Coronel Sapucaia
Conselheiros relatam insegurança e precariedade em unidade da Região Lagoa
Atendimentos acontecem em casa alugada que sofre com furtos recorrentes, ataques e ameaças
ANA PAULA CHUVA E GENIFFER VALERIANO / CAMPO GRANDE NEWS
O Conselho Tutelar da Região Lagoa, responsável pelo atendimento de mais de 37 mil crianças e adolescentes em bairros como Tarumã, Coophavila, São Conrado e Tijuca, vive uma rotina marcada por insegurança, estrutura precária e falta de condições mínimas de trabalho. Após uma sequência de ameaças e ataques, os conselheiros passaram a atender com o portão fechado e cobram providências do poder público.
Na semana passada, uma mãe invadiu a unidade, depredou móveis e equipamentos e fugiu antes da chegada da GCM (Guarda Civil Metropolitana). Ela foi localizada, encaminhada à Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) Cepol e liberada após audiência de custódia.
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Dias antes, outro episódio já havia aumentado o clima de tensão. Um pai ameaçou diretamente uma das conselheiras após discordar das medidas adotadas para proteger uma criança. Desde então, o atendimento passou a ser realizado com o portão permanentemente fechado. Com isso, o motorista do conselho assumiu também a função de vigilante.
Ele permanece na área externa para identificar quem chega e abrir o portão manualmente aos usuários, já que a campainha da unidade está quebrada. 'Nós aplicamos medidas de proteção para crianças em situação de violação de direitos e, muitas vezes, os próprios responsáveis que praticavam essas violações voltam a ameaçar os conselheiros. Ficamos totalmente expostos', afirma a conselheira Bianca Varoni.
Segundo ela, o medo passou a fazer parte da rotina de trabalho. 'A gente fica apreensivo até para fazer o nosso serviço. Todos aqui, sem exceção, trabalham com medo. A gente fica muito exposto', diz Bianca.
Estrutura improvisada
Além da insegurança, o prédio onde funciona o conselho é uma casa alugada que, inclusive, está à venda. O imóvel não possui espaço suficiente para que os cinco conselheiros realizem atendimentos individuais, já que todos trabalham na mesma sala, comprometendo a privacidade das vítimas.
Também não há salas exclusivas para a psicóloga e a assistente social. As profissionais dividem espaço com o setor administrativo, situação considerada inadequada para a realização de escutas especializadas de crianças vítimas de violência.
'Como fazer uma escuta especializada de uma criança vítima de abuso sexual em um ambiente sem privacidade?', questiona a conselheira Larissa Abdo.
Os armários que armazenam os prontuários ficam em uma área apenas parcialmente coberta. Um deles está com problemas nas gavetas e, durante a chuva que atingiu Campo Grande na semana passada, diversos documentos foram danificados. As conselheiras afirmam que o conserto já foi solicitado, mas nenhuma providência foi tomada.
Os problemas vão além da estrutura física. Segundo os conselheiros, não há servidor responsável pela limpeza da unidade. Para manter o espaço em condições mínimas de funcionamento, os próprios trabalhadores fazem 'vaquinha' para custear serviços de limpeza e até pintura.
Nos fundos do imóvel, o mato alto também preocupa por favorecer a proliferação de doenças e o aparecimento de animais peçonhentos. As conselheiras relatam ainda que o prédio já foi alvo de furtos de fios elétricos, botijão de gás e outros objetos.
'Não estamos pedindo favor. Segurança é dever do poder público. Queremos soluções, não apenas visitas e promessas. A gente faz a nossa parte para manter o espaço limpo, mas muitas coisas estão acima de nós. Precisamos ter condições mínimas de continuar trabalhando. Vivemos uma cultura de violência e muitas pessoas já chegam aqui intolerantes', declarou Larissa.
Os conselheiros afirmam que os problemas vêm sendo comunicados há meses por meio de ofícios encaminhados à SAS (Secretaria Municipal de Assistência Social), pasta à qual o Conselho Tutelar é vinculado, além do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul).
Segundo Larissa, existe inclusive um plano de ação prevendo a mudança da unidade para um imóvel mais adequado, mas a transferência nunca saiu do papel. Enquanto isso, a equipe continua trabalhando em condições improvisadas. Somente nesta terça-feira (4), seis novas denúncias encaminhadas pela Cepol chegaram ao conselho para atendimento.
Apesar das dificuldades, os conselheiros garantem que os atendimentos não serão interrompidos. 'Nós vamos continuar defendendo os direitos das crianças e dos adolescentes. O que estamos cobrando são as condições mínimas para fazer esse trabalho com segurança e dignidade', conclui Larissa.
A reportagem do Campo Grande News encaminhou questionamentos à Prefeitura de Campo Grande e ao MPMS sobre a situação do Conselho Tutelar Região Lagoa e aguarda retorno.
Problema recorrente
As condições precárias dos Conselhos Tutelares vêm sendo alvo de denúncias recorrentes em Campo Grande. No início deste ano, o Conselho Tutelar Sul virou notícia pelas más condições do imóvel onde funciona. A unidade realiza, em média, 500 atendimentos por mês e, em 2023, chegou a ter as atividades suspensas por falta de ventilação.
Em fevereiro de 2025, o MPMS instaurou inquérito para apurar as condições estruturais dos Conselhos Tutelares da Capital. Um ano depois, após reportagem do Campo Grande News, o TCE (Tribunal de Contas do Estado) também abriu investigação sobre situação das unidades.
Ainda em 2023, o portal já havia mostrado problemas na rede de proteção à infância e adolescência, situação que, segundo as reportagens, se arrasta desde 2018.
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