• Terça, 21 de Julho de 2026

Facções recrutam adolescentes para matar e morrer em MS

Jovens atuam como informantes, condutores, transportadores de armas e executores nas disputas criminosas

BRUNA MARQUES / CAMPO GRANDE NEWS


Jovens na Unei Dom Bosco, em Campo Grande (Foto: Arquivo/Defensoria Pública)

Adolescentes têm sido recrutados por facções criminosas em Mato Grosso do Sul para localizar rivais, transportar armas, conduzir motocicletas, repassar informações e participar diretamente de homicídios. Em alguns casos, o jovem apontado como executor em uma investigação aparece, meses depois, como vítima da mesma disputa.

Levantamento de reportagens publicadas pelo Campo Grande News identificou 13 casos envolvendo adolescentes em crimes relacionados ao PCC (Primeiro Comando da Capital) e ao CV (Comando Vermelho) entre 2025 e 21 de julho de 2026. Foram cinco episódios noticiados no ano passado e oito nos primeiros meses deste ano.

  • Leia Também
  • Morto pelo Choque era comparsa de adolescente do PCC que matou presidiário
  • Adolescente de 17 anos e barbeiro morrem em abordagem policial

A contagem se refere a ocorrências, não ao número total de adolescentes envolvidos. Um único caso pode reunir mais de um adolescente, enquanto alguns jovens foram relacionados a diferentes crimes. O levantamento também não representa o total de homicídios de adolescentes, pois inclui apreensões, tentativas de assassinato, transporte de armas e mortes durante ações policiais.

Segundo dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), 8 adolescentes e 4 crianças foram vítimas de homicídio doloso em Mato Grosso do Sul entre 1º de janeiro e 21 de julho de 2026. Ao todo, foram 12 vítimas menores de idade no período.

Em todo o ano de 2025, o Estado registrou 12 adolescentes e sete crianças vítimas de homicídio doloso, totalizando 19 mortes. Em 2024, foram 13 adolescentes e quatro crianças, somando 17 vítimas.

Em uma estatística específica sobre mortes decorrentes de ações policiais, a Sejusp contabilizou cinco adolescentes mortos em 2026, até 21 de julho. Foram duas mortes em 2025 e quatro em 2024.

Os números devem ser analisados separadamente. Os dados de homicídio doloso abrangem crianças e adolescentes mortos em diferentes contextos, enquanto a segunda estatística trata especificamente de mortes provocadas durante intervenções policiais. Sem acesso à metodologia completa da Sejusp, as duas categorias não devem ser simplesmente somadas, pois pode haver critérios próprios de classificação.

Os registros oficiais também não informam, nesses recortes, quantas vítimas possuíam ligação comprovada com organizações criminosas. Já os casos reunidos nas reportagens mostram adolescentes apontados como executores, informantes, condutores de motocicletas, transportadores de armas e alvos da disputa entre facções.

Recrutamento explora busca por pertencimento - A psicóloga Mônica Leimgruber, que atua há 24 anos no sistema prisional, afirma que a participação de adolescentes em organizações criminosas não é recente.

Segundo ela, grupos criminosos recorrem a jovens porque a adolescência é marcada pela construção da identidade, pela impulsividade e pela busca por pertencimento, reconhecimento e proteção.

Não há dados consolidados que comprovem um aumento específico de adolescentes ligados ao PCC (Primeiro Comando da Capital), ao CV (Comando Vermelho) ou a outras facções em Mato Grosso do Sul. A avaliação da psicóloga, porém, é de que a cooptação dessa faixa etária passou a ocorrer com maior frequência dentro da dinâmica do crime organizado.

Para identificar uma ligação efetiva, Mônica defende critérios semelhantes aos aplicados aos adultos. Entre os indícios estão a indicação ou o apadrinhamento por integrantes, o conhecimento das normas internas, a submissão às regras disciplinares e o exercício de alguma função no grupo.

Alguns adolescentes associam o nome da facção a proteção, respeito e inserção social, mesmo sem terem sido formalmente aceitos.

