• Sábado, 18 de Abril de 2026

Amigo com seu ex é traição ou “ninguém é dono de ninguém”?

Entre liberdade e respeito, o desconforto que divide opiniões

ALETHEYA ALVES / CAMPO GRANDE NEWS


Ouvimos a psicóloga Adriana Vinholi, especialista em relacionamentos, para falar sobre o assunto. (Foto: Inteligência Artificial)

Os anos se passaram. O relacionamento acabou. Houve dor, choro, bloqueio, unfollow, superação anunciada em voz alta, mas não necessariamente resolvida por dentro. E então, um dia, a surpresa: um amigo ou uma amiga começa a namorar seu ex. Esse é um exemplo comum em muitas relações e que gera assunto em muitas rodinhas por aí.

De repente, a ferida que parecia cicatrizada lateja como se fosse ontem. Vêm os pensamentos inevitáveis: “Como essa pessoa pode fazer isso comigo?' “Isso não se faz.'

Mas, junto com o incômodo, surge uma pergunta menos confortável, e talvez mais honesta: ex é propriedade de alguém? E mais, você pode exigir que um amigo sinta a mesma dor que você sentiu?

Para entender por que essa situação dói tanto, mesmo anos depois, e como lidar com isso de forma mais madura, ouvimos a psicóloga Adriana Vinholi, especialista em relacionamentos.

É importante lembrar que relacionamentos não acabam só quando terminam. Eles deixam hábitos, memórias e, principalmente, vínculos que nem sempre se desfazem no mesmo tempo que o discurso da superação.

“Relacionamento amoroso é rotina, nós nos acostumamos a ter aquele vínculo, aquele alguém para conversar, a companhia para todo e qualquer compromisso, por isso é tão difícil desacostumar', explica Adriana.

Segundo ela, em muitos casos, o apego vai além do afeto. “As pessoas podem ser mais dependentes, seja emocionalmente, financeiramente, sexualmente. Além da ideia do ‘amor da vida’ que nos foi socialmente ensinada, de que só vamos amar uma pessoa na vida, e muitos se apegam a essa crença.'

É nesse espaço, entre o que já acabou e o que ainda reverbera, que situações como essa ganham força.

Existe também um acordo silencioso, quase automático, que circula nas amizades: não se envolver com ex de amigo. Mas até que ponto isso é, de fato, uma regra?

Para a psicóloga, esse tipo de código nasce muito mais da repetição do que da reflexão. “Esses ‘códigos’ vão sendo construídos a partir de crenças da sociedade, as pessoas vivem, observam, repetem e acabam moldando o que é considerado aceitável ou não, o que chamamos de efeito manada. Por isso que não é saudável, porque passamos a aderir a essa ideia de forma automática sem ter um senso crítico e sem analisar os contextos individuais.'

Na prática, isso significa que cada relação funciona de um jeito. O que pode ser aceitável para alguns pode não ser para outros. Por isso, mais importante do que seguir um “código geral' é entender o que foi construído entre aquelas pessoas.

Mas, no meio disso tudo, surge uma dúvida comum e quase sempre carregada de julgamento: existe, de fato, uma obrigação moral de amigos evitarem ex-parceiros?

“Moral não, não é uma regra. Essas ideias foram criadas pela sociedade historicamente. Cada relação tem seus acordos, seus valores, suas percepções. Cabe às pessoas terem responsabilidade afetiva e respeitar esses acordos, e ao mesmo tempo compreenderem que todos têm direito de fazer suas escolhas afetivas.'

Sentir não é o problema. A dor existe, é real e, muitas vezes, inevitável. O ponto de virada está no que se faz com ela, se vira diálogo ou cobrança, se vira reflexão ou tentativa de controle.

“Quando as pessoas passam a acreditar que o outro tem obrigações na relação e, a partir disso, impõem suas próprias opiniões como se fossem as únicas corretas, desconsiderando a perspectiva do outro.'

No fundo, o que dói nem sempre é o amor. “Muitas vezes não é o amor que dói. Pode ser a sensação de substituição, rejeição ou competição. Esse sofrimento pode significar muitas coisas e por isso é fundamental observar com atenção para como aquilo nos afeta e o que diz sobre nós mesmos.'

Ver alguém do passado com alguém do presente, ainda mais alguém próximo, pode ativar feridas antigas.

“Podem ser crenças de abandono, traição, desvalorização, inadequação, comparação, sentimentos de ciúme, inveja, tristeza, raiva, frustração, ansiedade, além de gatilhos de situações passadas em relacionamentos anteriores.'

E, inevitavelmente, isso toca na autoestima.

A autoestima é sobre a forma como nos percebemos, como lidamos com nossas próprias questões e com o mundo à nossa volta. Quando a pessoa é mais madura emocionalmente, mais bem resolvida e com maior tolerância à frustração, esse tipo de problema tende a ser enfrentado de forma um pouco mais equilibrada, o que não anula o fato disso gerar um sofrimento', explica a psicóloga Adriana Vinholi.

No fim, a psicóloga responde que talvez a questão não seja sobre permitir ou proibir, mas sobre como cada um lida com suas próprias emoções e com as escolhas do outro.

“Agir com empatia é sobre comunicar ao outro com clareza aquilo que sente, aquilo que é importante e que gera possíveis expectativas', orienta.

E sim, existe uma forma possível de dizer: eu entendo sua dor, mas essa é a minha escolha.

“Importante pensar em uma comunicação mais assertiva, esclarecedora, pacífica, empática, pensando no que é dito, como é dito, a postura e o tom da voz para que não soe agressivo ou conflituoso e ao mesmo tempo também se colocar à disposição para ouvir e acolher o outro que sofre com isso', finaliza.

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