, foi ter voltado para o São Paulo e dar essa volta por cima, mostrar que eu não era aquele cara que saiu para a Ponte, né? Mas esse Reinaldo que chegou da Chape, chegou mais experiente, mais maduro e com mais fome ainda de fazer o torcedor são-paulino ser feliz. E eu creio que eu consegui, cara, eu consegui. Mostrei para eles a minha qualidade, mostrei que naquela primeira passagem não era o Reinaldo, e sim esse da última, porque eu fiz grandes temporadas no nosso Tricolor.
E hoje você ainda vê comentários na rede social ou nem liga mais para isso? – Ah, bem pouco, cara. Eu deixo mais para a minha assessoria, eu não olho muito. Eu olho de vez em quando, entro no Instagram do Mirassol para ver os gols, os bastidores, que eu gosto bastante de assistir, depois a resenha. Mas eu não estou muito ligado no Instagram. Eu só olho, acompanho algumas coisas, mas se aparecer alguma crítica ali vai ser a mesma coisa que um elogio. Eu não vou ser melhor e nem pior porque alguém está falando que o Reinaldo é craque ou que o Reinaldo é ruim. Eu acredito no Reinaldo, então...
Mas isso vem muito com a maturidade. Porque pelo que você contou não foi fácil lidar com as críticas no passado, você chegou a duvidar de você mesmo... – Eu duvidava muito. Até então eu entrava nos jogos com medo de errar. Então eu falava assim: nossa, se eu errar aqui, o Morumbi vai vir aqui no meu ouvido, meu Deus. Aí fui tirando isso da minha cabeça, esquecendo um pouco o extracampo e focando dentro de campo, fazendo o meu futebol. No Grêmio eu aprendi também com o que o Renato Gaúcho falava: "olha, quando alguém falar que você é ruim, não acredita. Mas também se falar que você é craque, não acredita também, não. Fica na sua, faz o seu trabalho." Eu aprendi muito com o Renato sobre essas coisas.
Você acha que é o quê? – Eu acho que sou um bom jogador, muito esforçado, que batalha muito dentro de campo para que as coisas deem certo. Eu sou um cara com a mente no foco de deixar meus companheiros sempre bem e quando tiver uma oportunidade também fazer aquilo que eu sei de melhor, que é dar assistência, chutar para o gol, fazer o meu papel dentro de campo. Eu acredito que sou muito esforçado, procuro entender o jogo muito rápido, é isso que eu acredito que sou hoje em dia. E sem medo de errar. Quando errar, errei, vou fazer o quê? Não tem como voltar atrás, agora eu tenho que trabalhar para que eu possa fazer melhor do que quando eu errei. Nisso eu amadureci muito.
E acho que em tudo na vida é importante ter confiança, mas no futebol faz muita diferença, né? – Ah, isso é muito importante, cara. A confiança no futebol é tudo. Não só a sua confiança, mas a confiança de quem está do seu lado, do seu companheiro, do treinador. O seu treinador fala assim: "eu confio em você, só é você fazer isso." Isso é muito importante para um atleta. Todo mundo erra, mas quando você erra e tem o seu companheiro ali do lado e fala: "não dá nada, vamos para cima, vamos de novo que vai dar certo." É o que eu faço dentro de campo. Se o meu companheiro errou, eu procuro falar com ele: esquece, já foi. Vamos trabalhar para fazer melhor e ter confiança para jogar.
– Quando a gente erra num jogo que prejudica a equipe, fica um pouco abalado. Mas se na hora seguinte você vê o seu companheiro te dando moral, isso aí te deixa mais forte, te deixa gigante, te faz ir em frente. Isso que é importante, ter essa confiança não só em si próprio, mas também em seu companheiro. Eu falo até dos torcedores mesmo, se for para criticar, critica depois do jogo. Mas durante o jogo dá moral, apoia, porque o jogador pode decidir em uma jogada. Imagina você erra, pega na bola e o torcedor começa a te vaiar, o quanto é ruim. Mas se você pega na bola e "vai, vai, eu confio em você", pronto. Você pode incentivar o jogador a decidir um jogo. Isso aí é muito importante para nós jogadores.
