• Terça, 02 de Junho de 2026

Paciente do Caps, Hilda enfrenta desemprego ensinando kokedama

Diarista e artesã sentiu a dor de portas fechadas pelo preconceito e viu esperança sendo professora

NATáLIA OLLIVER E RAíSSA ROJAS / CAMPO GRANDE NEWS


Paciente do Caps, Hilda enfrenta desemprego ensinando kokedama (Foto: Raíssa Rojas)

“Eu estou no Caps e não sou bicho'. A frase que Hilda Basília Franco, de 52 anos, diz entre pausas vem carregada de memórias e decepções desde que teve as portas do mercado de trabalho fechadas e se viu sem opções de sustento. O gosto ainda é amargo. E o sabor não muda porque o cenário ainda é igual. Para lidar com a dor do desemprego, ela decidiu usar os dons com as plantas e ensinar kokedama, técnica japonesa de plantação, para outros pacientes.

“Eu não sou bicho. Muitas vezes fui atrás de um serviço para eu poder trabalhar, falava que fazia tratamento, que tinha horário para sair. As pessoas falavam que depois me ligariam e nunca mais me ligavam. Tem gente que olha para mim e fala: Caps? Então você não tem como trabalhar na casa dos outros'.

Diagnosticada com síndrome do pânico e bipolaridade, Hilda ganhava a vida como diarista, mas viu tudo mudar após um episódio traumático. Hoje, ela faz limpezas apenas em uma casa, a única que a aceitou, mesmo tendo experiência na área. O cenário preocupa. Mesmo diante das inúmeras barreiras, Hilda não abre mão do tratamento no Caps (Centro de Atenção Psicossocial).

“Você se sente impotente porque eu preciso estar aqui e preciso trabalhar, não tenho de onde tirar uma renda. Como vou viver? Não tem como. Vou ficar dependendo das minhas filhas? Elas também têm família, criança para cuidar. Não posso ficar escorrendo nelas o tempo todo para comprar remédio, comprar as coisas. Tenho que me virar. Aí você escuta um ‘não’ desses'.

Todos os dias, o amargor se intensifica na boca de Hilda. O que salva, segundo ela, são as horas que passa fazendo kokedama. Ela aprendeu a técnica, em que a planta cresce dentro de uma bola de substrato envolta por musgo, em um mês.

A internet foi a professora e a ideia de transformar isso em aula e fonte de renda veio das psicólogas do lugar, através do projeto Viver é Arte.

“Peguei no YouTube e fui tentar, mostrei e me falaram para fazer aqui também. Tem dia que não tenho ânimo para nada e isso tira um pouco da minha rotina. É bom distrair e deixar a gente mais calmo. Não tem coisa melhor que mexer com terra. Às vezes a gente se sente para baixo e vou mexer com as minhas plantas. Em casa tem bastante. Eu trago de lá para cá. Nunca pensei que fosse ensinar as pessoas, é legal'.

Hilda ainda dá recado para quem acha que condição psicológica é mimimi e que laudo é enganação. “Eu queria que eles entendessem que a gente faz tratamento não é porque é doido, é porque é necessário. Às vezes passou por alguma coisa ruim e ficou com as sequelas daquilo ali, que foi o meu caso. Eu queria que eles (patrões) entendessem que isso não é só com a gente que acontece, pode acontecer com eles também'.

Há dois anos no projeto, Hilda não pensa em abandonar as plantas e lamenta o jeito que as coisas são. “Em muitos lugares que eu fui ninguém aceita a gente. Fala que o Caps toma muito tempo, porque tem que vir no médico, tem horário para vir para cá. Agora venho só às quintas-feiras. Antes de fazer isso, fazia vasos de flores decorativos, aí parei com eles e comecei isso aqui'.

Quem vê de perto a dor da artesã é a psicóloga Letícia de Oliveira Rodrigues. Ela explica que o trabalho é uma das maneiras de as pessoas se colocarem no mundo, se sentirem realizadas, além, claro, da questão existencial, ou seja, da renda.

