• Sexta, 03 de Julho de 2026

Juiz manda soltar veterinária acusada de atear fogo no marido

Vídeo gravado pela vítima levou magistrado a rever prisão; Lidiane usará tornozeleira por 90 dias

GUSTAVO BONOTTO E GABI CENCIARELLI / CAMPO GRANDE NEWS


A Justiça de Mato Grosso do Sul mandou soltar, no fim da tarde desta sexta-feira (3), a médica-veterinária Lidiane Cecília Pereira, de 42 anos, acusada de atear fogo no marido durante uma discussão motivada por ciúmes, ocorrida em 22 de junho, na casa da família, em Campo Grande. A decisão é do juiz Aluizio Pereira dos Santos, da 1ª Vara do Tribunal do Júri, que reviu a prisão após a defesa apresentar vídeo no qual a vítima afirma que a esposa tentou socorrê-lo e não quis matá-lo.

Conforme os autos obtidos pelo Campo Grande News, o magistrado concedeu liberdade provisória e determinou o uso de tornozeleira eletrônica por 90 dias. Lidiane também deverá comparecer ao fórum e apresentar comprovantes de trabalho e endereço a cada 30 dias. “Não vislumbro mais os fundamentos que deram ensejo à decretação da prisão preventiva', escreveu Aluizio.

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Na análise, o magistrado apontou como principal fato novo o vídeo gravado pelo esposo durante a recuperação no hospital. “Ocorre que sobreveio aos autos fato novo', registrou ao citar a gravação juntada pela defesa. Outro ponto destacado foi a reação de Lidiane após perceber o marido em chamas. “Há indícios de que, após perceber que o marido estava em chamas, a acusada prontamente o socorreu e encaminhou ao hospital', escreveu o juiz.

Para o magistrado, essa conduta pode influenciar a definição sobre a responsabilidade da veterinária, questão que ainda será analisada durante o processo. Ele também citou que Lidiane não tem antecedentes criminais, possui endereço fixo, trabalha como médica-veterinária e é mãe de uma criança menor de 12 anos.

A decisão desta sexta também reverte o entendimento adotado pelo próprio magistrado na segunda (29). Na ocasião, Aluizio negou o pedido para revogar a prisão ou permitir que Lidiane deixasse a unidade prisional.

A defesa havia argumentado que a veterinária precisava cuidar do filho de 9 anos, que estava sem os pais porque Carlitos permanecia internado. Também citou que ela tinha residência fixa, exercia profissão e não possuía antecedentes criminais.

O juiz rejeitou os argumentos naquele momento. Considerou que a filha mais velha do casal, de 22 anos, prestava assistência ao irmão e afirmou que a gravidade do episódio justificava a manutenção da prisão.

Vídeo mudou cenário - A vítima gravou o vídeo enquanto ainda se recuperava das queimaduras. O material foi enviado ao Campo Grande News e publicado nesta quinta (2). No relato, ele confirma que a esposa jogou álcool nele e na mochila que arrumava para uma viagem, mas afirma não saber exatamente como as chamas começaram.

Segundo ele, Lidiane saiu para fumar após a briga e ele foi conversar com ela na área externa da residência. A vítima disse que tudo ocorreu rapidamente e levantou a possibilidade de uma bituca de cigarro ter provocado o fogo.

“O que aconteceu no dia que aconteceu o incidente com o fogo, a gente tinha discutido, teve uma discussão e ela 'tacou' o álcool na minha mochila e em mim. Eu não lembro se ela foi 'tacar' a bituca e pegou perto do meu pé. Eu sei que, na hora que pegou fogo, eu já saí rolando para apagar', relatou.

Na sequência, ele afirmou que a esposa tentou conter as chamas. “Ela veio tentar apagar também, me ajudou. Ela arrancou a minha blusa que estava pegando fogo e até queimou a mão dela também. Ela foi a pessoa que me socorreu, que me levou correndo para o hospital. Eu até falei para ela: vai com calma. E ela foi desesperada.'

Defesa fala em fatos novos - Em nota enviada à imprensa nesta sexta , os advogados Kamila da Silva Boeno, Jonatas Giovane de Paula dos Reis e Herika Cristina dos Santos Ratto afirmaram que a decisão ocorreu após o pedido de reconsideração apresentado ao juiz.

Segundo a defesa, o vídeo gravado pela vítima e a aproximação entre os relatos apresentados no caso mudaram o cenário analisado anteriormente. Os advogados destacaram a existência de “fatos novos relevantes', especialmente a gravação feita por Carlitos durante a recuperação.

“A defesa recebe a decisão com serenidade e respeito', afirma a nota.

Os advogados também disseram que medidas que restringem a liberdade devem ser reavaliadas diante de novas provas e informações. A equipe afirmou que continuará no caso “de forma técnica, responsável e comprometida com a busca da verdade real'.

Histórico - Lidiane estava presa desde a data do episódio. A vítima sofreu queimaduras em cerca de 30% do corpo, principalmente no tronco e nos braços.

Durante a investigação, a veterinária admitiu que jogou álcool e acionou um isqueiro, mas negou intenção de matar. Ela afirmou que queria impedir a viagem do marido a Brasília e pressioná-lo a falar sobre uma suposta traição. “Eu quis assustar ele com o barulho do isqueiro', declarou à polícia.

A Polícia Civil encerrou a investigação com o entendimento de que a atitude de Lidiane após o fogo indicava que ela tentou evitar a morte do marido. Os investigadores consideraram o socorro prestado, as queimaduras sofridas por ela nas mãos e o transporte da vítima ao hospital.

Mesmo assim, a polícia apontou tortura por entender que Lidiane teria usado o sofrimento para tentar obter do marido uma confissão sobre a suposta traição.



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