Qual o maior sonho que você já realizou na sua carreira? Tem algo que você ainda quer realizar? – Ah, já realizei o meu maior sonho que era ser jogador profissional, né? E automaticamente ajudar toda a minha família, ajudar a minha mãe, comprar a casa da minha mãe. Isso aí foi o meu maior sonho realizado. A gente viveu muito de aluguel. Eu e meus irmãos moramos em todas as ruas lá de Porto Calvo, né? Porque não tinha como pagar o aluguel, aí a gente tinha que sair porque o dono pedia casa e a gente mudava, ia para outra rua, e assim foi a minha vida, assim que eu virei jogador profissional, no Penapolense, eu falei que o meu primeiro salário que desse para comprar uma casa para a minha mãe lá em Porto Calvo, eu iria comprar. Porque eu não quero viver o que a gente vivia, de ficar mudando de casa em casa, e traz caminhão, e bota os móveis em cima, cama, tudo, e saindo para outra rua. Isso aí foi um momento muito difícil pra nós, de estar se mudando. E depois que eu ganhei o salário, eu falei: mãe, eu vou dar a casa para a senhora. Esse foi o meu maior sonho.
O momento do Mirassol não é bom, mas o 2025 do clube foi especial. Quais foram os ingredientes da fórmula de sucesso? – Muito trabalho, honestidade, carinho com os jogadores. O que o Juninho (Antunes, vice-presidente), o presidente Edson (Ermenegildo) e o Paulinho fazem aqui é surreal. Eles não abandonam nunca o jogador e dão todo o suporte, o que tem de melhor no Brasil tem aqui no CT para que a gente possa desempenhar o nosso futebol. Esse carinho que eles têm, essa confiança que eles passam para nós, jogadores, isso aí é surreal, sabe? Essa blindagem que eles dão para nós, atletas, também. Sem deixar chegar informação ruim de fora, de ter aquele foco de trabalho, de saber o que ele quer, desde quando ele pegou o time sem divisão e mantém o foco até hoje, não vai ser ninguém que vai chegar aqui e vai dizer "ah, faz assim, faz assado." Não! Ele já sabe o que tem que fazer, o ingrediente de sucesso é esse, é trabalho e foco e honestidade, que ele vem fazendo sempre e dá uma condição maravilhosa de trabalho para nós, atletas.
– Dentro de campo, quem está no dia a dia aqui sabe o quanto a gente trabalha, o quanto a gente entra dentro de campo aí no CT e trabalha firme, forte, pode fazer 6km, 8km, 10km, mas é sempre no limite, porque no jogo a gente sempre sobressai. Então o que a gente treina aqui e trabalha no dia a dia é o sucesso de nos jogos ter esses resultados tão maravilhosos.
E os fatores do seu sucesso no Mirassol? – (Passa por) Chegar aqui e ver tudo organizadinho. Eu cheguei ano passado e vi um time já com a estrutura montada, de grandes jogadores como o Danielzinho, o Lucas Ramon, o Gabriel, o Neto Moura, Muralha, quem já estava aqui. Então, chegar e complementar isso com o meu futebol e ter esse suporte deles, isso aí subiu muito o nível do meu futebol. Não só quando eu cheguei, com o professor Barroca, mas também com o professor Rafael (Guanaes), que faz um trabalho maravilhoso, passa tudo para nós ali. É tanto que dentro de campo dá para todo mundo ver como todos os jogadores já se conhecem, e tinha jogos que a gente tinha dificuldade, mas a gente sabia que estava no caminho certo, na performance certa. Eu sempre estava tranquilo para entrar dentro de campo, porque a gente já sabia e sabe tudo o que tem que fazer, porque o professor passa tudo para nós, então isso aí é muito bom para o sucesso coletivo e automaticamente para o meu sucesso individual.
