Coronel Sapucaia
Sob chuva, famílias protestam e pedem justiça após mortes em UPAs
Manifestantes estão com cartazes no cruzamento da Avenida Afonso Pena com a Rua 14 de Julho
ANA PAULA CHUVA E GABI CENCIARELLI / CAMPO GRANDE NEWS
Debaixo de chuva, um grupo de aproximadamente 20 pessoas, entre familiares e amigos, realizou um protesto na manhã deste sábado (13), no cruzamento da Avenida Afonso Pena com a Rua 14 de Julho, no Centro de Campo Grande. Com cartazes e pedidos de justiça, os manifestantes cobram respostas das autoridades e denunciam suposta negligência e falhas no atendimento de UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) da Capital, que teriam resultado em três mortes.
As famílias de Hannah Julia, 8 anos, e de Gabriela Vieira, 23 anos, relataram um cenário de unidades superlotadas, demora no atendimento, desorganização no sistema de prontuários e a repetição de diagnósticos genéricos seguidos de liberação médica, sem exames aprofundados. Já os familiares de João Guilherme Jorge Pires, 9 anos, não conseguiram chegar à manifestação.
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Abalada, Sara Romero, de 46 anos, relembrou os últimos dias da filha, Hannah. Os sintomas começaram como uma gripe e evoluíram para febre de quase 40 graus, o que levou a mãe a procurar a UPA Coophavila. 'O local onde aplicavam a medicação estava lotado. Questionei uma funcionária, que disse apenas que estava cheio. Perguntei se podia dar dipirona líquida que eu mesma tinha levado, o médico autorizou e fomos mandadas para casa', conta.
O quadro da menina oscilou no fim de semana e piorou drasticamente na segunda-feira, motivando três idas consecutivas à UPA Leblon. De acordo com a mãe, exames de sangue apontaram infecção viral e, posteriormente, influenza. Na madrugada em que a menina faleceu, após apresentar dores intensas nos membros e na nuca, a equipe médica alegou que os exames feitos horas antes não constavam no sistema.
'Falaram que fariam tudo de novo. Isso só atrasou o atendimento. Pediram raio-X, mas nem chegaram a fazer alguns procedimentos. Ficava aquele empurra-empurra, de um lado para o outro, sem solução. E foi nesse momento que ela começou a ter a parada', lamenta Sara. Ela contesta a informação de que a filha teria sido intubada. 'Não havia marcas de intubação nem sinais de que tivessem feito algo para tentar salvá-la. A Hannah era a nossa alegria. Hoje ficou um vazio enorme', finalizou.
O sentimento de revolta é compartilhado por Jeremias Rodrigues, pai da menina. Ao Campo Grande News, ele relatou que a filha já não conseguia parar em pé, apresentava vômitos, palidez extrema e extremidades frias quando foi levada pela terceira vez ao posto.
'No atendimento, queriam repetir exames que ela já havia feito. Depois descobrimos que não encontravam os resultados porque o nome dela estava errado no sistema. Trocaram o nome da minha filha', denuncia.
Jeremias, que atua na construção civil, compara a responsabilidade profissional com a gestão da saúde. 'Eu sempre digo aos meus funcionários que lidamos com vidas e não podemos errar. Na saúde deveria ser a mesma coisa. O socorro veio tarde demais. Entramos pedindo ajuda para salvar nossa filha e saímos levando ela para o necrotério.'
Também na manifestação, Carla Vieira relata que a filha Gabriela convivia com fortes dores de cabeça e procurou atendimento médico diversas vezes, mas sempre recebia apenas medicação na veia e remédios para dor antes de ser liberada.
'Eu estive com ela no sábado, antes de tudo acontecer, e ela me contou que tinha ido ao médico no dia 18. Dez dias depois, nós estávamos internando ela. Era um aneurisma. O aneurisma rompeu dentro de casa. Eu acredito que houve negligência. Se tivesse sido solicitado um exame, ela poderia estar aqui hoje. Minha filha era um anjo na Terra, minha melhor amiga', desabafa Carla.
O viúvo da jovem, Samuel Gustavo, reforça a necessidade de mudar a abordagem nas unidades de saúde. 'O que a gente pede hoje é uma mudança nos protocolos de atendimento. Se uma pessoa procura uma unidade duas, três ou mais vezes pelo mesmo problema, o médico precisa olhar aquele histórico, pedir uma tomografia, um exame complementar. Não basta apenas medicar e mandar embora', cobra Samuel.
Ele relembrou que chegou a ser alvo de desconfiança inicial durante a investigação devido a marcas no corpo da esposa, que posteriormente foram identificadas como resultado das manobras de reanimação emergencial.
Carla também criticou a forma como pacientes com dores crônicas são recebidos na triagem. 'Muitas vezes as pessoas chegam às unidades e são tratadas como se estivessem ali apenas atrás de um atestado. É claro que existem casos assim, mas quem realmente precisa de ajuda não pode pagar por isso. Dor de cabeça muito forte não é algo normal.'
O ato foi acompanhado por Valdemar Moraes de Souza, estudante de Direito e presidente da Associação de Erros Médicos de Mato Grosso do Sul. A entidade, fundada por ele após perder o irmão em uma situação de suposta falha médica, está reunindo prontuários, laudos e receitas para dar suporte jurídico às famílias de Hannah, Júlia, Gabriela e de João Guilherme.
'Estamos aqui para alertar os gestores públicos, a Secretaria Municipal de Saúde, a Prefeitura e o Governo do Estado. Vemos unidades superlotadas, dificuldades para transferências de pacientes e problemas na triagem. Em um único período recente tivemos mortes que geraram grande comoção', pontuou Valdemar.
Ele ressalta que o objetivo não é confrontar a classe médica, mas exigir fiscalização eficiente. 'No caso da Hannah, estamos reunindo a documentação necessária para avaliar o atendimento prestado antes de tomar qualquer posicionamento definitivo.'
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