• Sábado, 06 de Junho de 2026

Mortes de 3 mulheres em Campo Grande abrem debate sobre violência silenciosa

Famílias de Ely, Ludmila e Fabiola falam de sofrimento psicológico que acabou com a vida das três

GABI CENCIARELLI / CAMPO GRANDE NEWS


Ely Quevedo, Ludmila Pedro de Lima e Fabiola Marcotti (Foto: Redes Sociais)

Ludmila Pedro de Lima tinha 25 anos quando morreu após passar mal na casa do namorado. Fabiola Marcotti tinha 51 quando foi encontrada morta com um tiro na cabeça dentro da chácara onde vivia com o marido. Ely Quevedo tinha 53 quando caiu de uma caminhonete em movimento na BR-163, em Campo Grande.

As três morreram este ano, supostamente por suicídio, deixaram famílias em busca de respostas e acabaram inseridas em uma discussão que vai muito além dos inquéritos policiais: até que ponto contextos de violência podem contribuir para mortes que não têm uma agressão direta comprovada?

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Os três casos têm circunstâncias distintas, conclusões diferentes e não são tratados pela polícia da mesma forma. O ponto em comum é a discussão sobre como investigar mortes de mulheres sob perspectiva de gênero.

Quando um homem atira, agride até a morte ou coloca fogo em uma mulher, a violência costuma ser evidente. Há uma vítima, um suspeito, uma investigação e uma palavra para definir o crime: feminicídio. Mas o que acontece quando a morte chega de outra forma, quando uma mulher morre após meses ou anos de sofrimento emocional, humilhações, isolamento, controle, medo ou perda da esperança?

Para a ex-ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, a pergunta não é simples porque a sociedade costuma enxergar apenas a etapa final da violência. 'O processo da violência termina no feminicídio, mas começa muito antes', afirma.

Três mortes, uma mesma pergunta 

A primeira dessas histórias aconteceu em março. Ludmila Pedro de Lima tinha 25 anos quando morreu na casa do namorado, no Bairro Paulo Coelho Machado. Segundo o boletim de ocorrência, a jovem sofreu convulsões na residência e foi levada em estado grave para a Santa Casa, onde morreu horas depois.

À polícia, o namorado relatou que os dois haviam discutido por ciúmes. Pessoas próximas, porém, não aceitaram a versão.

Amigos disseram ao Campo Grande News que a jovem não demonstrava qualquer comportamento que indicasse intenção de tirar a própria vida. Também relataram histórico conturbado no relacionamento e afirmaram que Ludmila já havia registrado boletim de ocorrência e obtido medida protetiva contra o rapaz.

'Ele chegou a ficar preso por causa de violência contra ela. Ela tinha medida protetiva. Era muito agressivo com ela', relataram amigos à reportagem na época. Outra amiga descreveu a jovem como uma mulher dedicada à família, à filha e ao trabalho.

Apesar dos relatos, a Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) informou que não foram encontrados indícios técnicos ou periciais capazes de sustentar a hipótese de feminicídio. Ainda assim, a investigação foi conduzida sob perspectiva de gênero até a conclusão dos laudos. Mas a decisão não encerrou o caso para a família. No início deste mês, o advogado Jossandro Oliveira confirmou que os familiares pretendem recorrer ao MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) para pedir uma reavaliação da investigação.

A morte de Ludmila acabou levantando uma discussão que voltaria a aparecer em outros casos registrados em Campo Grande nos meses seguintes: até que ponto é possível analisar uma morte sem observar o contexto emocional, familiar e relacional vivido pela vítima antes dela?

Para a psicóloga Suellen Santos, que atuou por cinco anos no Centro Especializado de Atendimento à Mulher em Situação de Violência Doméstica e Sexual, existe um nexo entre violência e adoecimento mental.

'Existe um nexo causal entre a violência doméstica e sexual e o adoecimento mental. A violência é um fator de risco porque abre a questão do trauma, principalmente quando ela é recorrente', afirma.

Segundo ela, mulheres submetidas a ciclos de violência podem desenvolver depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e pensamentos suicidas. 'Elas começam a ter ideações suicidas e depois podem ir para tentativas de suicídio.'

Pouco mais de um mês depois da morte de Ludmila, outra história mobilizou Campo Grande. Arquiteta, atleta, corredora e apaixonada por vôlei, Ely da Silva Quevedo tinha 53 anos e vivia uma fase que ela própria definia como de reconstrução.

Nas redes sociais, compartilhava treinos, encontros com amigos, corridas de rua e mensagens sobre amor-próprio, autocuidado e recomeços. Em uma das publicações, escreveu: 'Se permita, se ame, se faça feliz'. Em outra, aconselhava os seguidores a jamais priorizar 'uma relação ou uma pessoa que te machuque e faça você duvidar de si'.

Horas antes de morrer, fez a última postagem. 'Segundamos. Senhor, a sua guerreira já está de pé.'

Na manhã de 13 de abril, Ely estava em uma caminhonete conduzida pelo então marido, de quem estava em processo de separação, na BR-163, saída para Cuiabá. Equipes de resgate tentaram reanimá-la por cerca de 40 minutos, mas ela morreu ainda no local.

