• Quinta, 23 de Abril de 2026

A história do ex-árbitro que sumiu após erro em final e agora sonha com carreira de brigadista

Cláudio Mercante teve carreira abreviada na arbitragem por causa de polêmica na final do Pernambucano de 2011; 15 anos depois, ex-árbitro revive (e assume) erro

GLOBOESPORTE.COM / CAMILA SOUSA


Cláudio Mercante, ex-árbitro, hoje atua como brigadista civil em Brasília — Foto: Arquivo Pessoal

O primeiro e único apito, o escudo de aspirante Fifa e dois cartões são as recordações materiais de uma história que teve início, meio e fim na vida de Cláudio Luciano Mercante Pessôa Júnior. Aposentado desde 2015, o ex-árbitro pernambucano deixou o Recife para, recentemente, assumir uma nova função: brigadista civil no Distrito Federal.

Esse movimento não foi espontâneo.

"Você vai procurar, mas não vai achar nenhum lance como aquele. Você pode assistir mil jogos e não vai ter um lance feito aquele, em seis segundos. Eu não digo que foi azar, não gosto da palavra. Mas tive pouca sorte por ter acontecido comigo".

Após mais de 300 jogos e 25 clássicos, Cláudio Mercante encerrou sua carreira de árbitro em 10 de março de 2015, quatro anos depois de enfrentar a maior punição já imposta a um juiz local até então.

Uma década depois, ele decidiu lidar com a ferida e reviver o lance que mudou — mas não moldou, como sustenta — a própria carreira. O primeiro jogo da final do Campeonato Pernambucano de 2011 entre Sport x Santa Cruz, a segunda e última decisão por título em que o árbitro trabalhou.

O ex-Santos e Flamengo que hoje tenta superar a depressão na 5ª divisão

Série B tem mais vitórias de visitantes do que mandantes após cinco rodadas

A fotografia do caos

O relógio marcava seis segundos no cronômetro. O tempo necessário para Bruno Mineiro, atacante do Sport, disparar em direção à bola, sob posse do zagueiro Thiago Mathias, último homem do Santa Cruz. E ver o defensor escorregar, permitindo-lhe caminho livre para chegar ao gol tricolor.

Não aconteceu, porque Thiago se jogou no corpo de Bruno, impedindo sua passagem. Mercante marcou falta, mas não expulsou o jogador coral, advertindo-o somente com cartão amarelo. Era o início do estopim na Ilha do Retiro — que terminou em vitória do Santa por 2 a 0 e título tricolor.

E amplificado pouco tempo depois em lance com o mesmo Thiago Mathias. O zagueiro cometeu outra falta em Bruno Mineiro e não recebeu o segundo amarelo, cobrado pelos rubro-negros. Quase 15 anos após aquele 8 de maio de 2011, Mercante assume o arrependimento:

— Qual árbitro nunca errou? Eu infelizmente errei. A visão minha, na hora, era de que tinha um zagueiro que dava condição para o lance continuar. Foi muito ruim, prejudicial, mas aconteceu — declara.

"Se eu pudesse voltar atrás... Com certeza o único lance da minha carreira era esse. Porque prejudiquei uma equipe, numa final, mas o árbitro está passível de erro", desabafa.

— No primeiro lance, se fosse voltar hoje, com certeza seria vermelho direto. No segundo a minha preocupação foi se a bola foi dentro ou fora, e marquei certo porque foi fora. Se tivesse o VAR, o lance seria até anulado, porque o Bruno Mineiro estava à frente da linha da equipe dele no início do jogo. O lance teria que ser repetido no tiro inicial. Não vi porque estava de costas. Se eu tivesse visto com certeza o lance seria anulado. Então não teria falta nem cartão — acrescenta Mercante.

Uma montanha russa de sentimentos difícil de acreditar quando semanas antes do jogo confidenciava a amigos e família o reconhecimento pelo próprio trabalho. Era uma promessa em ascensão.

+ Em reprise de final com Sport, Santa Cruz revive polêmica de arbitragem e ironiza lance decisivo

— Lembro que uma semana antes eu tinha apitado Sport x Náutico. Depois, fui pra Granja Comary fazer cursos. Depois, escalado para apitar a semifinal do Campeonato Mineiro, jogo massa, detonei no jogo. E quando desço pra Recife, recebi a notícia da final. Eu estava sendo reconhecido — lembra.

Mas o impacto daquele dia se sobrepôs à vida e à carreira de Mercante. Em especial também pela entrevista reveladora do árbitro ao Superesportes, do Diario de Pernambuco, confidenciando a pressão do presidente da Federação, Carlos Alberto Oliveira, para não ter expulsões no início das finais.

A declaração lhe tirou do clássico entre Náutico x Santa Cruz, que seria o seu primeiro grande jogo envolvendo dois grandes do Estado após a geladeira, a menos de 24 horas do jogo.