Para quem não estabeleceu vínculos em outros espaços, a organização criminosa pode aparecer como alternativa de integração. Convites, avaliações e procedimentos de aceitação reforçam a sensação de valorização. O jovem recebe uma posição, uma função e uma identidade dentro do grupo.

Os casos noticiados mostram que essa inserção vai além do comércio de drogas. Adolescentes foram apontados como responsáveis por localizar alvos, transmitir informações, transportar armas, conduzir veículos e participar de ataques.

De condutores a executores - Em Miranda, um adolescente de 17 anos foi apontado como condutor da motocicleta usada no assassinato de Jonas Alves de Moraes Junior, de 35 anos. O crime ocorreu em outubro de 2024, mas teve novos desdobramentos em junho de 2025.

Segundo a investigação, Jonas mantinha uma dívida com o PCC e teria procurado proteção no CV. Deivid Lopes Miranda, então com 27 anos, foi apontado como autor dos disparos. O adolescente já havia sido apreendido e internado por decisão judicial.

Em Dourados, adolescente de 15 anos foi morto em 30 de maio de 2025, no Bairro Canaã IV. Um primo relatou que o garoto poderia ter sido assassinado por engano, pois o verdadeiro alvo estaria sendo ameaçado pelo PCC. A Operação Hécate passou a investigar integrantes da facção suspeitos de envolvimento no crime.

No mesmo endereço, em agosto, um adolescente de 16 anos foi apreendido sob suspeita de atirar contra Leonardo Soares Moline, de 19 anos, que sobreviveu. Valdinei Galvão, apontado como condutor da motocicleta, teria vindo do Paraná por determinação do PCC, conforme a Polícia Civil.

Ainda em agosto, um adolescente de 14 anos foi apreendido em Ribas do Rio Pardo. A Polícia Militar o apontou como ligado ao PCC e suspeito de envolvimento em homicídios, incluindo um crime ocorrido em Coxim, além de tráfico de drogas.

Em Chapadão do Sul, adolescente de 15 anos foi executado em 2 de setembro de 2025, após sair de casa para buscar um medicamento. Meses depois, uma operação contra integrantes do PCC indicou que o crime poderia estar relacionado à disputa com o CV.

“Faz tudo' do PCC - Em março de 2026, um adolescente de 16 anos morreu durante uma ação da Polícia Civil em Dourados. Ele era suspeito de assassinar Marcos Freire, de 50 anos, conhecido como Maricota, em frente ao presídio semiaberto.

A polícia descreveu o adolescente como um “faz tudo' do PCC e afirmou que ele teria saído de Campo Grande para cometer crimes em Dourados. O jovem também era investigado por outras três mortes atribuídas a ordens da facção. A identidade foi preservada.

A descrição indica que ele exercia diferentes funções e teria sido deslocado entre municípios para cumprir determinações do grupo.

No mesmo mês, três adolescentes de 16 e 17 anos foram apreendidos em Pedro Gomes pela suspeita de participação na execução de Alexandre, conhecido como Pelego. Segundo a investigação, homens encapuzados invadiram uma residência e mataram a vítima. A polícia identificou divisão de tarefas e atuação coordenada.

Para Mônica, esses elementos ajudam a diferenciar uma simples declaração de pertencimento de uma participação efetiva. Quando o adolescente recebe uma tarefa, conhece as regras e atua com outros integrantes, passa a integrar a estrutura operacional da facção.

Armas e missões contra rivais - Em maio, um adolescente de 17 anos, conhecido como Mal Criado, e o barbeiro Eliseu Bitencourt, de 32 anos, morreram durante uma abordagem policial na Rodovia MS-223, em Costa Rica.

Segundo a polícia, eles transportavam armas que seriam utilizadas em atentados relacionados ao confronto entre PCC e CV. O adolescente foi apontado como integrante do PCC e descrito como “missionário', termo usado pela investigação para integrantes encarregados de atacar ou executar rivais.

A denominação transforma a prática criminosa em uma tarefa associada à obrigação e à lealdade ao grupo.