Quando você chega ao Mirassol, tem na cabeça que precisa assumir o protagonismo, chamar a responsabilidade e liderar o vestiário? – Quando eu saí do Grêmio todo mundo achou que o Reinaldo já era. Era o que eu mais via: "o Reinaldo está indo lá, agora já era, é dali pra Série B, pra Série C." E eu cheguei aqui trabalhando, quietinho na minha, e trazendo a experiência de outros clubes para cá também, para ajudar os meus companheiros e meus companheiros me ajudarem também. Isso eu ouvi muito: "Deve ser o último ano do Reinaldo na Série A, não vai estar com nada." E eu trabalhando, né? Eu falei: ah, eu tenho que mostrar de novo que esses caras estão totalmente errados e eu vou mostrar.
– Graças a Deus, eu fiz um ano maravilhoso com gol, assistência e ajudando o Mirassol, levando o Mirassol para Libertadores e calando a boca daqueles que acharam que o Reinaldo e o Mirassol iam só passear no Campeonato Brasileiro. Mostramos que batemos de frente com grandes clubes do cenário brasileiro, jogando de igual para igual, mesmo em jogos que a gente perdeu, como foi lá em Minas, contra o Cruzeiro, e no Maracanã, contra o Flamengo, mas jogando futebol. E quando termina o ano, que você olha o que fez, você olha e fala assim: quem estava falando não sabe nada de futebol. Isso foi muito bom, estar calando a boca deles mais uma vez.
Esse bom desempenho do Mirassol fez com que pessoas cogitassem ou pedissem sua convocação para a Seleção, até porque a lateral esquerda é uma posição com a disputa aberta. Muitos jogadores foram convocados neste ciclo de Copa. Você também em algum momento acreditou nisso, sonhou com isso? – Sonhei muito, sonhei muito e sonho. Sonhar não custa nada, e eu continuo sonhando e trabalhando. E tive muita expectativa de poder ser lembrado e ter ido, mas não me frustrei. Continuei trabalhando igual, e eu tenho certeza que, se acontecer ainda, vai acontecer na melhor hora e no tempo de Deus, então eu continuo trabalhando. Se for pra realizar esse grande sonho da minha vida, da minha carreira... E eu tenho certeza de que não só eu, mas o Mirassol e todos os jogadores aqui sonham em um dia vestir a outra camisa amarelinha, que é a da seleção brasileira. A esperança é a última que morre. Estou aqui esperançoso de ser lembrado e vou trabalhar para isso. Se eu for lembrado, glória a Deus. Se eu não for lembrado, glória a Deus também. Eu sou um cara realizado e, se eu não for lembrado, vou estar torcendo ainda mais pela nossa seleção. É isso que um brasileiro raiz faz, né? Torcer para que o nosso país seja campeão. Então eu tenho certeza de que vou trabalhar pra isso e, como eu falei, a esperança é a última que morre e estou aqui esperançoso.
Por que é difícil achar lateral no Brasil atualmente? – Os jovens, quando querem ser atletas profissionais, já vão almejando lá na frente. Como eu comecei também, queria ser meia, meia-atacante, fazer gol é bom demais. É o grande momento do futebol. As criancinhas já crescem pensando lá na frente, querendo ser atacantes. Mas eu creio que estão vindo muitos jogadores bons aí. Eu acompanho um pouco os campeonatos sub-20, tinha um menino aqui também, o Ramires, que agora foi para o Flamengo, é um cara que eu tenho certeza de que vai crescer muito no futebol. Saindo daqui do Mirassol e indo pra uma grande equipe, que é o Flamengo, eu tenho certeza que ele vai crescer muito em futebol.
– No Cruzeiro tem dois laterais-esquerdos muito bons. Se você for olhar assim, tem muito lateral bom. É que nós, laterais, somos poucos valorizados aqui no Brasil. Se aqui no Brasil você não chegar na frente, não fizer gol, não chutar, não der assistência, aí todo mundo olha assim: "ah, você é um lateral que não vai vingar." Mas vinga, porque aí você vai amadurecendo a sua parte defensiva e também a ofensiva. Eu tenho certeza de que tem grandes laterais-esquerdos aqui no Brasil. E direitos também. Vai surgir muito e a safra vai vir forte.