— Não queria entrar nesse tópico. Cada um tinha um jeito de fazer as coisas e infelizmente é o que aconteceu. Foi tanta coisa, sabe, que passou? É fogo. O árbitro tem que cumprir a regra, infelizmente . Em 2011, logo depois do Estadual, começo a não apitar mais jogos da Série A. Apitei mais Série B e Série C. Fui perdendo o prazer de trabalhar — conta.

A nova vida de Cláudio

A última dança de Mercante à beira do campo foi em 10 de março de 2015, na partida entre América e Pesqueira, valendo o Hexagonal da permanência do Pernambucano. Em 30 de abril, sem ser aproveitado mais para jogos, o árbitro tornou pública a aposentadoria.

Trabalhou como consultor de arbitragem por mais dois anos, até chegar o momento de tirar de vez a farda e construir a vida no anonimato. Dali em diante, seria só Cláudio.

"Não estava sendo mais reconhecido, vem com uma parte de tudo que tinha acontecido e também não estava mais alegre de apitar. Chegou o momento de pedir o afastamento total. Tudo na vida tem início, meio e fim. Aí desisti de tudo. Ficou só a lembrança, o legado e o nome", descreve.

Entre a mágoa e o desejo pelo recomeço, Mercante confessa ter doado o uniforme de árbitro a um colega pessoal que apita jogos de bairro no Recife. As memórias de uma jornada de 20 anos no esporte viraram coisa pouca: o escudo de aspirante Fifa, um apito Fox 40, lançado na Copa de 94 e presenteado pela mãe, e os dois cartões da última partida que apitou.

Foi então que surgiram as dificuldades para se recolocar no mercado de trabalho.

Para se virar longe do futebol, Cláudio passou a trabalhar como motorista de aplicativo nas ruas do Recife e de Olinda. Levar e trazer passageiros virou a profissão do ex-árbitro até 2021. Aos domingos, também ganhava um extra apitando peladas de amigos e outros jogos beneficentes.

Mas a vida na capital pernambucana, onde nasceu e constituiu família, teve um fim. Uma proposta de uma empresa de locação de carros em Brasília seduziu Mercante a sair de casa. De 2022 em diante, viraria morador da capital federal.

A aposta não deu muito certo, Cláudio ficou pouco tempo no novo emprego e começou a trabalhar no setor administrativo em uma companhia de cargas. Também teve passagem curta. Até um amigo lhe aconselhar a fazer um curso de brigadista civil no fim de 2025.

Foram três meses de treinamentos até concluí-lo. Mercante assumiu na nova função: diferentemente de quando era árbitro, a rotina é mais tranquila para ficar com a família. Mas não aos fins de semana, quando é demandado para trabalhar em eventos e outros festivais na cidade.

Recentemente, o ex-árbitro pernambucano atuou como brigadista nos Ensaios de Anitta e no show da cantora sertaneja Simone Mendes e postou fotos nas redes sociais.

— Tem de tudo, né? Já atendi muita gente bêbada (rs) — brinca.

As saudades de Mercante

Mas, depois de tudo, será que Cláudio Mercante pensa em voltar a apitar? Sente saudade dos gramados? Ele primeiro diz que é assíduo acompanhante dos jogos, em especial do Pernambucano, elege Raphael Clauss como o melhor do país, para depois responder:

— Quando decidi parar não teve mais volta. Se você perguntar: você tem saudade? Tenho, tenho muita lembrança boa. Eu às vezes fico vendo vídeos e mostro para a minha esposa: 'sou eu que estava nesse jogo'. Era eu que estava naquele estádio decidindo as regras do futebol — afirma.

"Tem jogadores que lhe respeitam, sabem do seu potencial, quem você é... Isso me dá saudade. Preparar a mala, a bolsa, para viajar e chegar no vestiário. Entrar no gramado para ver o campo duas horas antes e depois botar uniforme é o que sinto mais falta", resgata Mercante.

São fragmentos, lembranças de um passado não tão distante e que não há mais volta. Fruto de uma carreira abreviada por um erro decisivo, polêmico e, por que não, inesquecível.

Ela ofereceu o melhor e o pior a Mercante - que segue sonhando alto fora do futebol.

— Sinto muito orgulho do que eu fiz, de onde comecei, um campo de barro batido, e chegar para apitar em Maracanã lotado. Foi muito massa minha carreira, sempre honesto. Errei? Errei. Mas tive mais acertos que erros. A primeira realização da minha vida foi ser árbitro. Foi o que botei na cabeça e disse para minha mãe: 'eu vou ser um árbitro reconhecido no Brasil' e fui. Tô muito feliz com o que sou hoje. E tudo isso vem pelo que eu fiz antes, e o que galgo agora é crescer mais na brigada — finaliza Cláudio.



Ao utilizar nossos serviços, você aceita a política de monitoramento de cookies.
Para mais informações, consulte nossa política de cookies.