• Quarta, 02 de Setembro de 2026

Churrasco para Brizola e bolsa na Rússia fizeram “agitadores” alvos de militares

Plano Tarrafa: dossiê para sufocar movimento contra o regime também “pescou' os criptocomunistas

ANAHI ZURUTUZA / CAMPO GRANDE NEWS


Trecho do Plano Tarrafa traz dados do médico Alberto Neder e carimbo de 'secreto' do documento (Foto: Reprodução)

Um médico que recebia cartas da Rússia. Um engenheiro que ofereceu churrasco a Leonel Brizola. Um advogado apontado como procurador de João Goulart. Os três eram irmãos e ocupavam lugar de destaque na lista de pessoas que os órgãos de repressão pretendiam prender em Campo Grande, na porção sul do Estado de Mato Grosso do Sul, durante a Ditadura Militar.

Alberto, René e Humberto Neder formavam uma espécie de núcleo familiar prioritário do Plano Tarrafa, operação secreta que reuniu informações sobre figuras consideradas comunistas, simpatizantes ou contrárias ao regime instalado em 1964.

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As fichas, datilografadas pelas mãos de militares, trazem endereços, profissões, parentescos, opiniões, amizades e atividades políticas dos alvos. Ao lado dos nomes, o plano indicava a prioridade da prisão e até o quartel para onde cada pessoa deveria ser levada.

Entre os motivos registrados estão escrever para jornais, participar de passeatas, criticar autoridades universitárias, demonstrar simpatia pelo então presidente deposto João Goulart, o Jango, ou manter contato com países socialistas. Em algumas das descrições, absolvições e falta de provas aparecem no mesmo documento que mantinha o investigado na mira para uma nova prisão.

O material integra o arquivo do SNI (Serviço Nacional de Informações) e reúne relações elaboradas pela 9ª Região Militar, pela DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social) e pela Polícia Federal à época.

A família Neder – O médico Alberto Neder recebeu a classificação “Prioridade 01' para ser preso pela Ditadura Militar. Conforme a ficha, ele havia sido secretário político do comitê estadual do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e era proprietário do jornal O Democrata.

Os militares descreveram que Alberto realizava reuniões clandestinas em casa, recebia cartas e notícias da Rússia e seguia a “orientação de Moscou'. Também registraram ligações dele com João Goulart, Leonel Brizola e o ex-ministro Wilson Fadul.

O próprio documento informa que Alberto foi absolvido por insuficiência de provas. Mesmo assim, teve os direitos políticos suspensos por dez anos e ficou proibido de entrar em quartéis e repartições militares da 9ª Região Militar. Em 1974, recuperou os direitos políticos.

A vigilância alcançou os irmãos dele. René Neder, engenheiro civil e comerciante, havia sido preso para averiguações e depois colocado em liberdade enquanto aguardava o resultado da apuração.

Na ficha de René, as famosas churrascadas sul-mato-grossenses se tornaram ameaças. O documento relata que Brizola esteve duas vezes na Fazenda Santa Angélica, na região de Rio Brilhante, onde foi recebido com churrascos. O político também teria utilizado um avião e um jipe da propriedade para circular pela região.

René foi apontado como participante de propaganda para a “subversão da ordem política e social' e signatário do folheto “Contra a Agitação e a Desordem'. Foi considerado “filocomunista', expressão usada para classificar alguém como próximo ou simpatizante do comunismo.

Ele negou ser comunista e terminou como indiciado não denunciado. Outra acusação dizia que teria escondido na fazenda Benedito de Oliveira, apontado como ex-chefe do serviço em português da Rádio Pequim e treinado em Cuba para organizar grupos subversivos. Ao final desse trecho, os próprios militares admitiram: “Nada foi apurado'.

Nem o filho escapou da ficha do pai. O documento registra que Henrique Neder foi preso no Rio de Janeiro, em 1977, por suspeita de pertencer ao Movimento de Emancipação do Proletariado. Ficou dez dias detido e foi liberado.

O terceiro irmão, o advogado Humberto Neder, foi descrito como “comunista, criptocomunista e pertencente à linha auxiliar do Movimento Comunista'. A expressão “cripto-comunista' era usada para acusar alguém de esconder suas supostas convicções.

Segundo o dossiê, Humberto mantinha correspondência e frequentava reuniões com pessoas consideradas comunistas. Também teria sido procurador de João Goulart em Mato Grosso.

Novamente, a ficha traz a própria contradição: Humberto não foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional e o promotor não o denunciou. Ainda assim, ficou proibido de entrar em quartéis e repartições militares.

Curso de russo – Pedro Chaves dos Santos Filho também recebeu “Prioridade 01'. O que chamou a atenção dos agentes foi uma combinação de militância estudantil, interesse pela União Soviética e atuação no ensino.