Você já começou a se planejar e a estudar aquilo que você pretende fazer depois do futebol? Você vai continuar no mundo da bola? – Eu quero continuar, amo o futebol. Então, seja ali como auxiliar, vou estudar para isso como treinador, fazer os cursos que tenho que fazer. Mas eu quero estar nessa loucura do futebol, que é maravilhoso demais estar nesse dia a dia. Os jogadores que já pararam falam assim: "ah, sinto muita falta dessa resenha, desse dia a dia, de ser jogador de futebol." Então, eu quero continuar no meio do futebol, tenho que estudar para isso, vou estudar, mas não pensei ainda quando vou parar. Se daqui a dois anos ou se vou parar daqui a um ano. Eu estou vivendo o futebol a cada ano como se fosse o último, então aqui no Mirassol eu estou muito feliz.
– Eu sou um cara que se cuida bastante, quase não tenho lesões. Eu falo para minha esposa: enquanto o meu corpo disser "vai", eu estou indo. E quando eu também souber e ver que não estou ajudando, que estou prejudicando o clube, eu vou dizer: deu também, porque já não estou ajudando mais. Mas por enquanto eu estou ajudando, fazendo meu trabalho, jogando em alto nível e assim eu vou continuar. Não pensei que ano ou que dia que eu vou parar, todo mundo fala que é uma decisão muito difícil, mas ainda não estou pensando, não, vamos que vamos, vamos desfrutar do futebol.
Você acha que você leva jeito como técnico? – Auxiliar ali para ficar só na resenha, deixando os jogadores mais leves, isso é bom. Ser auxiliar de um casca grossa, que consiga lidar com as críticas, mas também ajudar na hora que tiver que ajudar. Mas eu tenho certeza de que eu vou trabalhar e estudar para isso aí.
E, na sua carreira, você pegou grandes técnicos também. Você teve um paizão na bola, um cara que te ajudou muito e com quem ainda tem contato hoje? – Cara, eu procurei aprender muito. Aprendi muito com o professor Muricy, na época do São Paulo, com o Autuori também. Mas aprendi muito, muito mesmo com o Fernando Diniz e com o Renato Gaúcho. Foram dois caras que... o Diniz, na gestão de grupo, é maravilhoso. O Renato também, não tenho palavras, porque é um cara que tem uma gestão de grupo sensacional. Então, tenho certeza de que aprendi muito com esses caras. E estou aprendendo ainda mais com a inteligência e com o trabalho do professor Rafael aqui, que é de muita excelência. É um cara que trabalha bastante e deixa tudo mastigadinho para nós, jogadores: o plano de jogo, os detalhes. Isso poucos fazem, poucos passam isso assim para os jogadores. O Rafael tem essa excelência, tanto nos vídeos quanto no quadro, na lousa e também no campo, de passar todas as informações, onde a equipe adversária pode nos surpreender e onde a gente pode surpreender a equipe adversária. Isso ele faz com maestria, com excelência.
Aquilo de o cara falar no treino, na preleção, e chegar na hora do jogo e você perceber que aconteceu exatamente aquilo? – Sim. De falar: aconteceu exatamente tudo o que ele falou. E o professor Rafael tem essa excelência. Todo o estafe também. Então, eu aprendi muito com os que já passaram, mas estou aprendendo ainda mais com o professor Rafael.
Quando você falava de "errar, dane-se, tem que ter coragem para jogar", eu estava pensando no Diniz. Ele teve uma importância grande na sua carreira? – Muita, muita, muita. A coragem que o Diniz passa para os jogadores é surreal. Se você fala o mínimo, tipo “ah, não consigo fazer isso', “não consigo dar esse passe', ele falava: “Para de falar isso. Eu vou te mostrar que você consegue'. E ele mostrava. Botava o zagueiro, colocava dois atacantes para marcar o nosso zagueiro, e falava para ele sair jogando. E o zagueiro fazia, passava pelos dois atacantes. Então, essa coragem que ele passava para nós no dia a dia, a gente levava para o jogo, e acontecia. Você se sentia muito mais corajoso.
