• Sexta, 04 de Setembro de 2026

Dona Onita se foi, mas seu amor pela varanda de madeira ficou

Ela passava horas lá ao lado do marido, quando ficou viúva manteve a tradição; agora os filhos que fazem isso

NATáLIA OLLIVER / CAMPO GRANDE NEWS


Dona Onita se foi, mas amor pela varanda de madeira ficou com os filhos (Foto: Juliano Almeida)

Na varanda da casa mais antiga do bairro Guanandi, uma cadeira guarda parte da história de uma família inteira. Era ali que Onita Luíza de Souza, de 90 anos, passava boa parte dos dias, acompanhando o movimento da rua, tomando chimarrão, café e conversando com o marido. Feita de madeira e com um portãozinho baixo, a casa ficou conhecida como 'casa de boneca' e até hoje as pessoas param para tirar fotos dela.

Aquele pequeno espaço da casa, que completará 60 anos, era o lugar preferido dos dois. Pela manhã, o casal se sentava na varanda e começava o dia junto. Depois, voltava para lá sempre que podia. Nos dias de feira, quando a rua ficava ainda mais movimentada, os dois gostavam de observar quem passava.

“Ela adorava comer banana da terra frita. Era um dos pratos prediletos dela. Ela sentava na varanda e comia', conta Márcio Corrêa, um dos filhos dela.

A rotina mudou quando o marido morreu, em 2003. Mas Dona Onita não abandonou a varanda. Mesmo depois de ficar viúva, continuou na cadeira que dividiu por tanto tempo com ele. Foi ela quem partiu depois: um acidente doméstico levou Onita há 1 ano e 5 meses. As cadeiras ainda continuam lá.

“Essa casa tem muita história, momentos que vivemos na infância, minha mãe curtiu até os 90 anos e meu pai até os 85. Esse era o canto dos dois, ponto do namoro. Eles eram muito queridos no bairro. Isso é um lugar muito querido porque tem memórias afetivas muito importantes para nós.'

Márcio explica que quase tudo ficou como a mãe deixou. Ela era exigente, gostava das coisas no tempo dela e da maneira dela. Márcio descreve a mãe como uma mulher forte, corajosa e inteligente. Mesmo envelhecendo, ela manteve a cabeça lúcida e continuou querendo resolver tudo sozinha. O problema era que o corpo já não acompanhava a disposição.

“Ela não entendia que ela já não podia mais fazer tudo. Ela não parava quieta. Se ela te pedisse algo e você não atendesse na hora, ela mesma queria fazer, não importa o risco. Ela não sabia delegar. Isso foi gerando vários acidentes domésticos.'

A família passou a se revezar nos cuidados. Ainda assim, Dona Onita tinha dificuldade em pedir ajuda. Em um domingo de junho, todos os filhos estavam reunidos em casa. Segundo Márcio, foi um dia feliz para a mãe, com churrasco e a família reunida. Mais tarde, depois de tomar a medicação para dormir, ela levantou para ir ao banheiro.

No caminho, caiu e bateu a cabeça com força. Márcio e um dos irmãos estavam próximos, ouviram o barulho e correram para socorrê-la. Ela ainda permaneceu lúcida por alguns minutos, conversando com o filho, mas depois perdeu a consciência.

Dona Onita foi levada para o hospital, onde passou por uma cirurgia após sofrer um traumatismo craniano. Permaneceu 12 dias em coma. Depois, entrou em cuidados paliativos e morreu na madrugada de 4 de julho, poucos dias antes de completar 91 anos. Diante da saudade, Márcio alerta:

“As pessoas de idade não conseguem entender que o tempo passa. Tem que ter muita sabedoria e paciência para lidar e, se possível, facilitar o livre acesso para que não tenha risco de acidente, que foi o que aconteceu aqui.'

Para ele, fica a lembrança de uma mulher que passou a vida trabalhando, cuidando da família e encontrando um jeito de resolver os problemas. E fica também a varanda, onde ela e o marido construíram uma das rotinas mais simples e importantes da casa: sentar lado a lado e ver a vida passar.

“Ela sempre foi uma mulher além do seu tempo, forte, corajosa e inteligente. Não importa o que acontecesse, ela achava uma forma de resolver problemas. Ela fazia acontecer.' Dona Onita teve 5 filhos, Márcio é o caçula. Ele conta que nasceu na casa verde de madeira e que chegou a dormir em uma rede feita com saco de arroz.

“Eu fui o último a falar com ela. Deus é tão bom. Eu moro em São Paulo há 35 anos. Eu tinha ido em abril, porque ela tinha machucado o braço. Fiquei 20 dias com ela, voltei em junho. Fiquei mais 12 dias até que aconteceu o acidente'.

Confira a galeria de imagens:

Acompanhe o Lado B no Instagram @ladobcgoficial, Facebook e X. Tem pauta para sugerir? Mande nas redes sociais ou no Direto das Ruas através do WhatsApp (67) 99669-9563 (chame aqui).

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para entrar na lista VIP do Campo Grande News.



Ao utilizar nossos serviços, você aceita a política de monitoramento de cookies.
Para mais informações, consulte nossa política de cookies.