Conforme a ficha do homem que viria a ser senador por Mato Grosso do Sul pelo PSC (Partido Social Cristão), legenda alinhada à direita, de 2016 a 2019, em 1968, ele fazia curso de língua russa, possuía “farta literatura comunista' e buscava uma bolsa na Universidade Patrice Lumumba, em Moscou. O documento ainda o classificou como entusiasta da Revolução Cubana e do regime soviético.

Também pesaram contra ele a participação em passeatas estudantis em Jundiaí e Campinas, no interior de São Paulo, e sua atuação como diretor da Mace (Moderna Associação Campo-grandense de Ensino) e do Cesup (Centro de Ensino Superior Professor Plínio Mendes dos Santos).

Para os militares, comandar instituições de ensino significava que Pedro era alguém capaz de influenciar “grandemente a juventude da região e com liderança no meio estudantil'. A ficha o descreveu como “avesso à disciplina, hierarquia e contra os regulamentos militares'.

Pedro havia sido terceiro-sargento do Exército e foi expulso das Forças Armadas. Em entrevista ao Campo Grande News, afirmou que nunca pertenceu ao Partido Comunista. “Era de centro-esquerda. Nunca fui filiado ao Partido Comunista. Era um idealista sim. Acreditava muito no Brasil, na necessidade de melhorar a distribuição de renda, a favor da reforma agrária, não vou negar nunca', declarou.

Ele contou que passou aproximadamente 6 meses preso em 1964, em períodos intercalados. Parte da detenção ocorreu no navio Raul Soares, mantido pela Marinha próximo ao litoral de Santos (SP). Posteriormente, foi anistiado.

Críticas ao reitor e jornal estudantil – O engenheiro Francisco Fausto Mato Grosso Pereira entrou na lista prioritária por uma trajetória ligada ao movimento estudantil e por enfrentar a administração universitária.

O dossiê lembra que ele participou, em 1968, de congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes) e dirigiu O Dínamo, jornal acadêmico de engenharia do Paraná classificado pelos militares como contrário ao regime.

Já como professor da antiga UEMT (Universidade Estadual de Mato Grosso), Francisco Fausto assinou um documento contra a política adotada pelo reitor João Pereira da Rosa. Também fez críticas públicas ao dirigente durante reunião com o então governador Garcia Neto, no Teatro Glauce Rocha, em Campo Grande.

Um informe anônimo foi usado para descrevê-lo como homem de “tendências políticas esquerdistas'. Ele acabou demitido da universidade, mas continuou em contato com estudantes e participou de reuniões do MDB (Movimento Democrático Brasileiro).

A vigilância se estendeu à esposa, Maria Augusta Rahe Mato Grosso Pereira, acadêmica de Medicina apontada como responsável pela circulação do jornal universitário O Biológico. Para os órgãos de segurança, a publicação fazia propaganda contrária à política governamental.

O refugiado paraguaio – Ricardo Apolinário Granda, aparece entre as histórias internacionais do Plano Tarrafa. Paraguaio radicado no Brasil, ficou conhecido em Campo Grande como proprietário do restaurante e centro cultural “O Gato que Ri'. No dossiê, porém, sua ocupação aparece como garimpeiro.

Granda era opositor do ditador Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai entre 1954 e 1989. Sua atuação ocorreu antes da formalização da Operação Condor, estrutura criada em 1975 para articular a repressão política entre as ditaduras sul-americanas.

A ficha afirma que, em 1972, Granda descarregou em Ponta Porã caixas de armas vindas da Tchecoslováquia. Os militares também o associaram a um grupo que pretendia derrubar Stroessner e, posteriormente, implantar um regime comunista no Paraguai.

Segundo o documento, Granda contribuiu financeiramente com o Partido Comunista Paraguaio e emprestou uma chácara em Bonito para a formação de guerrilheiros. Foi condenado a 18 meses de prisão.

Anos depois, tornou-se alvo de processo de expulsão do Brasil, mas a medida foi arquivada. Sua permanência no País foi regularizada.

A ficha ainda registra que ele poderia tentar se infiltrar na administração e nos canteiros da usina de Itaipu para promover agitação ou sabotagem. Logo depois, o próprio dossiê reconhece: “Nada, entretanto, ficou confirmado'.

Manifesto antiditatorial – Acelino Granja também era um dos caçados com “prioridade máxima'. Charreteiro e ex-presidente do Sindicato de Condutores de Veículos a Tração Animal, foi acusado de participar do movimento comunista, distribuir livros de guerrilha de Che Guevara e contribuir financeiramente com o partido.

Um dos principais elementos usados contra ele foi a assinatura do manifesto “Ao Povo de Campo Grande e aos Trabalhadores'. O texto surgiu como resposta à “Marcha da Família com Deus pela Liberdade', mobilização conservadora que antecedeu o golpe de 1964.