– Tinha jogador que tinha medo. O volante, por exemplo, tinha medo de entrar na área, pegar a bola ali e girar para dar um passe. E ele encorajava muito isso, porque falava: “Se perder a bola, não tem problema. A gente pode até tomar o gol, mas não tem problema. Se você conseguir sair daí com qualidade, vai estourar lá na frente e a gente vai fazer o gol'. Então, a gente fazia muitos gols assim, na saída de bola. Aqui também o professor Rafael é parecido nesse aspecto. O tanto de coragem que ele passa para nós, jogadores, é muito grande. Ele dá muita coragem para nós.
É curioso, quem olha de fora vê o Diniz gritando e pensa: esse cara está tirando a confiança do jogador, porque está na beira do campo gritando que nem um maluco, às vezes até xingando. Só que muitos jogadores que trabalharam com ele falam o contrário, que ele enche os atletas de confiança. – Sim, muito.
Como você explica isso? – No dia a dia ele te dá muita confiança, muita mesmo. E eu percebi que ele fica bravo, fica P da vida, quando você não faz aquilo que ele te falou durante os treinamentos. Eu já olhei e pensei: mas não dava para fazer isso. Aí ele falava: “Eu vou te mostrar no vídeo que dava, sim. Você tinha várias opções'. E mostrava mesmo. Mostrava no vídeo que eu não tinha só aquela opção que errei. Eu tinha mais umas três. Porque o time dele, como o nosso aqui no Mirassol, faz com que todo mundo apareça para jogar, todo mundo queira a bola. Então ele mostrava isso para nós. Por isso ele fica muito bravo na beira do campo, quando vê que você não fez aquilo que ele pediu.
– Mas ele não te proíbe de dar um chutão. Ele não fala que você não pode dar chutão. Ele fala que existem outras possibilidades, outras formas de sair jogando, em vez de dar chutão. E ele mostrava isso. E tinha mesmo. Por isso, quando a gente entrava em campo, seja zagueiro, volante, quem fosse, dentro da área, ninguém queria dar chutão. O goleiro também não dava chutão, porque sempre procurava achar o companheiro na melhor opção, já que existiam várias opções.
– Aqui com o professor Rafael também é assim. Ele não grita tanto na beira do campo, mas nos vídeos mostra tudo. O Marcelo, o Heine, eles mostram para a gente onde a gente errou, o que a gente podia fazer. O Marcelo mais na parte defensiva, o Heine na ofensiva, o Ivan na bola parada. Eles passam tudo isso e nos encorajam no dia a dia. Então, é impossível você não entrar com coragem nos jogos, porque é isso que a gente trabalha no dia a dia. É isso que a gente faz no dia a dia. Se a gente faz no treino, tem que fazer no jogo. Tem condição de fazer no jogo. É por isso que a gente é cobrado ali na beira do campo.
Falando de outro técnico com quem você trabalhou, o Renato Gaúcho é muito mais da gestão, de saber levar o grupo, ou também tem aspectos táticos, de treinamento, de preparação, que te chamaram atenção? – Sim, tem muita coisa. Os treinos do Renato sempre eram focados na performance de jogo. Sempre simulavam o jogo real contra a outra equipe. Então a gente estava sempre em competição, seja em joguinho, seja em treino de posse de bola. Ele sempre nos deixava competindo um contra o outro. Isso é muito importante. Ele sempre falava para botar uma música do Roberto Carlos, “Detalhes'. Dizia que o detalhe no futebol faz um estrago danado. E ele mostrava para nós no vídeo que era verdade. Às vezes era uma falta lateral que o cara fazia de costas. Às vezes era um cruzamento que você deixava sair. Ele falava que é dentro da área que tudo acontece no futebol. Esses detalhes ele passava para nós e, como você falou, depois acontecia no jogo. Era incrível. Tinha hora que a gente falava: “Professor, não fala isso hoje não, porque vai acontecer'. Mas várias coisas que ele passava para nós eram muito importantes dentro do jogo. A equipe adversária fazia, e a gente ia lá e aproveitava. Ele mostrava vídeo de vários times tomando gol por vacilo, por deixar cruzar.
