• Quarta, 05 de Agosto de 2026

Árbitro sensação na Rio 2016 registra marca "Rosário do Brasil" e vira estrela em torneios de boxe

Antes conhecido como Jones Kennedy, juiz adota nome criado pela torcida nas Olimpíadas do Rio de Janeiro. Dez anos depois dos Jogos, paraense ainda atua nos ringues e é dirigente

GLOBOESPORTE.COM / LUCAS ESPOGEIRO E PEDRO VERíSSIMO


Jones Kennedy Silva do Rosário na luta que o consagrou nas Olimpíadas do Rio de Janeiro — Foto: Christian Petersen/Getty Images

Imagine entrar em um ringue de boxe como desconhecido do grande público e, sem acertar um golpe sequer, virar sensação entre torcedores. Foi exatamente isso que ocorreu com Jones Kennedy Silva do Rosário nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016. Numa luta sem atletas brasileiros, o público presente no Riocentro decidiu apoiar o árbitro paraense, com direito a gritos de “Rosário é melhor que Neymar'. A festa repercutiu, e Jones Kennedy, como era conhecido, virou “Rosário do Brasil', a ponto de patentear a marca e até hoje ser reconhecido em torneios. Uma década depois dos Jogos do Rio, o ge revisita a história do árbitro e mostra como está a vida de um dos anônimos mais famosos dos primeiros Jogos da América do Sul.

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Se vamos falar de Jones Kennedy, precisamos voltar às Olimpíadas do Rio de Janeiro – mais precisamente a 16 de agosto de 2016, uma terça-feira. Naquele dia, quando Joshua Buatsi, da Grã-Bretanha, e Adilbek Niyazimbetov, do Cazaquistão, se preparavam para entrar no ringue, imaginavam que seriam o centro das atenções na semifinal olímpica do meio-pesado. Mas os torcedores presentes no Pavilhão 6 do Riocentro tinham outros planos. Vibraram ao saber que o árbitro do combate seria um brasileiro, apresentado como Jones Kennedy Silva. No telão, aparecia “Rosário', último sobrenome do juiz.

Com as poucas informações que tinham em mãos, os torcedores fizeram a festa. Entre os gritos inventados, estavam: "Rosário é melhor que Neymar", "Rosário é sinistro", "1, 2, 3, 4, 5 mil, quem manda nessa p... é o Rosário do Brasil".

– Ao subir no ringue, ouvi falarem “Rosário, Rosário'. Inclusive, algumas vezes, eu pensei: “será que estão me chamando de otário?'. Depois, quando eu cheguei à sala dos juizes, todos estavam gritando meu nome. Aí eu fui me dar conta de que não era “otário', e sim “Rosário'. A Rio 2016 foi o apogeu da minha carreira. Fui comparado ao Neymar, uma coisa espetacular – comentou o árbitro, em entrevista exclusiva ao ge.

Curiosamente, a luta que transformou Jones Kennedy em Rosário antecedeu o combate que deu o ouro ao brasileiro Robson Conceição, no peso-leve. A coincidência aumentou ainda mais a repercussão da festa feita para o juiz, que virou celebridade nos dias e meses seguintes às Olimpíadas:

– A partir daquele momento, fiquei conhecido no mundo todo. E, quando estou em um evento de boxe, as pessoas vêm, pedem para eu bater foto. Falo carinhosamente com todos. Os Jogos do Rio mudaram, sim, a minha vida. Criei uma empresa, patenteei o nome “Rosário do Brasil'.

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A vida antes e depois da Rio 2016

Para conversar com Rosário, a reportagem se dirigiu a Mesquita, na Baixada Fluminense, e acompanhou o Grand Prix Internacional de Boxe, no fim de maio. O torneio foi um dos mais recentes eventos em que Jones Kennedy, aos 61 anos, apareceu como estrela principal. Depois de se destacar nas Olimpíadas do Rio, o paraense acumulou aventuras na carreira como árbitro e passou a ocupar cargos de dirigente em entidades, como a Associação Brasileira de Boxe.