Familiares e amigos lotaram o velório. A irmã, Elke Sinara, resumiu a dor da família em poucas palavras. 'Está doendo tanto. Minha irmã amava viver.'

Desde o primeiro momento, a Polícia Civil trabalhou com diferentes hipóteses. O caso foi investigado pela 1ª Deam com perspectiva de gênero justamente pela dinâmica da ocorrência e pelo fato de Ely estar acompanhada do então marido.

A principal versão apresentada apontava uma discussão entre a arquiteta e o então marido. Durante semanas, a polícia buscou imagens, ouviu testemunhas, analisou laudos periciais e manteve abertas as hipóteses.

Segundo os investigadores, não foram encontrados indícios de luta, lesões defensivas ou evidências de intervenção física do motorista. Também não havia registros oficiais de violência doméstica ou medidas protetivas envolvendo o casal.

Para Cida, a violência raramente começa com agressões físicas. Muitas vezes surge de forma silenciosa.

'Ele começa proibindo uma amiga, depois outra. Quando você percebe, a mulher está isolada. E esse isolamento leva às violências cotidianas, aos xingamentos, à humilhação e à perda da autoestima', diz.

Se a morte de Ludmila terminou com a hipótese de feminicídio descartada e a de Ely permaneceu cercada por dúvidas até o encerramento das perícias, o caso da fisioterapeuta Fabiola Marcotti segue no caminho oposto.

Aos 51 anos, ela foi encontrada morta com um tiro na cabeça na chácara onde vivia com o marido, o cardiologista João Jazbik Neto, de 78 anos, na região da Chácara dos Poderes.

Desde o início, duas versões passaram a disputar espaço. A primeira foi apresentada pelo próprio médico, que afirmou à polícia ter encontrado a esposa caída no quarto do casal após estranhar sua demora no cômodo. Segundo ele, Fabiola teria tirado a própria vida.

A segunda veio da família. Em nota pública divulgada dias depois da morte, os familiares classificaram a tese de suicídio como uma 'fantasia arquitetada' e afirmaram que a fisioterapeuta foi vítima de um 'brutal feminicídio'.

Entre as duas narrativas está a investigação da Polícia Civil. A Deam informou ter encontrado inconsistências nos depoimentos prestados ainda na propriedade rural e apontou divergências entre o ferimento identificado na vítima e a versão apresentada inicialmente.

Também foram identificados indícios de fraude processual depois que um armário contendo armas e munições foi retirado da casa principal e levado para outro imóvel dentro da chácara após a morte da fisioterapeuta.

O médico, o caseiro e um ex-funcionário chegaram a ser autuados em flagrante por fraude processual. Durante as buscas, policiais apreenderam armas de fogo de uso permitido e restrito na propriedade.

Diferentemente dos casos de Ludmila e Ely, a hipótese de feminicídio continua aberta.

Mas, para especialistas, a relevância dessas histórias não está apenas no resultado das investigações. Está também nas perguntas que elas obrigam a sociedade a fazer.

Para Cida Gonçalves, o Brasil ainda tem dificuldade de reconhecer formas de violência que não deixam marcas imediatas ou evidentes. 'A maioria das pessoas acha que violência é só a violência física e o feminicídio. Quando tudo isso, o silêncio, o isolamento, tudo isso é um tipo de violência', afirma.

Em muitos casos, diz ela, a própria vítima deixa de reconhecer que está sendo violentada.

'A mulher não acha que o marido xingar ela de gorda, de feia ou de inútil é violência. Ela não vai denunciar porque não acha que isso é violência.'

Para Suellen Santos, esse processo ajuda a explicar por que tantas mulheres permanecem em relações que provocam sofrimento profundo.

'Muitas vítimas sentem vergonha, culpa e humilhação. Elas são desacreditadas, têm a dor invalidada e acabam enfrentando tudo sozinhas.'

A psicóloga explica que, além do trauma emocional, existe um fenômeno comum em relacionamentos abusivos: a perda gradual da própria identidade. 'Muitas vezes ela perde a perspectiva de futuro, perde os sonhos, perde a esperança. E é aí que começam a surgir as ideações suicidas.'

É justamente nesse ponto que a fala de Cida se torna ainda mais dura. Para ela, o país precisa discutir não apenas o aumento dos casos de violência contra mulheres, mas também a transformação dessa violência.

Para Cida, o problema não é apenas o aumento dos casos, mas a transformação da própria violência.

'Nós não tínhamos tanto cárcere privado. Nós não tínhamos tanto estupro coletivo. A forma com que as mulheres morrem hoje é diferente. Você vê a violência se reconstruindo para manter a mulher muito mais calada.'

A consequência, segundo ela, é que muitas mulheres chegam a um estágio de sofrimento que raramente aparece nas estatísticas. Porque o feminicídio é contabilizado, a agressão física é registrada, mas a destruição lenta da autoestima, da autonomia e da esperança dificilmente entra em números.

E é justamente aí que surge uma das discussões mais delicadas levantadas por especialistas: quando uma mulher morre pelas próprias mãos, até que ponto é possível separar completamente a morte da história que veio antes dela?

