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Filme sobre Lídia Baís começa a ser gravado em Campo Grande
Filmado no casarão histórico, longa recria a vida da pintora com figurinos, objetos e relatos históricos
KAMILA ALCâNTARA / CAMPO GRANDE NEWS
Na Morada dos Baís, o relógio parece ter desaprendido a correr. O casarão histórico no Centro de Campo Grande virou uma espécie de portal para a vida de uma das figuras mais inquietas da arte sul-mato-grossense. É ali, onde a própria Lídia Baís viveu, que está sendo gravado “Lydia', longa-metragem dirigido por Ricardo Câmara sobre a trajetória da artista que enfrentou o conservadorismo da própria época para viver da arte.
A produção mistura nomes consagrados e artistas locais em uma cinebiografia que tenta fugir do formato “engessado' de homenagem histórica. A ideia, segundo o diretor, é mostrar não apenas a pintora surrealista, mas a mulher complexa, intensa, espiritualizada e muitas vezes incompreendida que transformou a própria casa em território de criação.
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“Lídia sempre transitou entre as figuras admiráveis do Mato Grosso do Sul que nos servem de referência, como Helena Meirelles, Conceição dos Bugres e Manoel de Barros. Essas figuras formam o panteão artístico do Estado', resume Ricardo Câmara. Jornalista formado pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e doutor em humanidades pela Universidade Autônoma de Barcelona, ele conta que o roteiro nasceu durante a pandemia, depois de cair em suas mãos um livro sobre a artista.
“Ao ver aquelas imagens, disse ao meu sócio: ‘Temos que fazer um filme sobre a Lídia’. Com a chegada da Lei Paulo Gustavo, vimos a oportunidade de realizar nosso primeiro longa de ficção', afirma.
O diretor diz que a produção foi construída quase como uma grande roda de memória coletiva. Reuniões com artistas, pesquisadores e pessoas que conviveram com Lídia ajudaram a alimentar o roteiro com histórias, detalhes e impressões afetivas.
“Nossa forma de fazer este filme remete ao início do cinema: de maneira muito colaborativa. Reunimos muitas pessoas para ouvir histórias sobre a Lídia, em reuniões festivas com nomes como Humberto Espíndola e Júlio Figueiredo. Dessas conversas brotaram vivências que inserimos no roteiro para trazer realidade à história', explica.
O filme também mergulha nas raízes sul-americanas da artista. Parte da pesquisa visual foi feita em Assunção, no Paraguai, onde Lídia passou a infância. “Costumo dizer que ir a Assunção é como voltar para a casa de uma mãe, pois reconhecemos ali toda a base da cultura sul-mato-grossense', afirma Ricardo.
No elenco, a atriz campo-grandense Beatrice Sayd interpreta Lídia na juventude. Já a cantora Alzira E vive a artista na fase mais velha, quando ela passa a ser chamada de Irmã Trindade. O filme ainda reúne nomes como Ney Matogrosso, Ana Brun, Gisele Sater e Breno Moroni.
Para Beatrice, o projeto também representa uma rara oportunidade para o audiovisual produzido em Mato Grosso do Sul ganhar musculatura própria.
“Vivemos em um Estado onde a cultura é um quesito preocupante. Percebo que, tanto no âmbito municipal quanto no estadual, não há um real interesse em se investir em cultura', critica. A atriz afirma que muitos projetos passam pelo Estado sem deixar vínculos duradouros com os artistas locais.
“Minha impressão sempre foi a de que as pessoas vêm ao Mato Grosso do Sul, fazem um trabalho, mas não fazem questão de nos conhecer ou de estar com a gente. Vêm, vão embora e tudo continua igual. Este projeto é diferente porque é um trabalho muito coletivo, bonito e grande para o que costuma acontecer aqui.'
A atriz Gisele Sater, que interpreta Amélia, mãe de Lídia Baís, diz que a preparação para o papel mudou completamente a imagem que tinha da personagem. Segundo ela, os livros e relatos históricos revelaram uma mulher mais sensível e afetuosa do que imaginava inicialmente.