“Apoiar decidida e energicamente o Governo do Presidente Goulart em todas as suas medidas em favor do povo brasileiro; apoiar as medidas tomadas pelo Comando Geral dos Trabalhadores; repudiar as provocações dos grupos anti-Brasil e anti-povo que se escudam na trilogia Deus, Família e Liberdade para imporem ao País a mais sangrenta das ditaduras.', declarava o manifesto.

A previsão registrada no documento acabaria se concretizando dias depois. Acelino foi denunciado em 1964, mas conseguiu habeas corpus por falta de justa causa e foi excluído do processo.

Durvalino Pereira de Barros, então presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário, também foi fichado por assinar o mesmo manifesto. O documento resume sua conduta como apoio a João Goulart e ao Comando Geral dos Trabalhadores e repúdio à Marcha da Família. Ele foi indiciado e absolvido.

Políticos e apoio a Brizola – Escrever ou financiar jornais também colocava pessoas na mira. O professor Itamar Barreira de Macedo foi fichado por ter sido redator-chefe de O Democrata e integrar o chamado Comitê de Imprensa do movimento comunista. O documento informa que recebeu habeas corpus por falta de justa causa em um dos processos.

O médico e ex-vereador William Maksoud, outro classificado como “Prioridade 01', foi acusado de publicar artigos no mesmo jornal e apresentar na Câmara Municipal requerimento de desagravo a João Goulart.

A ficha também registra que ele defendeu publicamente Leonel Brizola e organizou um comitê pela defesa dos minérios de Urucum. O mandato de vereador foi cassado e sua entrada em instalações militares, proibida.

Apesar da extensa relação de acusações, o documento encerra o histórico reconhecendo que, depois de ter sido investigado, William se dedicava exclusivamente ao atendimento dos pacientes e que não havia sido identificada nova participação política.

Abel Freire de Aragão, outro alvo prioritário, foi acusado de contribuir financeiramente com O Democrata, e votar contra a retirada do título de cidadão campo-grandense concedido a Brizola.

Também se posicionou contra o golpe e contra uma manifestação de apoio ao general Castelo Branco para a Presidência. Foi cassado do mandato de vereador e impedido de entrar em instalações militares.

A trajetória posterior provocou uma reação curiosa nos próprios agentes. Em 1975, Abel assumiu a presidência do diretório municipal da Arena, partido que sustentava a Ditadura. O dossiê registra que isso teve “péssima repercussão no meio militar'.

Discordar bastava - Heitor Samaniego Bugarinho era pintor publicitário. Uma testemunha classificou Heitor como “cripto-comunista', enquanto outra o apontou como “comunista inativo'. A própria ficha concluiu que nada havia sido apurado sobre suas atividades. Ainda assim, Heitor estava na relação de “Prioridade 01'.

Fernando Pereira Falcão também recebeu o rótulo de “criptocomunista'. Advogado e major da reserva, ligou-se a grupos contrários ao regime e os militares escreveram que ele havia promovido “agitação' e incitado a luta de classes em Ribas do Rio Pardo.

A ficha registra que Fernando participou de reunião na casa de João Zacarias de Carvalho Corrêa, apontado como pessoa próxima de João Goulart. Ele negou ser comunista, teve a prisão preventiva revogada e foi excluído do processo por decisão do STM (Superior Tribunal Militar), mas perdeu os direitos políticos por dez anos.

João Zacarias, por sua vez, foi fichado por frequentar o Palácio do Planalto. Ainda segundo o dossiê escavado dos porões da Ditadura Militar, viajava com João Goulart quando o presidente deposto visitava Mato Grosso. Os militares ainda o acusaram de ter enriquecido durante o governo de Jango, manter relações com políticos cassados e promover reuniões com pessoas consideradas comunistas. A ficha afirma que ele foi preso e processado, mas informa que um dos inquéritos acabou arquivado pelo STM (Superior Tribunal Militar).

Em outras cidades, as justificativas eram ainda mais genéricas. Havia alvos descritos apenas como “simpatizantes comunistas', “esquerdistas influentes', pessoas com “antecedentes políticos contra a Revolução de 1964' ou cidadãos de “atitudes contestatórias'.

No vocabulário do Plano Tarrafa, nome que faz referência à rede de pesca capaz de fisgar cardumes inteiros, discordar já podia ser suficiente para virar inimigo. As fichas ajudam a mostrar que a repressão não procurava somente pessoas acusadas de ações armadas. A rede também foi lançada sobre quem escrevia, ensinava, protestava, já que nem todos eram militantes comunistas.

Mais de quatro décadas depois do fim da ditadura, o MPF (Ministério Público Federal) prepara uma ação para responsabilizar a União e os espólios de agentes civis e militares envolvidos nas violações. O documento ao qual o Campo Grande News teve acesso é um dos que fazem parte da investigação. Leia na íntegra:



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