Coronel Sapucaia
MS quadruplica área de cana em 20 anos e consolida nova fronteira da bioenergia
Estado saltou da 8ª para a 4ª posição nacional e agora aposta em pesquisa para sustentar novo ciclo
ANDERSON VIEGAS / CAMPO GRANDE NEWS
Em duas décadas, Mato Grosso do Sul deixou de ser um coadjuvante para se tornar uma das principais potências da cana-de-açúcar no Brasil. Entre as safras 2006/2007 e 2026/2027, a área cultivada passou de 160 mil para 737,3 mil hectares, um salto de 577,3 mil hectares, equivalente a 360,8%, segundo dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).
O avanço levou o Estado da oitava para a quarta posição no ranking nacional de área cultivada com cana-de-açúcar, ultrapassando Paraná, Mato Grosso, Pernambuco e Alagoas. Hoje, Mato Grosso do Sul fica atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais e Goiás, consolidando-se como uma das principais regiões produtoras de matéria-prima para etanol, açúcar e bioeletricidade.
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A expansão acompanha o crescimento da indústria de bioenergia no Estado. Segundo a Biosul (Associação dos Produtores de Bioenergia de Mato Grosso do Sul), atualmente existem 22 plantas industriais em operação, das quais 19 utilizam a cana-de-açúcar como matéria-prima. O setor está presente em 42 municípios, gera cerca de 33 mil empregos diretos e movimenta mais de R$ 1,3 bilhão em massa salarial, um dos maiores volumes entre os segmentos industriais sul-mato-grossenses.
Agora, após um ciclo marcado pela expansão da área plantada e da capacidade industrial, o desafio passa a ser aumentar a produtividade. Para isso, o setor aposta na geração de conhecimento técnico desenvolvido nas condições locais de solo e clima.
Foi nesse contexto que nasceu, em 2024, o CEPA (Centro Experimental e Pesquisa Agrothina), instalado em Angélica. A instituição reúne mais de 90 empresas parceiras em uma plataforma voltada ao desenvolvimento e à validação de tecnologias para a canavicultura, com experimentos em nutrição de solo, fertilizantes, produtos biológicos, manejo de canaviais e agricultura de precisão.
'O CEPA nasceu de uma necessidade concreta do setor em Mato Grosso do Sul. Não tínhamos um espaço dedicado exclusivamente à pesquisa aplicada em cana-de-açúcar, onde empresas, pesquisadores e produtores pudessem trabalhar juntos sobre o mesmo solo, nas mesmas condições reais. Isso faz toda a diferença para a tomada de decisão técnica', afirma o engenheiro agrônomo Thiago Veloso, especialista em cana-de-açúcar e diretor-fundador da instituição.
Para a Biosul, a capacidade de gerar conhecimento técnico nas condições locais tornou-se um ativo estratégico para manter a competitividade do setor. 'O aumento da produtividade é fundamental para a competitividade das usinas de bioenergia em Mato Grosso do Sul. Com condições climáticas cada vez mais imprevisíveis e desafiadoras, é preciso fortalecer a geração de conhecimento técnico e aprimorar as práticas de manejo com soluções adaptadas à realidade de solo, clima e produção do Estado. É justamente nesse contexto que iniciativas como essa ganham relevância, ao aproximar pesquisa, inovação e produção para gerar conhecimento aplicado e contribuir para decisões mais assertivas e para a evolução contínua dos sistemas produtivos', afirma o diretor técnico da Biosul, Érico Paredes.
Na avaliação de Juvandir Pereira de Sá, diretor-fundador do CEPA, a velocidade de expansão do setor tornou indispensável a produção de conhecimento técnico regional. 'O setor cresceu muito rápido em Mato Grosso do Sul. A área plantada aumentou, as usinas se modernizaram e o volume de investimentos é expressivo. Mas o crescimento sem pesquisa agronômica local tem um limite. O CEPA existe para eliminar esse gargalo e permitir que produtores e gestores de usinas tomem decisões com base em dados gerados aqui, no nosso clima, no nosso solo e na nossa realidade.'
Validação em campo
O centro funciona como uma plataforma de validação científica para o setor. As empresas instalam experimentos nos campos da Fazenda Maritaca, onde desenvolvem pesquisas com cultivares, fertilizantes, biológicos, correção de solo e manejo de canaviais. Ao final de cada safra, os resultados são avaliados e apresentados ao mercado.
O modelo reúne fabricantes de fertilizantes, empresas de agricultura de precisão, desenvolvedores de soluções biológicas e fornecedores de insumos em um mesmo ambiente experimental, permitindo comparações técnicas entre diferentes tecnologias e acelerando sua adoção pelo setor produtivo.
Além da pesquisa aplicada, o CEPA investe na formação de profissionais. A instituição recebe estudantes de escolas agrícolas e universidades para visitas técnicas e atividades práticas voltadas à cadeia da cana-de-açúcar.
Uma vez por ano, o centro promove um encontro técnico que reúne especialistas, pesquisadores, agrônomos e gestores de usinas de todo o País. A primeira edição, realizada em 2025, reuniu mais de 1,2 mil participantes. A edição de 2026 ocorrerá nos dias 24 e 25 de novembro e contará com mais de 90 campos experimentais.




