• Quinta, 11 de Junho de 2026

Alisson cobra defesa do Brasil: "Uma equipe vencedora tem que odiar tomar gol"

Goleiro do Liverpool se igualará a Taffarel e Gylmar, com três Copas no currículo, e analisa cobranças por eliminações contra Bélgica e Croácia: "Não tira minha confiança"

GLOBOESPORTE.COM / BRUNO CASSUCCI E CAHê MOTA


Alisson, em entrevista coletiva pela Seleção — Foto: Vincent Carchietta/Reuters

Alisson foi o escolhido para a entrevista coletiva desta quinta-feira, a dois dias da estreia do Brasil, e a instabilidade defensiva foi abordada. O time de Carlo Ancelotti sofreu gols em todos os quatro amistosos realizados pela Seleção em 2026. Foram três gols sofridos nos dois últimos testes antes da Copa do Mundo.

— A gente não quer isso. Eu, como goleiro, sou o primeiro que sai da partida insatisfeito com o fato de ter sofrido gols. Acho que uma equipe vencedora tem que odiar tomar gol, o adversário tem que trabalhar muito forte para fazer gol.

— A gente está tentando criar essa mentalidade aqui. Os amistosos tiveram um caráter de preparação, de testes, que foram escolhidos pelo mister. Acho que dos três gols que sofremos dois eram completamente evitáveis. E a gente conversou sobre o que tinha que ter sido feito diferente, até mesmo no gol de falta.

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O camisa 1, porém, disse que foi positivo apresentar esses problemas exatamente em partidas anteriores à Copa do Mundo para evitar a repetição dos erros durante a campanha na competição.

— Buscamos olhar também pelo lado positivo que aconteceu nos amistosos para não acontecer na Copa do Mundo. Nos dá oportunidade de corrigir aquilo que tem ser corrigido. Às vezes se a bola desvia e não entra por algum fato não tem tanta atenção em cima disso, mas quando nos custa um gol temos que estar muito ligados nisso. Esse aspecto defensivo é extremamente importante na Copa do Mundo, uma competição de tiro curto. Nós queremos ter uma defesa sólida, uma equipe que defende junto, totalmente focado em não sofrer gols. Depois a gente sabe que vai criar chances e ter oportunidades. Nos deixou desconfortáveis nos amistosos, mas são coisas que ajustamos agora para a Copa.

Alisson vai se tornar o goleiro brasileiro com mais participações em Copas do Mundo, chegando à terceira da carreira. O atleta do Liverpool não escondeu o orgulho por se colocar ao lado de Taffarel, ídolo de infância dele, e Gylmar dos Santos Neves, bicampeão mundial com a Seleção, em 1958 e 1962.

— Se for dizer uma palavra para definir o sentimento é honra. Poder estar junto com esses gigantes da história da seleção brasileira é um privilégio. É muito bom poder disputar mais uma Copa do Mundo. Quando eu assistia como criança, sonhava em estar aqui, mas era uma realidade muito distante. Hoje, quando paro para pensar, é um privilégio e uma bênção disputar uma Copa do Mundo com a camisa da maior seleção. Me sinto muito honrado.

O goleiro, de 33 anos, também falou de oscilações do Brasil durante o último ciclo que antecedeu a disputa da Copa do Mundo de 2026 e foi convidado a comparar com as preparações anteriores às edições de 2018 e 2022.

— Eu acho que todos os períodos tiveram suas características. É inegável que esse último foi muito difícil. Sentimos na pele a dificuldade que tivemos, por vários fatores. Mas o mais importante é o momento em que nos encontramos agora. Desde a chegada do Ancelotti, o ambiente foi transformado. Ele carrega uma presença muito forte e nos dá essa tranquilidade de um ambiente focado no trabalho, sem polêmicas ou outras questões. Dentro de tudo isso, que aconteceu, o mais importante é o momento que nos encontramos agora. É isso que importa. O momento que a equipe vai para disputar o primeiro jogo.

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Alisson ainda falou das críticas sofridas durante o ciclo, tratando-as como dentro do esperado. Para eles, são consequência de o Brasil não vencer a Copa do Mundo há muito tempo.

— Naturais. As cobranças são naturais. Injustas ou não, faz parte do futebol e do pacote que é vestir essa camisa. Os torcedores querem que quem vista essa camisa conquiste títulos. Eu já experimentei isso conquistando uma Copa América, mas nada se compara a conquistar uma Copa do Mundo. Esse é o objetivo. As críticas vêm por isso também, por não termos ganhado nas outras oportunidades.

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Possibilidade de chegar à decisão

— E se for da vontade de Deus, de chegar até a final... Isso é o mais importante. E vimos isso já na história da Seleção. Por isso que se diz que é bom que a Seleção chegue questionada, porque foi assim em outros momentos também. Os jogadores tem características diferentes de outras épocas. O mais importante é como chegamos agora. Chegamos confiantes. Pelos treinamentos, pelo trabalho, pela qualidade, pelo que estamos nos tornando como equipe. Esperamos que tudo isso dê resultado já no primeiro jogo contra Marrocos.

