• Segunda, 21 de Setembro de 2026

Como a superficialidade e as telas estão anestesiando nossa humanidade

CARLOS ALBERTO REZENDE (*) / CAMPO GRANDE NEWS


Vivemos em uma era de conexões hipervelozes e diagnósticos de trinta segundos. Nas redes sociais, a autoridade científica e o rigor acadêmico foram substituídos pelo número de seguidores e pela estética impecável. Assuntos de extrema complexidade, que antes exigiam anos de estudo, pesquisa e debate metodológico, hoje são fatiados, mastigados e entregues em vídeos curtos por influenciadores sem qualquer formação na área. O resultado?

Uma sociedade que consome desinformação travestida de verdade absoluta e busca fórmulas mágicas para dores reais da alma, do corpo e do bolso.

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Mas o problema vai muito além da proliferação de discursos rasos. O verdadeiro sintoma de uma inversão profunda de valores sociais surge quando a mediação da vida pelas telas rompe a nossa barreira de empatia básica. O cenário é grotesco, mas assustadoramente comum: diante de um atropelamento, de uma agressão ou de uma tragédia humana na calçada, a primeira reação de muitos já não é estender a mão para prestar socorro, mas sim puxar o celular do bolso para filmar.

Esse fenômeno revela uma patologia moderna, onde a dor alheia deixa de ser um chamado à solidariedade e passa a ser tratada como mero 'conteúdo'. A realidade virou um espetáculo em tempo integral. O indivíduo, anestesiado pela busca obsessiva por visualizações e curtidas, despe-se da condição de cidadão e assume o papel de um espectador passivo e frio.

Nesse ecossistema, a tecnologia falha em sua missão mais nobre. A Inteligência Artificial e os algoritmos, que deveriam servir como ferramentas de emancipação humana, cura de doenças e democratização do saber profundo, são frequentemente calibrados para o oposto. Eles mapeiam nossas vulnerabilidades psicológicas para nos manter viciados na tela, premiando o choque, o bizarro e o superficial. Quem filma a tragédia primeiro ganha o topo do feed; quem espalha a mentira mais atraente ganha o patrocínio.

A celebração do vazio intelectual e a espetacularização da tragédia não são apenas hábitos digitais inofensivos; são forças ativas que estão desumanizando nossas relações. Se não começarmos a questionar a quem estamos dando nossa atenção e o que estamos escolhendo registrar com nossas câmeras, continuaremos a alimentar uma sociedade tecnologicamente avançada, mas moral e intelectualmente falida. É preciso desligar a câmera para voltar a enxergar o outro.

(*) Carlos Alberto Rezende é conhecido como Professor Carlão. Siga no Instagram: @oprofcarlao.



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