– E, quando ele estava ali na frente com os atacantes e meias, deixava você muito à vontade para fazer. Ele ficava louco quando o atacante estava impedido. Dizia que isso não existe, porque o atacante é sempre mais rápido do que o zagueiro e tem que esperar. Outra coisa que ele sempre falava ali na frente, dentro da área, é que não tinha desespero nenhum. Faz o que você quiser, mas não se desfaz da bola o mais rápido possível. Essas coisinhas eu aprendi muito com ele. Aprendi a chegar dentro da área e esperar sempre o melhor momento, porque ele falava que a área é sua, que a área sempre te protege. E é verdade. Aprendi muita coisa com ele nesses detalhes.
O Luis Suárez tinha esses detalhes dentro da área? – Não, esse aí não tinha nada. Esse aí cavava, dava bico, dava de três dedos. Esse aí era um fenômeno, meu Deus. O que esse cara fez em 2023 no Grêmio... acho que só o Renato Portaluppi mesmo para superar. Esse cara elevou o nível do nosso time ao extremo.
– Tem até uma história que eu conto, contra o Botafogo, lá em São Januário, quando a gente tomou 3 a 1 e virou para 4 a 3. Eu cheguei perto dele e falei: “Boa, Luisito, boa, boa, é isso aí'. Aí ele falou: “Tô consertando a merda que vocês estão fazendo lá atrás'.
– Aí eu pensei: vou falar o quê? Tomamos três gols, o cara fez três e virou o jogo. Mas ele decidia muitos jogos para nós e é um cara com quem aprendi bastante também. Eu sempre tive isso de nunca ficar fora de treino, e ele também era um cara que nunca ficava fora. Treinava sempre. Era mais fechado, mas, na hora da resenha, entrava também. Jogava uma cacheta com a gente. Nós ensinamos ele a jogar cacheta. A primeira vez foi dentro do avião. A gente chamou: “Vamos, é valendo'. Ele perguntou como era, olhou umas duas vezes só. Saiu com o bolso cheio, ganhou de todo mundo, não perdeu uma. A gente falava: “O rio só corre para o mar mesmo, não tem jeito'. É um cara sensacional, sensacional no dia a dia. Aprendi muito com ele. É um cara top de conviver.
Está entre os melhores com quem você jogou? – Está. Está entre os melhores. Joguei com vários: Alexandre Pato, Kaká, Michel Bastos, Luis Fabiano, Rogério Ceni, vários. Mas esse também é top. Fenômeno demais.
E o mais difícil de marcar? – Eu sempre falei: o mais difícil de marcar, até hoje, foi o Everton Ribeiro. Porque ele era muito de improviso. Naquela época do Flamengo foi muito difícil marcar ele. Eu nunca sabia o que ele ia fazer. Ele já pensava antes, ia para um lado, ia para o outro. De costas, eu achava que ia conseguir pegar e não conseguia. Então, foi um dos caras mais difíceis que marquei.
Pô, então vai ser elogio para ele, porque você marcou até o Robben. – O Robben foi porque foram poucos minutos, um jogo só. Mas o Everton Ribeiro foram vários jogos. O cara é muito chato de ser marcado, meu Deus do céu.
Você tem uns jogos inusitados na carreira, né? Bayern, depois pegou o Barça... – Rapaz, eu tenho uns jogos aí... eu só via esses caras jogando na TV. Eu lembro de estar no túnel, entrando para o jogo no Camp Nou, e olhar para o Messi, daquele tamanhinho, e pensar: “Caramba, como esse cara faz um estrago desse com os adversários?' Eu ficava olhando e pensando: “Que isso, cara?' Já queria tirar foto com ele ali.
