• Quinta, 23 de Julho de 2026

O trem que ainda passa

EDUARDO BACANI RIBEIRO (*) / CAMPO GRANDE NEWS


Numa noite qualquer, numa cidade do interior do Brasil, o chamado trenzinho da alegria passa pela rua. Vem iluminado e barulhento, tomado por luzes coloridas, personagens fantasiados, música alta e crianças acenando pelas laterais. Há quase sempre um adulto filmando, outro rindo, outro embarcando também. A pequena locomotiva, no entanto, guarda uma contradição evidente: não precisa de trilhos; anda sobre pneus. Não parte de uma estação ferroviária, não liga uma cidade a outra, não leva ninguém ao trabalho, ao estudo, à visita ou ao reencontro familiar. Dá voltas pelos quarteirões. Faz festa. Retorna ao ponto de partida.

Essa imagem revela muito sobre o lugar que o trem de passageiros ocupa hoje no imaginário brasileiro. Ele já não é, para grande parte de nós, uma experiência cotidiana de deslocamento. Não se espera mais, como antes, a composição que chega à estação trazendo parentes, amigos, trabalhadores ou viajantes de passagem. E, com ela, também se perdeu de vista todo um universo organizado em torno da plataforma: malas, cartas, jornais, encomendas, despedidas e reencontros. Em muitas cidades, os trilhos permanecem como cicatrizes no chão, enquanto as estações, quando escapam ao abandono, passam a abrigar museus, centros culturais, espaços de memória ou sedes administrativas. A viagem, que antes organizava parte da vida, tornou-se lembrança; e o trem, que era experiência no dia a dia, passou também a viver como imagem.

Poucos meios de transporte se incorporaram com tamanha intensidade ao repertório sensível da modernidade. O trem não foi apenas uma máquina: foi som, ritmo, paisagem em movimento e uma pedagogia do tempo. Ensinou cidades a esperar, a medir distâncias, a organizar seus relógios e a reconhecer as estações ferroviárias como portas de entrada. Mais do que atravessar o território, ajudou a produzir um modo de imaginá-lo: onde havia uma estação, existia também uma promessa de conexão.

Talvez por isso o trem entrou com tanta força na arte. Em Villa-Lobos, O Trenzinho do Caipira não é somente uma locomotiva convertida em tema musical: é a própria máquina transformada em paisagem sonora, como se a composição acompanhasse o movimento irregular, mecânico e encantado de um país que se desloca pelo interior. Em Manuel Bandeira, o trem se torna ritmo verbal, quase respiração dos trilhos, uma experiência de escuta antes mesmo de ser imagem. Já em Tarsila do Amaral, a ferrovia participa da linguagem modernista, compondo o imaginário de um Brasil que procurava conciliar máquina, cor, território e horizonte de futuro.

Em São Paulo, poucas imagens ferroviárias parecem tão populares quanto a do trem de Adoniran Barbosa. Trem das Onze não é apenas uma canção sobre um horário. É uma pequena sociologia cantada da cidade. Estão ali a periferia, o compromisso doméstico, a mãe que espera, a impossibilidade de ficar, a dependência de uma linha, de um itinerário, de uma última partida. Há um amor que não pode se prolongar, não porque falte desejo, mas porque há um trem a tomar. Na contenção dessa partida, aparecem as distâncias sociais e afetivas da cidade: o morador da periferia conhece como poucos a métrica das distâncias e o peso do horário.

No entanto, o Brasil que cantou, pintou e poetizou o trem foi, aos poucos, deixando de viajar por ele. A ferrovia permaneceu decisiva para cargas, para certos corredores logísticos, para a economia pesada que raramente vemos de perto. Mas o trem de passageiros, aquele que entrava na vida comum, perdeu presença e saiu de cena em muitas regiões. No interior paulista, onde a ferrovia teve papel fundamental na formação de cidades, no escoamento agrícola, na expansão urbana, na criação de bairros e de sociabilidades, sua ausência se tornou uma presença estranha. As estações perderam suas funções e os trilhos deixaram de oferecer, para a maior parte da população, a possibilidade de embarque.

Assim, o trem de passageiros passou a ocupar um novo lugar. Permaneceu nas lembranças dos mais velhos, que ainda sabem dizer onde ficava a bilheteria, de que lado chegava a composição, como a plataforma se enchia em certos horários e como soava o apito na madrugada. Ficou em fotografias de família, nomes de bairros e antigas estruturas tomadas pela vegetação. Sobreviveu também nos museus e espaços de memória ferroviária, tão presentes no interior paulista. Jaguariúna, Jundiaí, Bauru, São José do Rio Preto, Araraquara, Valinhos, entre outras cidades, guardam fragmentos que recordam aquilo que foi cotidiano antes de se tornar acervo.