“Isso me deu um ‘estalo’, porque eu achava que ela seria uma mulher mais dura, típica daquela época. Mas ela tem essa doçura e uma relação boa com a filha mais velha, mesmo sendo uma mulher muito tradicional e de acordo com o seu tempo', conta.
Para Gisele, gravar dentro da própria Morada dos Baís tornou o processo ainda mais emocional. “Tem momentos em que a gente se emociona do nada. Hoje, enquanto fazia as fotos, parei para pensar nessa mulher sentada nesta mesma casa... é uma reprodução da vida dela. É uma oportunidade incrível viver isso neste lugar.'
A própria atmosfera do set parece atravessar o elenco de maneiras diferentes. A atriz Giovanna Zottiono, que interpreta Celina, irmã de Lídia, diz que voltar à Morada dos Baís adulta teve um peso emocional inesperado.
“Foi como se eu estivesse revisitando essa história que aconteceu aqui, com aquelas pessoas, mas também resgatando um pouco da minha infância', conta. Sem muitos registros históricos sobre a personagem, ela afirma que o trabalho exigiu uma construção quase intuitiva. “Tivemos que quase imaginar e criar a personagem do zero.'
Já o ator Fábio Umêda, intérprete de Aydano, irmão mais novo de Lídia, descreve a sensação de entrar no casarão como uma imersão total em outra época. “Parece que você realmente está entrando no universo dos anos 30. Isso me faz pensar em como as pessoas daquela época tinham uma relação diferente com os objetos, com as coisas e com o próprio tempo.'
Segundo ele, Aydano era uma espécie de refúgio emocional para a artista. “Para ela, o irmão era um conforto.'
Entre os relatos mais marcantes do elenco está o de Jéssica Barbosa Cauim, que interpreta Benedita, figura cercada de mistério na vida de Lídia. Benedita teria sido entregue ainda jovem à artista e permanecido ao lado dela até o fim da vida.
Ao chegar em Campo Grande para o filme, Jéssica conta que passou a tentar entender a presença negra na história sul-mato-grossense e se surpreendeu com as respostas que ouviu.
“Eu estou em uma região que circula muitas pessoas brancas e, no primeiro momento em que eu perguntava [sobre a presença negra], as pessoas falavam: ‘não, aqui não tem’', relata.
Para Jéssica, a Morada dos Baís também carrega uma dimensão social muitas vezes esquecida. “Este local teve uma função não só histórica, dentro da trajetória de uma artista, mas teve uma função social. Esse lugar que a Lídia ocupava envolvia a preocupação com o cuidar e o olhar para uma população que, na época, era rejeitada.'
A cantora Alzira Espíndola, que estreia no cinema vivendo a fase mais velha de Lídia, trata a personagem quase como uma presença que já rondava sua vida antes mesmo do convite.
“Lídia foi a primeira artista de Campo Grande e estar representando-a é algo muito grande', diz. Ela conta que o pai chegou a trabalhar como contador da artista e que a mãe dizia enxergar a figura de Lídia na janela da Morada dos Baís anos depois.
“Minha mãe sempre passava na frente da casa e via a Lídia na janela. Mas Lídia já não era mais viva. Era algo quase espiritual', termina.
Icônica e surrealista - Nascida em Campo Grande, Lídia Baís (1900-1985) foi uma pintora surrealista e artista visionária que rompeu com os padrões provincianos de sua tradicional família sul-mato-grossense ao se lançar à experimentação artística, literatura e composição musical.
Ao longo de sua trajetória, ela circulou entre grandes nomes do modernismo e viajou pela Europa, desenvolvendo uma linguagem própria que dialogava com o expressionismo e o surrealismo, sem se prender a uma única escola.
Impossibilitada de seguir carreira fora de sua cidade natal, transformou a própria residência, a Morada dos Baís, em um território de criação e resistência, onde produziu obras icônicas como o 'Micróbio da Fuzarca' e dedicou seus últimos anos ao projeto de um museu que atravessa seu legado artístico e espiritual.
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