– Eu não paro nunca. Até tinha diminuído minha atuação na época da pandemia, mas recebi convites para voltar e retomei o ritmo. Hoje, trabalho no amador, no profissional, sempre com muito profissionalismo, humildade. Tenho o objetivo de representar bem a arbitragem brasileira e respeitar os atletas, o que, para mim, é fundamental – disse Rosário, antes de entrar no ringue para uma das lutas do Grand Prix Internacional.

A dedicação se reflete no currículo que Jones Kennedy construiu ao longo de 28 anos na arbitragem. Quando o ge pediu para Rosário se apresentar, logo no início da entrevista em Mesquita, a resposta foi extensa:

– Sou um árbitro internacional e olímpico. Na minha trajetória, eu tenho três Olimpíadas, cinco Pan-Americanos, oito Sul-Americanos, 13 Campeonatos Mundiais, 69 países. Graças a Deus, também fui consagrado três vezes o melhor árbitro do mundo.

A atuação de Rosário não fica só no boxe tradicional. Com o passar dos anos, o paraense se adaptou às novidades oferecidas pelo esporte. Em 2022, por exemplo, foi o árbitro do duelo entre Whindersson Nunes e Acelino "Popó" Freitas, na primeira edição do Fight Music Show. Um evento que reunia grandes nomes do esporte e do entretenimento merecia um juiz famoso.

Engana-se, porém, quem pensa que o desejo de Rosário sempre foi mediar lutas de boxe. No passado, o paraense até queria estar no ringue, mas como lutador. Tentou carreira, treinou, competiu e percebeu que não chegaria ao palco máximo do esporte: as Olimpíadas. Para manter vivo o sonho de participar dos Jogos, a arbitragem surgiu como via alternativa.

– Decidi que ia parar de lutar e migrar para outra função no boxe. Um dia, um treinador falou para mim: “por que você se dedica tanto?'. Eu respondi: “tenho o sonho de ir às Olimpíadas'. Ele me disse para desistir, porque o Brasil nunca tinha mandado um árbitro para os Jogos. Aquilo ficou na minha cabeça. Eu não baixei a guarda e alcancei meu objetivo – recordou Rosário.

No boxe, há um sistema de classificação que avalia o rendimento de árbitros em competições. A partir disso, a Federação Internacional define quem trabalhará nos principais eventos, como as Olimpíadas. A primeira oportunidade de Jones Kennedy viria em Pequim 2008, mas um problema de saúde tirou o brasileiro dos Jogos.

Em 2010, Rosário foi escolhido para as Olimpíadas da Juventude de Singapura. Dois anos depois, se tornou o primeiro árbitro brasileiro de boxe a atuar nos Jogos adultos, em Londres. E aqui valem parênteses importantes: Jones Kennedy não só esteve na capital inglesa, como também foi o juiz principal da final do peso-galo, entre Luke Campbell (GBR) e John Joe Nevin (IRL), em que o britânico se sagrou campeão.

A participação olímpica mais celebrada por Rosário veio diante do público brasileiro, no Rio de Janeiro. Em terras cariocas, a vida do árbitro seguiu por um rumo inesperado.

Depois de 2016, de tempos em tempos, o nome de Jones Kennedy voltou aos holofotes – seja pelo trabalho como árbitro ou por algum veículo que queira reviver as Olimpíadas do Rio, como é o caso do ge, nesta semana em que os Jogos completam 10 anos.

Notavelmente, o paraense aproveitou o sucesso da última década. Agora, já pensa em se aposentar dos ringues – mas não do boxe como um todo.

– Estou começando a preparar a minha despedida. Em 2027, vou parar. Hoje eu sou um árbitro de mais de 60 anos. Precisarei fazer um trabalho psicológico, porque é uma coisa que amo. Quando arbitro uma luta, é como se eu estivesse na sala da minha casa vendo um bom filme. Amo fazer o que faço. Vou seguir como dirigente, tentando cada vez mais elevar o nome da nossa nobre arte, do nosso boxe – contou Rosário.

Por muito tempo, com amor, o paraense se dedicou ao trabalho nos ringues. Mas foram as arquibancadas do Riocentro que transformaram a vida e a carreira do árbitro. Jones Kennedy virou Rosário do Brasil, uma figura celebrada no imaginário do esporte nacional.



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