• Domingo, 28 de Junho de 2026

Mensagens mostram que brasileira tentou ajuda da Federação de Cabo Verde para denunciar estupro

Em conversas, funcionários da entidade não deram apoio à brasileira, e um deles tratou caso como "problema pessoal de Ryan Mendes". Jogador está sendo investigado pela polícia da Nova Zelândia

GLOBOESPORTE.COM / CAMILA ALVES


Ryan Mendes, capitão de Cabo Verde, em campo contra a Espanha na Copa do Mundo — Foto: Pat Scaasi/MI News/NurPhoto via Getty Images

Atenção: esta reportagem contém dados sensíveis sobre violência sexual.

A brasileira que denunciou o capitão da seleção de Cabo Verde, Ryan Mendes, por estupro na Nova Zelândia procurou, sem sucesso, ajuda da Federação Cabo-Verdiana de Futebol por mais de uma vez. Mensagens capturadas por ela em seu celular mostram tentativas de contato com pelo menos três funcionários da instituição.

Antes mesmo de fazer a denúncia à polícia, a brasileira compartilhou seu relato com uma funcionária da federação: Sol Cabral, do setor de operações. Depois de registrar a queixa, a brasileira voltou a fazer contato e procurou mais duas pessoas da entidade: Gerson Melo, então diretor de Desenvolvimento, e Igo Gomez, do setor operacional.

Os prints das mensagens foram enviados pela brasileira em notificações extrajudiciais à própria federação do país africano e à Fifa, assim como outras provas do caso. Os três funcionários foram procurados pelo ge por mais de uma vez. Apenas Gerson Melo respondeu.

– Não sou da federação, nem trabalho na federação. No passado fiz parte, mas hoje não. Não fiz parte da comitiva nem estive na Nova Zelândia.

A investigação da polícia da Nova Zelândia está em andamento. Depois da denúncia feita pela brasileira contra Ryan Mendes, a polícia colheu imagens das câmeras de segurança do hotel e aguarda o laudo pericial dos exames de corpo de delito, realizados há três meses, para fechar o inquérito. Ao fim dessa investigação, a polícia decide se oferecerá a denúncia à justiça.

O caso ocorreu em 27 de março deste ano, no hotel onde a delegação de Cabo Verde estava hospedada para disputar amistosos em Auckland, na Nova Zelândia, e está sob investigação da polícia do país desde o dia 10 de abril. A brasileira estava no local contratada pela Federação Neozelandesa para trabalhar como intérprete e apoio operacional da seleção de Cabo Verde no Fifa Series.

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Ela relata que no dia seguinte ao ocorrido procurou uma funcionária do setor operacional da Federação Cabo-Verdiana, Sol Cabral, que estava em Auckland, mas não recebeu apoio. Duas das imagens de trocas de mensagens enviadas nas notificações são de conversas com Sol Cabral.

Na primeira, há cinco ligações perdidas de WhatsApp efetuadas pela funcionária e na segunda, no Instagram, há uma sexta ligação e a seguinte mensagem:

– Por favor preciso falar contigo. Estou sem CHÃO. A minha história na seleção vai acabar e em princípio pode esquecer a minha participação no Mundial. Lutei por isso. O meu sonho vai acabar e a minha reputação – escreveu o perfil de Sol.

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A funcionária foi procurada três vezes pelo ge ao longo desta semana, uma vez que utiliza o mecanismo de mensagens temporárias que se apagam no WhatsApp, mas não respondeu.

A brasileira em seguida recebeu atendimento em uma clínica que auxilia sobreviventes de violência sexual e foi submetida a exame forense. O relatório médico identificou múltiplos hematomas nas mamas, no pescoço e nos lábios, além de áreas de sensibilidade no couro cabeludo e nas nádegas.

No exame genital, há o registro de "duas lesões circulares, dolorosas à palpação, na base dos pequenos lábios". Os exames da clínica foram encaminhados à polícia da Nova Zelândia no dia 10 de abril, e a brasileira fez o registro de ocorrência, passando por uma perícia na delegacia.

É neste período que ela registra imagens de conversas com os outros dois funcionários: Igo Gomez, do operacional, e Gerson Melo, então diretor de Desenvolvimento.

Na conversa com Igo Gomez, cita, inclusive, o nome de Sol Cabral.

– Mas como deves imaginar eu não tomei conhecimento de nada. E que seja melhor com os advogados de Ryan – escreveu Igo Gomez.

– Sim, claro, mas Sol ficou sabendo no dia seguinte. Ou seja, também é um problema da Federação. Mas agora está tudo com os advogados e a justiça – respondeu a brasileira.

– Esse é um problema pessoal de Ryan e a FCF cabo-verdiana não aprova situações do gênero em lado nenhum. Mas não deixa de ser um problema pessoal de Ryan – respondeu Igo Gomez.

No dia 24 de abril, há uma terceira troca de mensagens, com Gerson Melo, que trabalhava como diretor de Desenvolvimento na federação. Na conversa, a brasileira pede contatos dos advogados da entidade e do atleta. O funcionário responde que solicitará o contato do advogado de Ryan Mendes. A família diz nunca ter recebido.

– Minhas advogadas perguntaram se o contato para com a federação de Cabo Verde é com você ou com Dan Merkel? – pergunta a brasileira, em referência a Merkel, secretário-geral da entidade.

– Deve ser sempre o SG o Dan (sic). Para questões institucionais – responde Gerson.