E ainda teve competição para ver quem pegava a camisa dele, né? – Ah, não. Eu já peguei a do Douglas, né? A do Douglas, que jogou comigo no São Paulo. Mas as dos fenômenos lá, o Alan Ruschel, o Neto, o Follmann, os meninos, acho que já tinham prometido para eles, como homenagem. Nada mais justo. Mas eu peguei umas camisas lá. Peguei uma do Iniesta, que pedi ao Douglas também. E peguei a do Douglas, que jogou comigo. Conhecer ele e ver ele lá foi maravilhoso para mim.
Nesse jogo, você já era mais experiente. Imagino que contra o Bayern tenha dado uma tremida na perna, porque era o comecinho no São Paulo. – Muito. Nossa, nesse jogo contra o Bayern, meu Deus do céu. Acho que entrei em campo sem acreditar que estava pisando naquele gramado. Mas eu falo que joguei bem, fiz um bom jogo. Só que era muito difícil. Os caras eram feras demais. Eu lembro que o assessor falou: “O Robben só corta para a esquerda'. No primeiro lance ele cortou para a esquerda, depois já foi para a direita, cruzou. Eu falei: “Não tem como marcar esses caras'. Aí foi mais para desfrutar mesmo, ver os caras jogarem. Acho que o jogo foi 2 a 0. Ainda teve pênalti perdido. Mas foi uma experiência muito legal. Depois do jogo, ficar no camarote assistindo Manchester City contra Milan... eu nunca imaginava isso. Eu via pela TV e, de repente, estava lá. O camarote parecia um apartamento. Falei: “Meu Deus, que coisa mais linda do mundo'. Foi uma experiência surreal.
E o jogo da sua vida, qual é? O que mais te marcou, que você guarda com carinho especial? – Não pode ser diferente, né? Contra o Corinthians, lá no Morumbi, quando fiz dois gols. Esse jogo está no meu coração para sempre, porque era clássico, e eu consegui fazer dois gols. Então ficou marcado para sempre. E era sempre muito bom jogar contra o Corinthians.
Como você virou esse exímio batedor de pênaltis? – Graças ao Vagner Mancini. Foi ele quem me deu a oportunidade lá na Chape. O batedor era o Bruno Paulista, que bate muito bem, mas ele tinha perdido uns pênaltis, e eu treinava sempre bem. Aí o Mancini determinou que eu tinha que bater. Fui criando gosto. Vi que, do jeito que eu bato, era difícil para o goleiro. E, graças a Deus, a porcentagem é muito boa. Quando você vai para a marca do pênalti, dá aquele friozinho na barriga. Mas depois que faz o gol, a sensação de liberdade, de felicidade por ter ajudado a equipe, é surreal. Então, graças ao Mancini, que me deu essa oportunidade. Obrigado, professor. Criei muito gosto por bater pênalti e continuo batendo até hoje, graças a Deus, com uma porcentagem muito boa.
Hoje, quem é o melhor batedor de pênalti do Brasil? – Ah, o Neymar, sem dúvida. O jeito que ele bate... acho que os goleiros ainda não têm esse tempo. É muito difícil para os goleiros. Eu converso até com os nossos aqui, é muito difícil bater do jeito que ele bate. Tem ele, tem o Jorginho, do Flamengo, que bate muito bem, mas o Neymar, do jeito que bate, com a frieza que tem, é maravilhoso. Eu gosto muito de ver.
Qual o segredo da sua batida? – Eu não espero. Eu defino um lado e vou. Imagino que o Neymar espere a primeira passada do goleiro, mas eu não espero. Procuro bater muito forte e longe do alcance do goleiro. É isso que eu faço, é isso que eu mentalizo. Eu treino assim aqui e já vou para o jogo sabendo como vou bater.
