Coronel Sapucaia
Casas de madeira resistem no centro de Naviraí, mas patrimônio está ameaçado
Estudo mapeou 229 residências no núcleo original da cidade; 6 foram demolidas e 36 apresentam conservação ruim
INARA SILVA / CAMPO GRANDE NEWS
Confira a galeria de imagens:
As casas de madeira que acompanharam o nascimento de Naviraí nas décadas de 1960 e 1970 ainda resistem no núcleo mais antigo da cidade, mas começam a desaparecer da paisagem. Levantamento realizado por pesquisadores e estudantes da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) identificou 229 residências remanescentes. Entre 2023 e 2026, pelo menos seis foram demolidas.
O estudo também revela as condições em que esse patrimônio chegou aos dias atuais. Das 229 construções mapeadas, somente 27 foram classificadas em estado muito bom de conservação. Outras 166 apresentam condição intermediária e 36 estão em estado ruim.
As residências estão concentradas no chamado octógono central de Naviraí, área correspondente ao núcleo original da cidade. Construídas principalmente durante o ciclo de exploração da madeira, elas guardam características da arquitetura e também da forma como viviam os primeiros moradores do município.
É esse patrimônio que está sendo documentado pelo projeto “Casas de madeira de Naviraí: ocorrências, conservação e memória', desenvolvido pelo curso de Arquitetura e Urbanismo da UFMS em Naviraí e coordenado pelos professores Ricardo Bitencourt e Camila Amaro.
A pesquisa nasceu de levantamentos realizados por estudantes da disciplina Ateliê de Projeto Integrado 5, em 2023 e 2025. Ao perceberem a quantidade de construções remanescentes e, ao mesmo tempo, os sinais de desaparecimento desse conjunto arquitetônico, professores e acadêmicos decidiram aprofundar a investigação.
“O risco de perda da memória e a necessidade de preservação foram os principais motivadores da pesquisa. Muito já se perdeu ao longo das últimas décadas', afirma Ricardo Bitencourt.
Origem da cidade - Os pesquisadores encontraram fotografias históricas que mostram que as construções de madeira tiveram presença significativa na formação de Naviraí. Além do valor histórico, elas demonstram técnicas construtivas próprias do período e soluções de adaptação ao clima e de conforto ambiental. A estimativa inicial era de aproximadamente 240 construções, mas a quantidade de imóveis ainda existentes surpreendeu os pesquisadores. Após a atualização do levantamento, que já considera as seis demolições registradas entre 2023 e 2026, foram contabilizadas 229 construções.
“Ainda assim, o número impressiona. Não parecia haver tantas unidades preservadas', diz Bitencourt.
Conservação preocupa - Para avaliar as condições das casas, a equipe organizou mapas e fichas cadastrais e realizou visitas previamente agendadas com os moradores. Professores e estudantes fizeram medições, registros fotográficos e levantamentos das características arquitetônicas, além de ouvir histórias sobre os imóveis.
“Sempre contavam causos e ofereciam café', lembra Bitencourt.
A avaliação técnica considerou sinais de umidade e infiltrações, presença de fungos e insetos, fissuras e deformações na madeira, além das condições de portas, janelas, telhados, calhas e da proteção superficial das estruturas.
O diagnóstico apontou 27 casas em estado muito bom, 166 em situação intermediária e 36 em condição ruim. Segundo Bitencourt, as construções podem ser consideradas parte do patrimônio cultural de Naviraí por testemunharem diretamente a ocupação do município.
“Elas testemunham a ocupação de Naviraí nas décadas de 1960 e 1970, impulsionada pelo ciclo da madeira. Infelizmente, hoje não existem políticas públicas voltadas para sua preservação', afirma.
Pesquisa continua - A equipe também utilizou ferramentas de inteligência artificial para restaurar fotografias históricas e facilitar a identificação de características das construções. Segundo os pesquisadores, os registros originais foram preservados.
Agora, o projeto avança para a sistematização dos dados e a busca de documentos históricos junto à Fundação de Cultura de Naviraí. O material deverá subsidiar um artigo científico e o relatório final da pesquisa. Para Bitencourt, “preservar a memória urbana é preservar a identidade da cidade. As casas de madeira contam a história dos primeiros moradores e do processo de formação de Naviraí', conclui.
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