Quando entra nesse espaço de contemplação, o trem muda novamente de lugar. Preservam-se objetos, organizam-se lembranças, permite-se que novas gerações vejam aquilo que não conheceram em movimento. Mas essa preservação também revela uma inversão silenciosa: o que antes se experimentava com o corpo agora se contempla com os olhos. O trem que antes levava passageiros agora é visitado; a viagem se converte em exposição, e a espera cotidiana, em memória organizada em vitrines.

Condenar esses espaços seria reduzir a complexidade e a importância de seu gesto. Os museus ferroviários cumprem um papel decisivo ao proteger remanescentes de uma história que poderia desaparecer. O risco começa quando essa celebração patrimonial se basta a si mesma e substitui a pergunta incômoda: quando a locomotiva restaurada nos comove, mas não nos leva a pensar por que esse modo de transportar pessoas deixou de existir em tantas regiões; quando o antigo edifício de passageiros recuperado nos encanta, mas não nos faz questionar o que aconteceu ao pátio, aos trabalhadores e às suas casas, às oficinas, aos armazéns, às linhas desativadas e à própria experiência pública da viagem.

O chamado trenzinho da alegria, visto assim, é mais revelador do que parece. Tenta conservar a aparência ferroviária, mas perdeu quase tudo que fazia do trem de passageiros uma experiência de viagem: os trilhos, a estação, a rede de partidas e a possibilidade de chegar a outros destinos. É uma locomotiva sem ferrovia, uma pequena encenação de viagem que retorna ao mesmo ponto. Parte de sua alegria talvez nasça justamente daí. Nas ruas do interior, ele brinca com aquilo que deixou de ser prática comum e transforma em festa uma imagem deslocada de sua antiga função. Parece encenar, sem saber, algo do destino cultural do trem de passageiros em boa parte do Brasil: restaram a forma e a fantasia de embarque, mas a travessia foi encurtada. O território deu lugar ao quarteirão.

Transformar essa ausência em pergunta para o futuro não autoriza, contudo, idealizar a ferrovia. Ela também carregou contradições: abriu caminhos, mas cruzou áreas indígenas e afetou modos de vida; aproximou cidades, mas participou de formas desiguais de ocupação; prometeu progresso, mas nem sempre perguntou quem ficava à margem dele. Em muitos pontos, a chamada “boca do sertão' não era apenas fronteira de chegada dos trilhos, mas também zona de atrito entre uma modernização que avançava e presenças que ela nem sempre soube reconhecer.

O automóvel e o ônibus também criaram suas culturas, seus hábitos, suas paisagens e seus modos de atravessar o País. Seria simplificador opor um passado ferroviário sem conflito a um presente rodoviário sem valor. Mas há uma diferença importante: quando o trem de passageiros desaparece de muitas regiões brasileiras, não se perde apenas um meio de transporte. Empobrece-se o repertório público dos deslocamentos. Reduzem-se alternativas, concentram-se experiências e desaparecem paisagens antes compartilhadas. Em um país continental, desigual e tão dependente das rodovias, a ausência desse trem é também a ausência de uma possibilidade coletiva.

Talvez esteja aí a razão de seu retorno insistente à cultura: porque falta, porque ainda nomeia algo que não foi inteiramente resolvido, porque guarda a memória de um futuro que envelheceu antes de se cumprir. O trem de passageiros no interior brasileiro parece carregar essa ambiguidade: foi símbolo de modernização e tornou-se também testemunho de abandono; foi máquina de um progresso que se converteu em objeto de saudade. Assim, de infraestrutura cotidiana, passou a ser patrimônio, passeio e lembrança. E, no entanto, há também uma espera suspensa, que cabe numa cena aparentemente simples: em um antigo edifício de passageiros convertido em museu, uma criança observa uma locomotiva parada. Pergunta se aquilo ainda leva gente. Alguém responde que sim, às vezes, em alguns lugares, em certos passeios, em datas especiais. Mas a pergunta vai além da mecânica. O que ela toca, sem saber, é uma dúvida mais profunda: o trem de passageiros ainda se move?

De algum modo, sim: mesmo quando está parado ou reduzido a imagem, festa ou promessa. Move lembranças, perguntas, afetos e críticas. Move a imaginação de um país que ainda escuta, ao longe, um apito difícil de localizar. Talvez venha de uma música antiga. Talvez de uma estação restaurada. Talvez de uma fotografia em preto e branco.

Talvez de um trenzinho colorido que passa pela rua e, por alguns minutos, leva crianças em círculos, oferecendo a essas novas gerações a forma luminosa de uma experiência que muitas cidades deixaram de oferecer.

O trem que já não passa como antes permanece nos atravessando. Não chega exatamente. Não parte completamente. Mantém-se nessa plataforma estranha onde a memória espera não apenas por sua volta aos trilhos, mas por uma ideia de modernidade que ficou pelo caminho.

(*) Eduardo Bacani Ribeiro é pós-doutorando do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP (Universidade de São Paulo)

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