– Ok. Ele está a saber dos ocorridos? – ela pergunta.

– Sim. Embora seja um assunto pessoal do Ryan, o SG (Dan) está a par. O assunto já está com as pessoas indicadas – responde Gerson, na noite do dia 24.

Na manhã do dia 25 de abril, a brasileira responde.

– Gerson, como falei ao Igo (funcionário das mensagens citadas acima), isso também é um assunto da federação de Cabo Verde, pois eu estava prestando um serviço a vocês no momento do ocorrido, e o Ryan é um jogador de vocês e que no momento estava convocado para os jogos, então sim, é um problema pessoal dele, mas também da federação. Mas a partir de agora serão minhas advogadas que entrarão em contato.

O ge também procurou o secretário-geral da federação, Dan Merkel, mas ainda não obteve retorno. Em caso de resposta, esta reportagem será atualizada.

Duas semanas depois, no dia 10 de maio, a brasileira e o marido enviaram notificações extrajudiciais à Federação Cabo-Verdiana e à Fifa, com o relato, provas e um pedido de punição: a não participação do jogador na Copa. No dia 20, preencheram o formulário de Safeguarding da Fifa, usado para denúncias. Relatam, porém, que não receberam resposta.

Sem respostas institucionais

No depoimento à polícia da Nova Zelândia, a brasileira relatou que após o primeiro jogo de Cabo Verde no Fifa Series, contra o Chile, foi convidada para uma reunião em uma das salas reservadas à seleção no hotel e compareceu imaginando precisar atuar como intérprete. Observou, porém, que se tratava de uma confraternização e voltou para o quarto ao se sentir fisicamente mal.

A brasileira, ainda na denúncia, relatou que pouco depois ouviu batidas na porta e abriu, pensando se tratar de uma solicitação de apoio do trabalho, e que foi neste momento que Ryan Mendes entrou no quarto, agrediu-a fisicamente com esganaduras, socos e mordidas, e a estuprou.

Ainda no hotel, ela fotografou lesões visíveis, como cortes na boca, hematomas no pescoço, na perna e na lateral do corpo, que foram entregues à polícia e vistas pelo ge.

A polícia da Nova Zelândia confirmou à reportagem que há um inquérito em andamento e, por leis rigorosas de privacidade do país, não se posicionou sobre nomes de acusados.

Uma advogada criminal consultada pela família diz que o procedimento de análise dos exames de corpo de delito, estágio em que está a investigação agora, pode durar até seis meses.

Ryan Mendes, de 36 anos, atua no Igdir FK, da Turquia, e foi titular de Cabo Verde nas três partidas da fase de grupos na Copa de 2026.

A Fifa se posicionou na noite de sábado, horas depois da publicação da primeira reportagem do ge. A entidade disse que está em contato com autoridades da Nova Zelândia e que leva "extremamente a sério" qualquer alegação de má conduta. De acordo com a Fifa, porém, "órgãos judiciais independentes não comentam alegações que possam ou não ter recebido, nem confirmam se há ou não investigações em andamento".

A Federação da Nova Zelândia, que sediou o Fifa Series com participação de Cabo Verde, limitou-se a dizer que entende que o assunto está com a polícia.

Já a Federação Cabo-Verdiana de Futebol, procurada por mais de uma vez ao longo da semana, disse através do assessor de imprensa, em Houston, depois do jogo contra a Arábia Saudita, na sexta, que não comentaria a denúncia.

A reportagem também procurou o empresário do atacante e ainda não teve resposta. Em caso de retorno, esta reportagem será atualizada.

O trâmite jurídico

O ge consultou o guia do Ministério da Justiça da Nova Zelândia e o advogado especialista em direito internacional Mauricio Ejcher para explicar o trâmite jurídico no país da Oceania. Segundo a lei neozelandesa, uma condenação por violência sexual pode resultar em prisão de até 20 anos, de acordo com a gravidade do caso.

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Na ordem cronológica, a polícia investiga, decide se tem provas suficientes para apresentar acusação e, se sim, o caso vai a julgamento na Corte Distrital. Os casos criminais, na Nova Zelândia, são julgados por um juiz singular ou por um grupo de júri.

O advogado de acusação, por sua vez, representa a Coroa do país, o público, e as informações que apresenta são baseadas no caso preparado pela polícia. Quem denuncia participa como testemunha.

– O processo judicial tem quatro partes: a administração, para juntar e organizar documentos, a revisão prévia com participação do juiz, o julgamento e a sentença. Cabe uma apelação só, na corte superior, que é regional – explica Mauricio Ejcher.

Em um caso que precise envolver extradição do acusado, caso a polícia ofereça denúncia e decrete prisão, há duas possibilidades: colocar o nome na Interpol, e a pessoa pode ser parada em qualquer fronteira ou país, ou solicitar a extradição através de pedido de cooperação. A Nova Zelândia não tem acordo de extradição com Cabo Verde.

Quem é Ryan Mendes

Ryan Mendes é atacante, tem 36 anos e atua pelo Igdir FK, da Segunda Divisão da Turquia Antes, passou por Batuque, de Cabo Verde, Le Havre e Lille, da França, Nottingham Forest, da Inglaterra, Al-Nasr e Al Saharjah, dos Emirados Árabes, e outros três clubes da Turquia. Ele está na Copa do Mundo pela estreante seleção de Cabo Verde e antes do Mundial disputou quatro edições da Copa Africana de Nações (2013, 2015, 2022 e 2024).



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