Também em maio, adolescente de 16 anos conhecido como PK foi perseguido e morto dentro de casa, no Jardim Monte Líbano, em Dourados. A investigação afirmou que ele exercia a função de “disciplina' no PCC e era suspeito de participação em um homicídio ocorrido em 2025.

Adolescente de 15 anos e um jovem de 18 anos confessaram o crime, segundo a polícia. Eles teriam ingressado recentemente no CV e recebido uma ordem da liderança para matar PK e demonstrar força no município.

O caso reúne diferentes etapas do recrutamento. De um lado, um adolescente apontado como ocupante de uma função interna no PCC. Do outro, um jovem recém-integrado ao CV e encarregado de atacar um rival. Nessa estrutura, adolescentes aparecem como integrantes, executores e vítimas.

Jurado de morte aos 14 anos - Em Caarapó, um adolescente de 14 anos foi morto enquanto seguia em uma bicicleta elétrica próximo à BR-163, em 24 de junho.

Segundo informações reunidas pela reportagem, ele era suspeito de envolvimento com o PCC, possuía parentes ligados à facção e estava “decretado', expressão usada no meio criminoso para indicar que uma pessoa foi jurada de morte.

A execução ocorreu durante uma sequência de homicídios no município. Entre as vítimas estavam Wesley Gutierrez Correia, de 20 anos, morto por um adolescente de 16 anos; Kaique Vitor dos Santos Ramos, de 20 anos; e Claudinei Almeida da Silva, de 32 anos, conhecido como Corvinho. A vinculação de todos os crimes à mesma disputa ainda dependia da conclusão das investigações.

Em 7 de julho, um adolescente de 17 anos morreu durante uma ação policial em uma granja no distrito de Itahum, em Dourados. Ele era apontado pela Polícia Civil como integrante do CV e suspeito de homicídios e tentativas de homicídio em Caarapó.

Entre os ataques atribuídos ao jovem estava uma dupla tentativa de assassinato contra um homem de 25 anos, apontado como integrante do PCC, e a cunhada dele, de 27 anos.

Informação, transporte e apoio - Em 12 de julho, uma festa em Dourados terminou com a morte de um adolescente de 17 anos e deixou outras duas pessoas feridas.

Wendelberg da Silva Pereira, de 21 anos, foi apontado como autor dos disparos. Um adolescente de 16 anos teria conduzido a motocicleta usada no ataque, enquanto uma adolescente de 17 anos teria informado aos executores que o alvo estava na festa.

Larissa Estela Gonçalves, de 24 anos, foi investigada por supostamente dar apoio ao grupo. Segundo a polícia, Wendelberg teria ligação com o CV, enquanto o adolescente morto seria simpatizante do PCC.

O episódio mostra uma estrutura com funções distribuídas: uma adolescente teria localizado o alvo, outro teria conduzido a motocicleta e um adulto teria efetuado os disparos.

Em Bataguassu, Kawuan Felipe Isa Rodrigues, de 18 anos, e um adolescente de 15 anos conhecido como TG morreram durante a Operação Liberdade Duradoura, em 17 de julho. Os dois eram investigados por homicídios e pela preparação de um possível ataque contra integrantes de uma facção rival.

No dia seguinte, Bruna Fernandes Ramos da Silva, de 27 anos, foi presa sob suspeita de fornecer apoio logístico e financiar crimes atribuídos ao CV. Segundo a investigação, ela teria intermediado o aluguel do imóvel onde Kawuan e TG estavam escondidos.

O episódio encerra a sequência de oito casos noticiados entre março e 21 de julho de 2026. Em menos de cinco meses, adolescentes foram apontados como integrantes de facções, suspeitos de homicídios, transportadores de armas, informantes, condutores de motocicletas e alvos de execuções.

Internação pode fortalecer vínculos - Dentro das Uneis (Unidades Educacionais de Internação), a ligação com uma facção também pode representar poder, proteção e prestígio.