Quando a violência não deixa marcas

Para Cida Gonçalves, esse é um dos maiores desafios no enfrentamento da violência contra mulheres.

'O ciúme foi romantizado. A menina acha que ele não gosta que ela use determinada roupa porque a ama. Acha bonito quando ele controla com quem ela fala. Mas isso já é o início da violência', afirma.

'A mulher termina ficando só. E a solidão leva à depressão e a depressão leva ao suicídio', resume.

Suellen também alerta que muitas vítimas dão sinais antes de chegarem a situações extremas. Frases como 'minha vida não faz mais sentido', 'eu queria sumir' ou 'não vejo mais saída' não devem ser ignoradas.

'Muitas vezes a pessoa está pedindo ajuda e ninguém percebe.'

Tipificação para possível punição 

Cida vai além. Para ela, a violência doméstica deveria ser tratada socialmente com a mesma gravidade que outras formas de violência extrema. A ex-ministra defende, inclusive, que a discussão sobre tortura psicológica precisa avançar no país.

'Você sabe o que é chegar em casa todos os dias esperando sofrer violência? Esperando ser humilhada? Esperando ser agredida? Isso é tortura psicológica. Isso é tortura emocional', afirma.

Segundo ela, muitas mulheres passam anos vivendo sob esse tipo de sofrimento. E o mais grave: frequentemente sob os cuidados da própria pessoa que as agride.

'Ela está sob a proteção de quem a violenta. De quem a humilha. De quem a agride.'

A consequência, explica Cida, não aparece necessariamente em um laudo pericial. Mas pode aparecer no adoecimento mental, na perda da autoestima, na desesperança e, em casos extremos, na vontade de morrer.

É por isso que ela defende que alguns casos de suicídio de mulheres sejam analisados sob perspectiva de gênero, especialmente quando existem antecedentes de violência, medidas protetivas, boletins de ocorrência, histórico de controle ou isolamento.

'Se não é o feminicídio direto, é o indireto. É o desespero de alguém tentando escapar de uma situação que já não consegue suportar.'

A discussão está longe de ser consenso entre juristas, investigadores e especialistas, mas ela cresce à medida que aumentam os relatos de mulheres que não morreram por um tiro, uma facada ou um espancamento, mas que passaram anos convivendo com sofrimento emocional, controle e violência invisível.

E é justamente aí que a pergunta deixa de ser apenas jurídica, ela passa a ser humana.

Ludmila, Ely e Fabiola tiveram histórias diferentes. Talvez nunca tenham as mesmas respostas. Mas todas ajudaram a trazer para o centro uma discussão que especialistas consideram urgente,

Para Suellen Santos, uma das maiores dificuldades está justamente em enxergar a violência antes que ela se torne irreversível.

Segundo a psicóloga, muitas mulheres passam anos emitindo sinais que acabam ignorados por quem está ao redor. O isolamento aumenta, a autoestima diminui, os sonhos desaparecem e a vida vai perdendo sentido pouco a pouco.

'O suicídio não acontece de uma hora para outra. Geralmente a vítima dá sinais. Ela fala que queria sumir, que a vida não faz mais sentido, que não vê mais possibilidades. Muitas vezes ela está pedindo ajuda.'

Por isso, ela defende que a responsabilidade de perceber esses sinais não pode recair apenas sobre a vítima.

Amigos, familiares, colegas de trabalho e vizinhos também fazem parte da rede capaz de interromper ciclos de violência e sofrimento.

'A gente não pode desistir das pessoas. Tem que mandar mensagem, chamar para tomar um café, perguntar se está tudo bem. Muitas vezes o afastamento não é um problema na amizade. É um problema na relação que aquela pessoa está vivendo.'

A discussão proposta por especialistas não pretende transformar automaticamente suicídios em feminicídios. Tampouco substituir o trabalho da polícia, da perícia ou da Justiça.

A questão é entender se o sofrimento vivido por essas mulheres está sendo observado com a profundidade necessária. É questionar se a violência psicológica, emocional, sexual, patrimonial e o isolamento social recebem a mesma atenção que a agressão física.

É perguntar quantas mulheres adoecem antes que alguém perceba e quantas são silenciadas antes que a violência seja reconhecida como violência.

Se a violência contra a mulher pode matar com tiros, facas, fogo e espancamentos, até que ponto ela também pode matar por meio do isolamento, da humilhação, do controle e da destruição lenta da esperança?

Procure ajuda – Em Campo Grande, o GAV (Grupo Amor Vida) presta apoio emocional gratuito a pessoas em crise pelo número 0800 750 5554. Também é possível buscar atendimento no Núcleo de Saúde Mental ou no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), ou pelo telefone e 188 do CVV (Centro de Valorização da Vida). Em situações emergenciais, os números 190 da PM (Polícia Militar) e 193 do Corpo de Bombeiros podem ser acionados.

A Central 180 funciona 24 horas, de graça, e a ligação pode ser anônima. Em caso de emergência, procure a polícia pelo 190. Violência contra mulheres, crianças, idosos ou qualquer pessoa não pode ser silenciada.

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