• Terça, 01 de Setembro de 2026

Júri absolve acusado preso há 4 anos por duas mortes de 1997

Defesa assumiu processo 30 dias atrás, contestou provas e afirmou que réu nunca esteve foragido

GUSTAVO BONOTTO / CAMPO GRANDE NEWS


José Wanderlei Rodrigues de França, em foto de quando era considerado foragido. (Foto: Reprodução processual)

José Wanderlei Rodrigues de França, de 63 anos, foi absolvido nesta terça-feira (1º) da acusação de matar Irineu Bordin dos Santos e Márcio José da Costa, em 1º de janeiro de 1997, em Sete Quedas, município situado a 468 quilômetros de Campo Grande.

Conforme apurado pela reportagem, o Conselho de Sentença tomou a decisão durante julgamento realizado em Naviraí, para onde o caso foi transferido por decisão judicial. A defesa sustentou que não havia prova válida contra o acusado, que passou cerca de quatro anos preso à espera do júri e recebeu alvará de soltura ao fim da sessão.

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A advogada Gabriela Ben disse por telefone ao Campo Grande News que assumiu o processo há 30 dias e concentrou a defesa em contestar as provas reunidas contra José Wanderlei. Ela também rejeitou a versão de que o acusado tenha passado mais de duas décadas foragido antes da prisão, como apontavam informações divulgadas desde 2022. Segundo Gabriela, a acusação foi construída a partir de elementos que não se sustentaram diante dos jurados.

“Foi feito um castelo de areia. Este caso nunca teve uma prova válida. Meu cliente nunca esteve foragido', afirmou a advogada.

A defesa também afirmou que uma denúncia falsa na Interpol teria levado autoridades a procurar José Wanderlei no Paraguai. Segundo ela, essa informação deu origem a uma sequência de fatos que terminou com a prisão do acusado e sua permanência no sistema prisional por quatro anos. A alegação sobre a Interpol foi apresentada pela defesa durante o julgamento.

Questionada sobre a demora para a realização do júri, a advogada disse que José Wanderlei era representado anteriormente por outros advogados e evitou avaliar a atuação deles. Ela afirmou que, ao assumir o caso, priorizou a realização do julgamento porque o próprio acusado queria ser submetido à decisão dos jurados. “A estratégia liderada por mim foi marcar o julgamento e trazer a verdade à sociedade. Era uma vontade do acusado, que aguardava preso, que ocorresse o julgamento popular. O ouvi, estudei o caso e expliquei à sociedade', declarou.

Prisão - José Wanderlei foi localizado no Paraguai em dezembro de 2022 e entregue às autoridades brasileiras devido à acusação relacionada às duas mortes em Sete Quedas. Na época, o Campo Grande News informou, com base nos dados das autoridades, que ele estava foragido havia 23 anos e vivia no distrito paraguaio de Pindoty Porã com documento em outro nome. Durante a ação, foram apreendidas duas pistolas 9 milímetros, um rifle calibre .22 e cerca de 50 munições.

A prisão deu início a uma espera que se estendeu até o julgamento desta terça. Em maio deste ano, o Campo Grande News mostrou que José Wanderlei já acumulava cerca de quatro anos de prisão preventiva, apesar de ainda não ter sido julgado pelas mortes de 1997. Na ocasião, a Justiça reconheceu que o período de encarceramento era longo, mas manteve a medida por entender que permaneciam os motivos usados para justificá-la.

O júri também deixou de ser realizado em Sete Quedas e foi transferido para Naviraí a pedido do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul). O pedido se baseou em informações da Delegacia Regional de Ponta Porã sobre possível risco à segurança da sessão e à liberdade de decisão dos jurados na cidade onde ocorreram as mortes. A Justiça aceitou os argumentos e marcou o julgamento para Naviraí.

O irmão de José Wanderlei, Valdereis Rodrigues de França, também respondeu pela acusação relacionada às mortes. Ele foi absolvido pelo Tribunal do Júri em 2023 e morreu assassinado em novembro de 2024, em outro caso investigado na região de Sete Quedas.

Crime - A acusação sustentava que a sequência que terminou nas duas mortes começou em 27 de dezembro de 1996, quatro dias antes do crime. Irineu Bordin dos Santos, conhecido como “Cacique', estava em uma caminhonete com outro homem quando passou por um buraco na Rua Treze de Maio e a água atingiu José Wanderlei, que estava sentado em uma motocicleta. Conforme o MP, os envolvidos discutiram e José teria seguido a caminhonete até uma conveniência, onde ele e Irineu entraram em confronto físico.

Ainda segundo a acusação, José e Valdereis voltaram a perseguir Irineu de motocicleta e José teria disparado contra o veículo dele. No dia 1º de janeiro de 1997, por volta das 18h30, Irineu e Márcio José da Costa estavam em um Volkswagen Gol próximo de uma agência bancária, na Rua Monteiro Lobato, quando os irmãos se aproximaram em uma motocicleta. A acusação atribuía ao homem que estava na garupa os disparos que atingiram Irineu três vezes e Márcio uma vez, causando a morte dos dois.

O órgão apresentou acusação contra os irmãos cerca de dois anos depois das mortes. Quase três décadas depois do crime e quatro anos depois da prisão de José Wanderlei, a acusação pediu sua condenação no júri.



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