Coronel Sapucaia
O resgate da base: educação física, atletismo e cidadãos
CARLOS ALBERTO REZENDE (*) / CAMPO GRANDE NEWS
Nos últimos anos, assistimos a uma transformação silenciosa, mas profunda, na estrutura educacional, a perda da centralidade e da obrigatoriedade da educação física escolar. O que muitos gestores parecem não perceber é que, ao esvaziar a prática esportiva na base, esvazia-se também a formação moral dos futuros cidadãos. O reflexo desse distanciamento não demora a aparecer e se manifesta de forma escancarada no topo da pirâmide esportiva, mais visivelmente na Copa do Mundo de futebol.
Quando olhamos para as últimas edições do maior espetáculo da terra, o diagnóstico é claro. De um lado, vemos equipes milionárias com atletas que parecem distantes do real significado de vestir a camisa de sua nação, times onde sobram vaidades e faltam comprometimento, resiliência e o verdadeiro patriotismo. O desrespeito às regras, a incapacidade de lidar com a derrota e a ausência do 'fair play' escancaram uma crise de valores. Por outro lado, as seleções que chegam ao topo e disputam as finais costumam ser aquelas que equilibram talento técnico com uma entrega visceral, lealdade e o entendimento profundo do que representa defender a sua pátria de forma íntegra do primeiro ao último minuto.
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A raiz dessa diferença de postura está na base. É aqui que
a 'educação física escolar' e o 'atletismo' entram como elementos fundamentais e insubstituíveis.
O atletismo como escola de vida e base dos esportes.
O atletismo é historicamente conhecido como o 'esporte-base'. Correr, saltar e arremessar são os movimentos naturais do corpo humano que dão sustentação a praticamente todas as outras modalidades, incluindo o futebol. Mas a sua importância vai muito além do aspecto motor.
Ao contrário dos esportes coletivos onde falhas individuais podem ser camufladas pelo grupo, o atletismo confronta o jovem diretamente consigo mesmo. Ele ensina lições duras e valiosas, como por exemplo:
1. A verdade do cronômetro:
No atletismo, não há como culpar o árbitro ou o adversário. O resultado depende do esforço individual e do treino. Isso gera autoresponsabilidade e a superação dos próprios limites;
2. O aprendizado da derrota:
Perder por milésimos de segundo ensina que a derrota faz parte do processo de evolução, combatendo a intolerância que vemos hoje nos campos de futebol.
3.O verdadeiro 'Fair Play':
A camaradagem na pista, onde adversários se abraçam após cruzarem a linha de chegada exaustos, é a tradução mais pura do respeito mútuo. Sem a vivência dessas experiências na escola, o jovem cresce sem o repertório emocional necessário para lidar com frustrações, o que resulta na intolerância e no egoísmo que frequentemente mancham o futebol profissional moderno.
A Urgência do retorno da obrigatoriedade.
A Educação Física escolar nunca foi 'recreação' ou mera 'hora de jogar bola'. Ela é uma disciplina pedagógica indispensável. Ao retirar ou flexibilizar sua obrigatoriedade, o sistema de ensino nega aos jovens o direito de aprender a cooperar, a respeitar regras, a liderar e a serem liderados.
Abaixo um resumo e o contraste gerado pela ausência da formação esportiva de base na vida pública e profissional dos indivíduos:
Sem educação física e atletismo:
- Dificuldade em lidar com perdas e frustrações (intolerância).
Resiliência e busca por superação constante;
- Individualismo exacerbado e falta de espírito de equipe.Entendimento do papel individual em prol de um objetivo comum;
- Distanciamento e falta de identificação com símbolos nacionais;
- Desrespeito às regras e busca pelo 'atalho' (antijogo).
Com educação física e atletismo como pilares:
- Resiliência e busca por superação constante;
- Entendimento do papel individual em prol de um objetivo comum;
- Patriotismo genuíno e orgulho em representar uma coletividade;
- Prática rigorosa do 'fair play' e respeito às normas.
Formar o atleta para formar o cidadão.
O que assistimos em uma final de Copa do Mundo não é apenas um jogo de futebol, é o reflexo social e cultural dos países ali representados. Nações que investem na Educação Física e no esporte escolar de forma séria colhem não apenas medalhas e taças, mas cidadãos mais disciplinados, éticos e patriotas. O verdadeiro patriotismo não se compra com contratos de patrocínio; ele nasce na quadra da escola, na pista de terra batida, no orgulho de defender a cor do seu colégio e, eventualmente, do seu país.
Trazer a Educação Física de volta ao seu papel de obrigatoriedade e centralidade, utilizando o atletismo como ferramenta de formação de caráter, não é apenas uma necessidade esportiva. É uma urgência nacional para garantir que as próximas gerações saibam competir com lealdade, perder com dignidade e vencer com verdadeira honra.
(*) Carlos Alberto Rezende é conhecido como Professor Carlão. Siga no Instagram: @oprofcarlao.
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