• Domingo, 24 de Maio de 2026

Com tinta e criançada no asfalto, emoção da Copa toma rua de Campo Grande

Crianças, pais e idosos passaram o domingo entre futebol, arte e lembranças afetivas

GABI CENCIARELLI E GENIFFER VALERIANO / CAMPO GRANDE NEWS


Crianças ajudaram na pintura da rua durante ação no Bairro José Abrão (Foto: Paulo Francis)



Por algumas horas deste domingo (24), a Rua Armando Holanda, no Bairro José Abrão, deixou de ser apenas passagem de carros para voltar a ser aquilo que muita gente lembra da infância em ano de Copa do Mundo: ponto de encontro, brincadeira, futebol na rua e vizinhos reunidos em volta da tinta fresca no asfalto.

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Enquanto crianças pintavam estrelas amarelas no chão, adultos tiravam fotos, organizavam churrasco na calçada e lembravam das antigas Copas em que cada morador ajudava a colorir a própria rua. Em meio ao som do DJ, partidas improvisadas de futebol e cheiro de spray de tinta, a ação “Veste a Rua', promovida pela Centauro em parceria com o Podpah Funkbol Clube, acabou funcionando menos como evento publicitário e mais como um resgate afetivo de uma tradição brasileira que, aos poucos, foi desaparecendo.

A intervenção homenageou o tetracampeonato da Seleção Brasileira, conquistado em 1994, e reuniu moradores de diferentes idades no entorno da Praça do José Abrão.

O produtor do Podpah Funkbol Clube, Enzo Ciccarelli, contou que o projeto já passou por Manaus (AM), Santo André (SP) e Maringá (PR) antes de chegar a Campo Grande, mas afirmou que a essência da ação continua sendo a mesma em todas as cidades: devolver a rua para as pessoas.

“É uma ação que estamos realizando há algum tempo. A primeira rua pintada por esse projeto foi em Manaus, depois São Paulo, no bairro Santo André, e passou em Maringá antes de vir para Campo Grande. A última cidade vai ser Recife', disse.

No meio da movimentação, Enzo observava crianças ajoelhadas no asfalto tentando preencher os desenhos e lembrou que a tradição também atravessa a história da própria família.

“É muito louco participar disso junto ao Funkbol Clube, que é a minha casa. É uma sensação maravilhosa, porque o lance de pintar rua é uma coisa que meu pai fazia. Meu avô levava meu pai para pintar as ruas de São Paulo.'

Segundo ele, a preparação começou ainda no sábado, quando o grafiteiro responsável desenhou toda a arte no chão. Neste domingo, o bairro tomou conta da rua.

“A primeira Copa que participei pintando rua já foi trabalhando', brincou. “Foi muito da hora, porque agita a criançada do bairro. Hoje em dia, com a tecnologia, as coisas estão muito diferentes. As crianças são acostumadas com celular e iPad, e a gente tirar elas de casa para vir pintar rua é uma coisa que a gente não está acostumado a ver hoje em dia.'

Ao longo da manhã, cerca de 50 pessoas passaram pelo local. Além da pintura, a organização promoveu campeonato relâmpago de futebol, distribuição de brindes e apresentações musicais.

Representante de marketing da Centauro, Diogo Uehara disse que o envolvimento do bairro surpreendeu até a organização.

“Aqui em Campo Grande foi uma festa absurda. O pessoal do bairro e toda a vizinhança se uniu. Tivemos um monte de eventos, jogo de futebol, show com DJ, foi muito legal. O pessoal comprou muito a nossa ação.'

Segundo ele, a cena mais marcante foi justamente ver diferentes gerações dividindo o mesmo espaço.

“Tinha até uma placa escrita ‘pessoas trabalhando em busca do hexa’. É uma coisa que todo mundo se une. Hoje a gente vê crianças de 3, 4 anos e até senhor de idade de 70 anos, pessoas que viram as conquistas do Brasil. Está todo mundo muito unido.'

Diogo também relembrou as pinturas feitas na rua onde morava, em São Paulo, quando era criança. Para ele, o evento ajuda a recuperar uma memória coletiva que acabou sendo engolida pela rotina e pela tecnologia.

“A tradição foi se perdendo. É muito legal trazer essa memória de criança agora trabalhando.'

A mistura entre futebol e arte também deu o tom da ação. Responsável pelo desenho no asfalto, o grafiteiro Muriel Curunex, de 38 anos, disse que enxergou no projeto uma oportunidade rara de aproximar duas culturas populares que normalmente caminham separadas.

“O José Abrão faz parte da cultura hip-hop. Achei da hora juntar o grafite, a arte de rua, com o futebol, porque o grafite não aparece 8, 9 horas da noite numa quarta-feira na televisão, mas o futebol sim.'

Trabalhando com grafite há 18 anos, Muriel contou que nunca tinha pintado asfalto antes. Mesmo assim, afirmou que a experiência mais importante foi a interação com quem passava pela rua.

“Me senti privilegiado de ser escolhido para essa ação. Acho que o mais importante é a interação com a arte, colocando ela como palco principal desse rolê.'

Enquanto pintava detalhes da arte, ele via crianças observando cada movimento e pais se aproximando para conversar. “Foi louco ver a empolgação da criançada, dos pais também, porque acho que, para os pais, essa cultura faz parte da criação, não é aleatório.'

Para Muriel, o grafite e o futebol compartilham justamente essa capacidade de criar pertencimento coletivo. “O grafite começa de dentro para fora. Começa no quarto, depois vai para casa e depois para a comunidade. É legal ver esse vínculo com a comunidade.'

No meio da rua tomada por tinta verde e amarela, a educadora Aline Chimes, de 49 anos, acabou ficando no evento por acaso. Ela passava pelo bairro com a filha de 9 anos quando decidiu parar para acompanhar a movimentação.

“Eu achei muito interessante trazer esse show aqui para o nosso bairro. Eu e minha família nem sabíamos, estávamos passando e já ficamos.'

Ela lembrou que fazia muitos anos que não via algo parecido em Campo Grande. “Já participei de ação como essa, mas em outro bairro, faz tempo, quando a tocha olímpica veio para a cidade.'

Perto dali, um grupo de amigos acompanhava a pintura em volta de uma churrasqueira improvisada na calçada. Entre bandeiras do Brasil e cadeiras espalhadas pela rua, a pedagoga Luciene Caiçara dizia enxergar na cena algo maior do que apenas futebol.

“Isso é muito importante, muito legal. A gente resgata uma cultura que já era do bairro. Antigamente, a gente fazia cada um na sua rua.'

Para ela, o principal valor da ação está justamente em criar experiências que muitas crianças de hoje já não vivem mais.

“É um resgate das épocas da nossa geração, que as crianças de hoje em dia não têm essa vivência. Hoje elas tiveram essa oportunidade de vivenciar isso, pintar as ruas e torcer.'

Luciene faz uma pausa antes de concluir que o sentimento coletivo visto no José Abrão não cabe apenas dentro do esporte.

“Não é só futebol. Eu vejo como cultura, socialização e alegria. Algo que vai além do futebol.'



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