Coronel Sapucaia
CAPS, grupos e novos vínculos ajudam Antônio a reconstruir vida sem álcool
Aos 68 anos, Antônio tenta preencher espaço que a bebida ocupou com ajuda na rede pública
INARA SILVA / CAMPO GRANDE NEWS
Ter aonde ir pela manhã, alguém com quem conversar e um compromisso para o dia seguinte. Na vida de Antônio*, de 68 anos, essas pequenas certezas ajudam a preencher o espaço que, durante décadas, pertenceu ao álcool. Entre o medo de voltar a beber e a vontade de recuperar os vínculos familiares, ele encontra no cuidado e na convivência apoio para reconstruir os dias.
A história dele integra uma pequena série de reportagens em que o Campo Grande News se debruça sobre o funcionamento dos CAPS AD (Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas), na Capital. Ao ouvir quem procura e quem oferece esse cuidado, a série mostra como funciona o atendimento e o lugar que ele ocupa na vida de pessoas que tentam retomar planos, relações e a própria rotina.
- Leia Também
- Homens que debocharam do CAPS no Instagram são condenados a multa de R$ 7,5 mil
- À espera de censo, novos rostos se espalham pela cidade no drama das drogas
De segunda a sexta-feira, Antônio passa as manhãs no CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas), em Campo Grande. À tarde, volta para casa, onde vive sozinho com seus 3 cachorros caramelos, que lhe fazem companhia. Também participa de um grupo de apoio e começou a frequentar um centro de convivência para idosos. Manter esses compromissos o ajuda a enfrentar as horas vazias, que durante muitos anos foram ocupadas pelo álcool.
“Antes eu não tinha nada, era vazio', diz.
Antônio afirma estar há um bom tempo sem beber. Frequenta o CAPS desde 2006 e vê no serviço um lugar seguro para continuar o tratamento e lidar com o medo de uma recaída. Foi ali que concedeu a entrevista, em um sábado pela manhã, acompanhado pelo psicólogo Mauro Corsini, que o atende.
O consumo de álcool começou na adolescência, durante as saídas com amigos para as discotecas de Campo Grande. Antônio se lembra do licor de menta com gelo que tomava aos 16 anos para ficar alegre e dançar. Com o passar do tempo, a bebida deixou de fazer parte apenas daquelas noites e dominou também os seus dias.
Ele relata períodos em que bebia continuamente, sem comer nem tomar água, até chegar à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) passando mal.
“Eu sou compulsivo. Se eu tomar um gole, não paro mais. Eu paro na UPA, porque eu vou lá passando mal, vomitando sangue. Como várias vezes eu fui', afirma.
Recorda que foi socorrido diversas vezes e diz que perdeu antigos companheiros de bebida. As tentativas de parar se estenderam por décadas. Antônio calcula que tenha passado por quatro ou cinco internações, duas delas fora de Campo Grande.
Ele conta que procurou um grupo de AA (Alcoólicos Anônimos) pela primeira vez em 1976, ainda jovem. Há cerca de dois meses, começou a participar de reuniões dos NA (Narcóticos Anônimos). Procurou o NA porque não encontrou um grupo de AA perto de casa. No entanto, diz que se reconhece nas experiências compartilhadas pelos outros participantes e encontra nelas algo que pode levar para a própria vida.
Com a ajuda do CAPS, Antônio também começou a frequentar um CCI (Centro de Convivência para Idosos). Ainda está conhecendo as pessoas e se adaptando às atividades, das quais participa às terças e quintas-feiras à tarde. É mais uma oportunidade de convívio em uma rotina que ele procura construir para além da própria casa.
Família - Mesmo nos períodos em que mais bebia, Antônio nunca morou na rua. Vivia com a mãe, a quem atribui o apoio recebido nos momentos mais difíceis. Quando conhecidos o encontravam caído, era para ela que telefonavam.
'O pessoal me levava porque eu era bem conhecido na vida', afirma.
Segundo ele, a mãe também ajudou a criar seus quatro filhos. Antônio reconhece o desgaste que o consumo de álcool causou à família. “Eu aprontava muito', diz, ao lembrar das vezes em que os parentes precisaram procurá-lo e ajudá-lo. Hoje, não vê os filhos há mais de seis anos. Voltou a visitar a mãe, que está acamada, e espera, aos poucos, recuperar também os outros vínculos familiares.
Atualmente, mora em casa própria e recebe uma renda do INSS. Cuidar das despesas e das tarefas cotidianas faz parte da vida que tenta manter sem a bebida. Ele afirma que a distância dos filhos ainda o entristece, e o medo da recaída é um companheiro diário. É por isso que continua a buscar apoio no tratamento, nos grupos e nos compromissos da semana.
“Tenho muito medo do álcool. Eu sei do meu problema. Eu sei os sofrimentos que passei. Então, não quero passar mais.'
Sobre o CAPS - Campo Grande tem dois CAPS AD voltados ao atendimento de pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas. Segundo o psicólogo Mauro Corsini, da Rede Municipal de Atenção Psicossocial, as pessoas interessadas podem procurar diretamente uma das unidades, sem encaminhamento.
Corsini explica que ao chegar, o interessado passa pelo acolhimento inicial que define um plano de cuidado específico, que pode incluir consultas, grupos, acompanhamento individual e, quando necessário, acolhimento em leito. A abstinência não é uma exigência para receber atendimento.
- CAPS AD IV Fátima M. Medeiros:
Endereço: Rua Theotônio Rosa Pires, 19, Jardim São Bento.
Atende as regiões Centro, Bandeira, Prosa e Segredo de Campo Grande.
- CAPS AD III Guanandi:
Endereço: Rua Manuel da Costa Lima, 3272, bairro Guanandi.
Atende as regiões Anhanduizinho, Imbirussu e Lagoa.
*Nome fictício usado a pedido do entrevistado para preservar sua identidade.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.
Leia mais


Primeira página