Convocação de Weverton

— Eu acredito que a convocação do Weverton é por mérito dele, não demérito de ninguém. A minha condição física está 100%. Todo mundo sabe que fiquei um período de fora antes da Copa do Mundo, mas também muito em virtude de chegar na Copa 100%. Falei antes: o importante é como chegamos na Copa. Ele foi convocado por mérito dele. Por tudo que ele fez nos últimos anos. Tem sido um dos melhores goleiros do futebol brasileiro. Tanto ele, quanto eu, quanto o Ederson... E isso não significa que os outros também não mereciam estar aqui, mereciam também pela qualidade. O Bento, Hugo, os mais jovens e todos aqueles que foram cotados para esse lugar. Todos que estão aqui estão por mérito próprio e têm a confiança da comissão técnica e do Ancelotti. Dessa maneira que enxergo.

Planejamento para o futuro. Pretende ir até os 40, jogar mais uma Copa e se isolar com o goleiro brasileiro com mais participações em Mundiais?

— Excelente pergunta. Adoraria responder, mas o meu foco está nessa Copa do Mundo. Vou encarar como se fosse a última oportunidade. Tenho aprendido isso na vida, viver a cada dia. Meu foco é para esse tempo. É uma oportunidade grandiosa viver mais uma Copa do Mundo. Eu me sinto honrado de chegar a essa marca dos goleiros que estiveram em três Copas do Mundo, mas quero entrar no outro grupo. Quero estar nos campeões de uma Copa. Com os outros 25 convocados. Esse é meu foco e a coisa mais importante no momento.

As críticas e cobranças que recebeu durante o ciclo são justas?

— Sou o meu maior crítico. Ninguém vai me criticar mais do que eu . Porém, a minha crítica é em fatos do dia a dia, leitura técnica e psicológica. Ninguém me conhece mais do que eu. Eu dou muito valor a quem trabalha comigo no dia a dia, Taffarel e Marquinhos, os treinadores. Ter a confiança deles e dos treinadores que passaram por aqui durante esses 11 anos que venho sendo convocado. Vejo isso de maneira natural. Óbvio que quero ser avaliado pelo que faço dentro de campo e pelas conquistas.

Há efeitos de 2018 e 2022. Como dar a volta por cima?

— Eu acho que tento levar da mesma forma que uma pessoa tem que lidar no cotidiano. Tem que saber lidar com os momentos difíceis da vida. Eu escolho aprender com o passado e seguir em frente. Tenho uma possibilidade na minha frente. Uma grande oportunidade. Um grande privilégio. Me sinto abençoado por estar aqui e ter a chance de ganhar uma Copa do Mundo.

Bola parada do Arsenal é um exemplo. Como o Brasil pode melhorar e tem conversado sobre esse tipo de jogada?

— Excelente pergunta. É evidente. Não só na Premier League, onde muitos jogos são decididos na bola parada. O Arsenal venceu vários jogos nos quais jogou bem, mas decidiu na bola parada. É mérito do Arsenal. Muitas pessoas podem criticar, mas é mérito. E sabemos que na Copa do Mundo será assim também. Felizmente contamos com um dos principais jogadores do Arsenal em bola parada, que é o Gabriel. Também outros jogadores que podem fazer diferença no ataque e na defesa. É um foco nosso, sim.

Cobrança pelo gol de De Bruyne em 2018 e por não ter defendido nenhum pênalti contra Croácia

— Sobre aquilo que acontece no passado, eu acho que o futebol não permite ficar remoendo derrotas, frustrações ou até erros. Quando se perde uma Copa do Mundo não se perde por causa de um jogador, temos a responsabilidade compartilhada aqui. É óbvio que em momento específicos precisamos que os jogadores sobressaiam e temos jogadores para isso. Reconhecer a qualidade do adversário faz parte do jogo.

— Não sei a intenção de quem critica ou traz à tona ainda esse tipo de questão. Isso de maneira nenhuma me assombra ou tira minha confiança de que estou fazendo o trabalho da maneira certa e me dedico.

— Trabalho muito forte, mas o futebol não é ciência exata. Se fosse assim, talvez teríamos vencido muito mais do que cinco Copas do Mundo. É trabalhar no que se pode melhorar, ter avaliação justa sobre o que se pode melhorar e ser o melhor que posso para esse grupo com o objetivo principal de vencer. O que mais me incomoda de tudo isso é não ter vencido.

— Óbvio que para um goleiro sofrer um gol indefensável ou não sempre fica aquele negócio: "Pô, se eu tivesse feito uma coisa diferente". A gente tem que lutar contra essas mentiras que podem vir à nossa mente e ter convicção no trabalho, convicção de que o trabalho pode nos levar longe. Temos qualidade, tanto eu quanto os outros goleiros têm qualidade para representar a seleção brasileira. Temos a confiança do mister.

