• Sábado, 05 de Setembro de 2026

Sem UTI e materiais básicos, manter cirurgia cardíaca infantil ficou impossível

Profissionais da saúde pediram demissão, mas uma cirurgiã permanece disponível para atender casos graves

LUCIA MOREL / CAMPO GRANDE NEWS


Crianças em UTI pediátrica no pós-operatório da Santa Casa. (Foto: Arquivo pessoal)

Sem vagas em UTI (Unidade de Terapia Intensiva) para crianças que passam por cirurgia do coração e sem material mínimo para realizar os procedimentos, a equipe responsável pelo serviço na Santa Casa de Campo Grande encerrou os atendimentos, mantendo apenas os de urgência e emergência.

A responsável pelo setor, Aparecida Afif, que está à frente da ala há 31 anos, afirmou que os cinco profissionais que atuam com ela pediram demissão porque as condições de trabalho para a realização das operações ficaram insustentáveis e não há nem mesmo marcapasso (que regula o ritmo do coração).

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Ainda assim, ela ficará à disposição da unidade de saúde para atender os casos urgentes até que haja uma nova equipe, ou até que o hospital seja descredenciado para o serviço (caso seja).

“Isso é lamentável, por quê? Porque quem sofre nessa história toda é a criança. Então, por que é que nós fizemos isso, nós fizemos isso pra preservar as crianças. Nós não queremos fazer as coisas de qualquer maneira, então a partir do momento que você vê que o tratamento que você está fazendo numa criança, você não gostaria de fazer no seu filho, então você aborta', afirmou.

Segundo ela, foram pouco mais de 30 anos entre altos e baixos, mas o agravamento veio a partir de 2017, quando quatro dos seis cardiopediatras que atendiam junto à equipe saíram, restando apenas dois. “De lá pra cá foi uma instabilidade fenomenal', comentou, reforçando que agora em 2026, é o pior momento. “Nunca passamos por uma situação assim, em 30 anos', lamentou.

Ela sustentou que sabe o quanto a situação é grave e que não há outro hospital que realize cirurgias cardíacas pediátricas pelo SUS (Sistema Único de Saúde) em Mato Grosso do Sul, mas reforça que no atual estágio, não há segurança para a realização dos procedimentos na Santa Casa. “Até onde vai o amor pelas crianças? Até o momento em que há segurança', questiona.

Detalha ainda que “a equipe de cirurgia cardíaca pediátrica solicitou demissão por falta de material, por desagregação de todos os componentes do grupo (médicos que foram saindo). E isso tem que ficar muito claro', reforçando que os atrasos no pagamento, por si só, não são a razão do encerramento das atividades.

Entre os insumos que faltam, a médica cirurgiã cita órteses e próteses essenciais para as operações, como remendos e enxertos ou tubos valvulados, bem como bombas de infusão, fios específicos para suturas e até marcapasso, como já mencionado. Também faltam medicamentos para o pós-operatório, como drogas vasoconstritoras, usadas para a contração dos vasos sanguíneos do coração.

Estrutura - Outro problema é a falta de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), que são apenas seis e estão sempre lotados. Para que as cirurgias possam ocorrer, é preciso ter vaga aberta no leito. Aparecida conta que ainda em 2006 foi solicitada a ampliação para dez, o que nunca aconteceu. A atual estrutura é a mesma de quando o serviço foi inaugurado, em 1995.

“Então, nesse período de 30 anos de cirurgia cardíaca nós passamos de 50 para 160 procedimentos ao ano, só que também aumentou a gravidade dos pacientes pelo diagnóstico precoce. Houve uma evolução no tratamento cirúrgico, mas nós continuávamos enclausurado naqueles seis leitos de pós-operatório. Nesse mesmo tempo, o Estado pelo menos duplicou a população. O número de crianças cardiopatas pelo menos duplicou e nós continuávamos com seis leitos', relatou.

A médica ainda comenta que ao menos desde setembro do ano passado não é realizada nenhuma cirurgia eletiva da especialidade na Santa Casa, porque as demandas de urgência e emergência tomam conta de todo o setor.

“Há anos, eu não sei te dizer há quantos anos que eu respondo a cartas do Ministério Público com a seguinte pergunta: 'Por que é que a fila da cirurgia cardíaca pediátrica (eletiva) está tão grande?' E a minha resposta de sempre: 'Falta de leitos de UTI'', ressaltando que, entre uma criança que está medicada e bem e um recém-nascido que corre risco de vida, é inevitável que o bebê seja escolhido.

Saída - Aparecida declara que a solução, quem precisa definir, é o hospital em conjunto com a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde). “Eu não posso solucionar isso. Isso é uma questão da Santa Casa com a Sesau', diz.

Por fim, lembrou que apesar da situação, até o ano passado, a equipe conseguiu bater a meta estipulada pelo Ministério da Saúde, que é de 10 cirurgias ao mês, totalizando 120 ao ano.

A reportagem buscou retorno do hospital e também da Sesau e aguarda resposta.

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