Segundo Mônica, fazer parte de um grupo reconhecido no ambiente criminal pode proporcionar ao adolescente uma sensação de importância. Ambientes de confinamento também favorecem a troca de informações e experiências.

Adolescente que entra em uma unidade sem ligação com facções pode ter contato com regras, códigos, histórias e integrantes desses grupos durante a internação.

A separação dos jovens com base em supostos vínculos deve respeitar o PIA (Plano Individual de Atendimento), previsto no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

Mônica reconhece que não existem evidências empíricas suficientes para determinar os efeitos dessa divisão. Reunir adolescentes identificados com a mesma organização pode fortalecer a identidade do grupo e ampliar o sentimento de pertencimento.

Assim, uma medida criada para evitar conflitos ou separar rivais também pode consolidar vínculos ainda frágeis.

Desengajamento moral - Ao analisar as mudanças observadas durante 24 anos de atuação no sistema prisional, Mônica destaca a intensificação da cooptação de jovens e relaciona ambientes de segregação social ao desengajamento moral.

O conceito, desenvolvido pelo psicólogo Albert Bandura, descreve mecanismos pelos quais uma pessoa se afasta dos próprios padrões éticos e passa a justificar comportamentos prejudiciais com menor sentimento de culpa ou responsabilidade.

Dentro de uma organização criminosa, a violência pode ser apresentada como cumprimento de uma ordem, defesa do grupo, resposta a uma agressão ou punição contra um rival.

A responsabilidade individual é diluída. O adolescente passa a enxergar o ato como missão, obrigação ou prova de lealdade. Termos como “missionário' e “disciplina' reforçam funções internas e criam uma linguagem própria para ações investigadas como homicídios, tentativas de homicídio e outros crimes.

Redes sociais ampliam a exposição - As redes sociais facilitam a circulação de conteúdos, ameaças e informações em tempo real. Atentados, cobranças e vinganças envolvendo adolescentes passam a receber maior exposição pública.

Para Mônica, essa visibilidade não comprova, isoladamente, uma mudança no grau de violência. O aumento das notícias pode refletir maior divulgação, crescimento das ocorrências ou a combinação dos dois fatores.

Sem dados específicos sobre a ligação de adolescentes com facções, não é possível determinar o peso de cada elemento.

Ainda são insuficientes as pesquisas empiricamente validadas sobre a participação de adolescentes em organizações criminosas, tanto em Mato Grosso do Sul quanto no restante do País.

Também não há dados consolidados que indiquem quantos adolescentes entraram em unidades de internação sem vínculo com facções e saíram ligados a esses grupos.

Saída depende das regras da facção - Segundo Mônica, o desligamento de uma organização criminosa seria possível, mas dependeria das regras estabelecidas pela própria facção.

A psicóloga não detalhou os riscos enfrentados pelo adolescente ou pelos familiares. Limitou-se a apontar que a saída estaria condicionada ao cumprimento das normas internas do grupo.

Como formas de prevenir o recrutamento e favorecer a reinserção social, ela aponta a educação e o cumprimento das garantias previstas no ECA.

A resposta também depende de políticas capazes de oferecer alternativas concretas de pertencimento, formação e proteção.

Os casos mostram que as facções não utilizam adolescentes apenas como vendedores de drogas. Eles são empregados para observar alvos, repassar localizações, transportar e esconder armas, conduzir veículos e participar de ataques.

Entre janeiro de 2024 e 21 de julho de 2026, 48 crianças e adolescentes foram vítimas de homicídio doloso em Mato Grosso do Sul. Os dados não indicam quantas mortes tiveram relação com facções, mas revelam o peso da violência letal sobre menores de idade.

Os 13 casos reunidos pelo Campo Grande News expõem outra parte do problema: adolescentes inseridos na estrutura operacional das organizações criminosas e utilizados em uma disputa na qual podem matar, ajudar a matar e se tornar o próximo alvo.



Ao utilizar nossos serviços, você aceita a política de monitoramento de cookies.
Para mais informações, consulte nossa política de cookies.