Jogadores têm acompanhado NBA e o crescimento do New York Knicks, com muitas viradas?

— Eu vejo bastante gente acompanhando aqui. Acabo vendo de relance os jogos. Acho que tudo serve como energia, tudo pode beneficiar. Viradas como essa (do Knicks). Nosso foco é muito grande naquilo que podemos fazer dentro de campo. O fator mental e emocional é muito importante. Temos equilíbrio de experientes e mais jovens. Entusiasmo e pé no chão. Podemos ser uma equipe consistente, dentro dessa harmonia, que pode competir por vitórias e pelo título.

Ancelotti tem um peso muito grande e está numa Seleção de muito peso. Como ele faz para gerir isso?

— Ele é resiliente, humilde, tem uma inteligência para escolher as palavras no momento certo de falar. É um grande gestor e tem uma ideia clara de futebol. É uma ideia simples, objetiva e que facilita nosso estilo de jogo. Tudo isso favorece a nossa equipe. Provavelmente deve ter sido intencional na escolha dos jogadores para que isso acontecesse.

Favoritismo não garante nada

— Favoritismo não garante nada para ninguém, traz até um peso, uma responsabilidade maior. Nós sabemos da responsabilidade do peso da camisa. São duas coisas sobre o peso da camisa: responsabilidade e privilégio. É um privilégio e alegria (estar na Seleção), é algo que o mister traz para nós. Eu consigo ver a alegria e gratidão nele de ser o treinador da Seleção. Dá para perceber nele. Vocês e nós percebem isso. Um cara multicampeão e transparece isso.

— Ele venceu tudo no futebol e está aqui com entusiasmo. É claro que o cargo dele talvez tenha mais pressão do que ser presidente do país em seus níveis, mas eu acho que todas essas combinações e exemplos nos favorecem no aspecto motivacional. Dentro de campo é com o jogador, a execução é com o atleta. Eu vejo esse tipo com as características necessárias para ser vencedor. Acho que temos que criar expectativa para essa competição. Acredito que o torcedor virá junto, mas temos que acreditar que seremos uma equipe campeã do mundo.

Ciclo conturbado traz algum peso para o momento atual da Seleção?

— Volto a falar que acredito que é uma escolha se isso será um peso ou não. Uma escolha que cada atleta faz. Nós, como equipe, escolhemos que isso nos fortaleça. Não vamos conseguir escolher como vai ser a nossa circunstância, as coisas ao nosso redor. Mas temos controle sobre as nossas decisões, como vamos lidar com cada situação. Nós escolhemos que isso nos fortalecesse e unisse ainda mais, principalmente os jogadores mais experientes, que em determinado momento tiveram que assumir uma responsabilidade ainda maior do que um jogador já tem.

— Criamos uma conexão muito boa e acho que muitos jogadores vêm já para a sua segunda Copa do Mundo. Isso nos favorece, nos traz benefícios. Nós escolhemos aqui focar no privilégio, na alegria e no prazer que é representar a seleção brasileira em uma Copa do Mundo, uma competição importante como essa. Estamos com os pés no chão, mas estamos muito focados em fazer o nosso melhor pela equipe, pelo grupo.

Importância do Taffarel na carreira e lembranças dele como jogador

— Tenho lembranças, já falei várias vezes sobre isso. Tinha seis anos, e é muito vivo para mim o momento da semifinal com a Holanda (em 1998). Meu pai fez uma brincadeira quando o Taffarel pegou o pênalti. Na loucura dele, ele pegou um bolo e enfiou na cara dele (risos). Era um bolo de laranja, uma coisa assim. Acho que por isso que esse momento ficou tão marcado por causa dessa loucura do meu pai. É um privilégio poder trabalhar com alguém como o Taffa, que sempre foi um ídolo e inspiração. Na infância, quem é da minha geração, sempre que ia brincar e ia para o gol era: "Taffareeel (simula uma narração)".

— Ele é meu mentor, me traz para o chão nos momentos de êxtase. Nas conquistas a gente se alegra na medida certa e nos momentos de tristeza ele está ali me sustentando. Ele é importante para mim, mas também deixa um legado além daquilo que fez como jogador para todos os goleiros que passaram aqui. Isso vai ser lembrado para sempre. As pessoas talvez não enxerguem a importância do Taffarel como treinador de goleiro. Trabalhei com ele aqui e no Liverpool. Pude manter o alto nível por tanto tempo por ter um treinador tão qualificado como ele. Isso soma também ao Marquinhos, outro cara excepcional e que te traz para os pés no chão. Ser goleiro demanda seriedade. Não é para se empolgar muito com as defesas, é preciso confiar no trabalho. Todos os treinadores que tive foram fundamentais para o meu desenvolvimento desde a categoria de base até eu começar a jogar como profissional.



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