Reinaldo, você tem um jeito muito bom de contar histórias, é um cara brincalhão, sempre está sorrindo. E tenho a impressão de que você muitas vezes é mais lembrado pelo lado folclórico do que pelo seu futebol. Você acha que, de alguma forma, esse lado folclórico pode te atrapalhar ou pelo menos te estigmatizar um pouco? – Com certeza atrapalhou um pouco. Porque vivi grandes momentos no São Paulo, anos maravilhosos em números, em desempenho, em tudo. E eu acho que, para ser lembrado até em seleção, por exemplo, nunca se falava do Reinaldo, mesmo eu performando em alto nível. Mas depois eu entendi. As resenhas pegaram muito. E eu nem via se tinha alguém filmando ou não, sabe? Isso é automático no meu dia a dia. Quem me conhece sabe que eu sou resenha, converso, brinco com todo mundo. Brinco ainda mais fora da câmera do que na câmera. Na câmera você ainda segura um pouco. Então acho que, sim, todo mundo vai pensando assim: “Entrevistar o Reinaldo vai ser resenha'. Mas nem toda entrevista minha é resenha, porque às vezes eu fico travado. Agora, quando o clima é mais leve, eu vou mesmo na resenha.
E no fim da carreira, mais velho, isso vai ficando mais equilibrado? – Sim. E, quando é para falar sério, eu falo também. Mas, quando é para resenha, é resenha. Tem que ter isso em todo lugar, porque deixa o ambiente bom. E eu não me arrependo de as pessoas me lembrarem também pela resenha. Não me arrependo, porque eu sei o que sou, o que fiz no futebol e o que estou fazendo. Sei da minha capacidade. Então isso para mim é irrelevante. Você vai olhar meus números dentro de campo e vai ver: pô, os números do Reinaldo são top.
– Então é isso que às vezes as pessoas têm que ver. Não só o Reinaldo da resenha. Tem que olhar os números também. Porque, para eu ser sempre lembrado, não é só pela resenha, alguma coisa eu tenho.
– As pessoas ficaram muito na parte da resenha e não olharam tanto para números e performance. Acho que isso pegou muito. Mas agora, no fim da carreira, todo mundo está vendo que não é só resenha, tem futebol também. Até porque hoje eu falo mais. Estou dando mais entrevista. Antigamente eu era muito tímido, travava na câmera. Agora estou falando mais, tendo mais entrevistas, e isso você vai aperfeiçoando. Hoje já aparecem mais perguntas não só de resenha, mas de números, performance, parte tática. Isso é muito importante. Então agora todo mundo está vendo que a vida do Reinaldo não é só resenha, mas também futebol, e futebol de alto nível.
Você acha que, nessa fase final mais recente da carreira, as pessoas estão mudando um pouco essa percepção? – Sim, estão mudando mais. Já existe mais essa percepção de que o Reinaldo não é só resenha, o Reinaldo joga muito também. Isso mudou um pouco mais. Mas, como eu falei, não me importo. Eu sei da minha capacidade, da minha performance, do que faço dentro de campo, e sei que faço com excelência e sempre em alto nível.
Viver em Mirassol te reaproximou de um estilo de vida mais singelo que você tinha no início da vida em Alagoas? – Eu gosto muito dessas coisas simples. Indo para casa tem um carrinho de caldo de cana. Às vezes eu paro lá, sento, peço um caldo de cana, uma água de coco. Gosto muito disso. Gosto muito de andar de chinelo, sem essa obrigação de estar de tênis toda hora. Aqui é quente, favorece. Então eu boto meu chinelinho, vou comprar fruta, vou ao mercado. Tem muita gente que me conhece? Tem, todo mundo já conhece. Mas eu gosto muito de fazer essas coisas básicas, de chegar em casa com tudo pronto para a galera, para meus filhos, para minha esposa.
– Depois do jogo também tem um espetinho em Mirassol que é maravilhoso. Acaba o jogo, eu pego o carro, passo lá, pego uns espetinhos, uma farofa e vamos embora. Bom demais. É muito bom você não ter esse receio de sair, de ir a algum lugar, de encontrar o torcedor. Não é igual em time grande, que às vezes o time perde um jogo e o cara quer bater, quer matar. Aqui em Mirassol, mesmo com derrota ou empate, quando encontro os torcedores, sempre tem carinho, sempre pedem foto. Essa segurança que tem em Mirassol, que tem em Rio Preto, isso é muito bom. Eu recuperei esse prazer de sair, parar num lugar e ficar tranquilo.