“É uma coisa muito central e as pessoas que fazem algum tipo de tratamento enfrentam muita dificuldade de se manter no mercado de trabalho, de serem aceitas e respeitadas ou até encontrar um lugar que consiga respeitar os limites delas. Isso vem de encontro a essa necessidade do grupo. Também é uma forma de geração de renda, um espaço onde eles conseguem se sentir incluídos'.

Ali, cada planta ou outra arte que os pacientes fazem é uma maneira de eles estarem presentes na própria vida. É uma forma de se fazerem enxergar e serem enxergados.

“Isso quebra o preconceito no sentido que a gente olha e fala: ‘isso fui eu que fiz, eu sou capaz de produzir, isso tem minha marca, carrega minha história’. É um produto que está circulando na sociedade, na economia. O sujeito se coloca nesse produto e passa a ocupar o meio social, as feiras da cidade, lugares que antes, muitas vezes, eram negados a eles, algumas vezes de forma velada'.

Letícia relembra que, durante muito tempo, os tratamentos para pessoas com transtornos mentais foram feitos em ambientes fechados, os antigos manicômios. Essa estrutura física e social significava a separação dessas pessoas.

“Elas eram retiradas do meio social porque não era ‘permitido’. Elas eram vistas como pessoas perigosas que não poderiam circular livremente pela cidade. Quando a gente trata elas de uma forma diferente, traz elas e oferece isso, a gente está combatendo o preconceito. A gente faz essa escuta e enxerga a potencialidade dessas pessoas. A gente favorece espaços e estimula esse saber que elas trazem e a maioria se entrega'.

Outras artes

Astrogildo Diniz, de 67 anos, é bolsista da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz ) e artesão. Faz cachecol, mas já fez de tudo, até origami. “Sei fazer papel machê, pinto pano de prato. Eu já vendi meus trabalhos. Desde 2000 faço isso. É uma terapia e, se a gente não faz, às vezes fica pior. Se eu fico parado, é pior para mim'.

O artesão explica que, antes do problema psicológico, trabalhava normalmente, era saudável e jovem. “Aí fiquei doente e fui só para o hospital. Depois fui para o Caps e me aposentei. Não podia mais trabalhar'.

Brenon Vinicius da Cunha, de 32 anos, é desenhista. Começou em 2020, já no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), e desde então nunca mais parou. A arte escolhida por ele é a aerografia, um tipo de pintura semelhante ao spray, mas feita com caneta.

“Eu já desenhava e tive a chance de continuar mostrando a arte que eu faço. Participo há dois anos desse projeto Viver é Arte no Caps. Existe uma dificuldade, mas depois que vê a gente pensa diferente. Aqui, até com alguns problemas, as pessoas podem ser produtivas também'.

A psicóloga residente em saúde mental, Larissa Sales Rocha, conta que viu a necessidade dos pacientes quanto à geração de renda, a vulnerabilidade socioeconômica que muitos têm e uma rede de apoio totalmente fragilizada.

“A gente viu que a potencialidade deles é uma forma de gerar renda. O grupo Viver é Arte é um grupo jovem que está completando dois anos. Esse título de ‘do que você trabalha’ também te define. Muitos deles estão afastados do trabalho há muitos anos e isso vai gerando sentimentos de menos-valia, de perda das capacidades funcionais e cognitivas, por uma rotina muito parada e monótona'.

Ela acrescenta que o trabalho é um condutor de saúde mental. A oficina funciona como um fator de significação, ao permitir que a pessoa se identifique com o que faz.

“A gente está incluindo pela produtividade quem não produz. Quem é, muitas vezes, dito inútil, como quem não quer nada com a vida. Existem diversos preconceitos diante das pessoas que têm alguma complicação relacionada ao trabalho. A gente vive em uma sociedade que invalida esses indivíduos'.

Acompanhe o Lado B no Instagram @ladobcgoficial, Facebook e X. Tem pauta para sugerir? Mande nas redes sociais ou no Direto das Ruas através do WhatsApp (67) 99669-9563 (chame aqui).

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para entrar na lista VIP do Campo Grande News.



Ao utilizar nossos serviços, você aceita a política de monitoramento de cookies.
Para mais informações, consulte nossa política de cookies.