• Segunda, 21 de Setembro de 2026

Santa Casa resiste, segue de porta aberta e cheia de “pequenos milagres"

Frase "Deus está aqui' marca a passagem de quem caminha pelos corredores

ALINE DOS SANTOS / CAMPO GRANDE NEWS


Aparecido (à esquerda) comemora trasplante ao lado da médica Rafaella e a esposa Ilza. (Foto: Juliano Almeida)

Uma frase marca a passagem de quem caminha pelos corredores da Santa Casa de Campo Grande, a maior unidade hospitalar de Mato Grosso do Sul: “Deus está aqui'. Diante do volume de pacientes e a gravidade dos casos, não resta dúvida de que o hospital é feito de pequenos milagres.

Se em 11 de setembro, a Santa Casa foi destino para força-tarefa que investiga fraudes milionárias em contratos, na manhã desta segunda-feira (dia 21), o hospital mostra resiliência e segue de portas abertas para salvar vidas.

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Numa entrevista marcada pela emoção, Aparecido Gonçalves Vilalba, de 58 anos, era todo gratidão após o transplante de rim que lhe devolveu esperança. Ele mora em Antônio João e estava hoje no hospital para uma consulta.

“Há três anos e oito meses eu fazia hemodiálise', conta Aparecido. Para receber o tratamento, precisava viajar de Antônio João para Ponta Porã. A viagem era curta, cerca de 45 minutos, mas se tornava penosa diante das fragilidades impostas pelo tratamento.

 “Tinha dia que eu estava bem, tinha dia que estava muito ruim. O sangue precisa passar pela aquela máquina. Tinha dia que eu chegava, ia direto para a cama e passava o dia todo deitado', rememora Aparecido.

Mas  na noite de 16 de junho, perto das 23h30, ele recebeu a ligação de um anjo. No caso a médica nefrologista Rafaella Campanholo Grandinete “A doutora Rafaella ligou para mim e disse: “seu Aparecido, saiu um rim para o senhor, o senhor aceita?'.

Aí, ele correu para fazer a melhor viagem da vida. No outro dia cedo, às 6h10, já tinha vencido a distância entre Antônio João e a Capital e estava, pela primeira vez, na Santa Casa de Campo Grande.

“Nunca tinha vindo aqui no hospital. E graças a Deus eu fui abençoado, fui muito bem atendido pela equipe', diz o paciente. Depois, Aparecido cai em lágrimas e faz um discurso de gratidão a todos que lhe ajudaram.

A emoção contagia Ilza Vilalba, de 69 anos, casada há mais de três décadas com Aparecido. Ela conta que o marido, que tinha perdido a força nas pernas, voltou a caminhar.

Responsável pela ligação que mudou a vida de Aparecido, a nefrologista Rafaella, que trabalha no hospital há uma década, é uma das faces da dedicação do corpo clínico da Santa Casa.

“O procedimento do transplante envolve o hospital inteiro. A cultura do transplante não envolve só os médicos. Mas envolve, inclusive, quem está na recepção. Ele precisa saber que quando o paciente chega, ele tem que parar tudo que está fazendo e internar, que aquele paciente é a prioridade. É uma engrenagem que precisa rodar', diz a médica.

O procedimento para o transplante de rim dura cerca de quatro horas. “Eu gosto muito do que eu faço. A gente sabe que a Santa Casa por problema financeiro, estrutural e tudo mais. A gente quer que o paciente venha e saia bem, possa ter qualidade de vida fora da hemodiálise. Essa satisfação de vê-los bem não há dinheiro no mundo que pague', afirma a nefrologista.

Emoção de salvar vidas 

No Banco de Sangue da Santa Casa, o médico Pedro Santiago e Souza, de 41 anos, segue a rotina de fazer doações quatro vezes por ano. “Nós sempre ouvimos que está faltando sangue. Como sou saudável, me sinto na obrigação de ajudar. Enquanto o corpo me permitir, estarei doando sangue'.

Responsável pelo local, o médico Tsutomu Fukuchi, de 82 anos, conta que trabalha na Santa Casa há 25 anos. Em tantos anos, até já pensou em trocar de setor, mas o tamanho da solidariedade humana o faz permanecer.

O episódio mais emocionante foi de uma senhora, com sangue B negativo, que viu um apelo pela televisão, na casa de uma vizinha, e decidiu ir doar sangue para ajudar.

“O que mais me comoveu nesses 25 anos foi o dia em que fui atender uma senhora simples. Ela me disse que ficou sabendo do pedido de doação assistindo televisão na vizinha, não tinha passagem para o ônibus, mas a vizinha pagou a ida e volta. Ela veio só para doar sangue, só para ajudar, sem ganhar nenhum tostão'.

 O Banco de Sangue funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 11h. As tipagens mais difíceis de encontrar são A negativo, B negativo e AB negativo.

Vidas frágeis 

Um dos mais emocionantes “milagres' da Santa Casa pesa 600 gramas, veio ao mundo em 16 de setembro e atende pelo nome de Noah. Na UTI neonatal (Unidade de Terapia Intensiva), sob os olhos amorosos da mãe, o bebê que nasceu de 22 semanas (quinto mês de gestação), segue em frente, de gotinha em gotinha de leite materno.

Emocionada, Vitória Yzabela Xavier, de 20 anos, conta que tem mais três filhos e não consegue estar sempre no hospital, mas sabe que o pequeno é muito bem cuidado pelos profissionais da Santa Casa. “Não tenho o que reclamar sobre o atendimento'.

Ela lembra que o parto foi muito antes do que esperava e sabia que ele poderia nascer morto. Nesse momento, a voz da jovem fraqueja. Esperançosa, acompanha cada pequena evolução do filho e sonha com o dia em que ele vai com ela para a casa.

Vitória está fazendo rifa de bolos para custear o transporte até o hospital e também precisa de ajuda para montar o enxoval do bebê. O marido perdeu o emprego.

Numa sala com a parede emoldurada por quadro de Nossa Senhora da Amamentação, a supervisora do Banco de Leite da Santa Casa, Isabella Tozzi conta que o serviço existe há 24 anos. Por mês, são atendidas 70 crianças.

“A maioria dos nossos pacientes é recém-nascido prematuros. Existem alguns bebês que não podem receber fórmula infantil, que é produto industrializado. Outra questão é que as mães desses bebês não estão amamentando, não conseguem manter os bebês. O Banco de Leite vai atrás das doadoras, faz o recolhimento do leite na casa, pasteuriza, faz todos os exames para garantir a segurança'.

Para ser doadora de leite, é necessário que a mãe esteja em boas condições de saúde, tenha realizado todos os exames do pré-natal e possua leite excedente, ou seja, que sobra após amamentar seu próprio bebê. A doação é um processo simples e pode ser feita de várias formas:

- Telefone: Ligue para (67) 3322-4174 - WhatsApp: Entre em contato pelo número (67) 98472-5256.



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