Coronel Sapucaia
Na batida do reggaeton, artista indígena Maruko canta em 3 idiomas
Música ajudou Maruko a atravessar a depressão e virou caminho para expressar identidade Kaiowá
CLAYTON NEVES / CAMPO GRANDE NEWS
Foi depois de enfrentar uma depressão que Ertiel Amarilha, 25 anos, voltou a olhar para um antigo sonho. Morador da Aldeia Amambai, em Amambai, o indígena da etnia Kaiowá encontrou na música uma maneira de colocar para fora aquilo que sentia e, aos poucos, também descobriu uma forma de mostrar ao mundo a própria identidade.
Conhecido como Maruko, ele escolheu o reggaeton, ritmo que conheceu ainda jovem, para construir essa história. Nas músicas, ele mistura português, espanhol e guarani e fala de amor, experiências pessoais, resistência indígena e da realidade de quem vive na aldeia.
“Eu precisava achar um jeito de tirar todo esse sentimento que eu tinha. E através da música eu comecei a fazer isso', conta.
Antes de voltar a cantar, Maruko havia colocado o sonho de ser artista em segundo plano. Durante o ensino médio, o artista já imaginava seguir pela música, mas decidiu se dedicar aos estudos. “Eu me formei em História e atualmente faço mestrado em Antropologia', destaca.
No entanto, a música continuou fazendo parte dele e o reencontro aconteceu neste ano. “Eu acompanhava nas redes sociais outros parentes indígenas divulgando trabalhos artísticos e comecei a criar essa ideia de que eu também podia tentar fazer isso', explica.
Foi então que Maruko decidiu criar músicas com uma identidade artística que tivesse a cara dele. A escolha do reggaeton, ritmo ainda pouco comum em Mato Grosso do Sul, veio de uma identificação antiga.
“Eu me identifiquei muito nesse ritmo e falava para mim mesmo que um dia seria cantor de reggaeton. E é isso que eu tô fazendo. Até meu nome artístico, Maruko, foi inspirado no cantor porto-riquenho Farruko, que também trabalha com esse gênero musical', relata.
Mas a música feita pelo sul-mato-grossense ganhou características próprias. Em vez de escolher apenas um idioma, ele decidiu misturar os três que fazem parte da região de fronteira, onde vive. “Eu pensei como que eu posso fazer uma música única para mim, que é misturando espanhol, português e guarani junto. É assim que a gente é nas aldeias', pontua.
E junto com a música, veio a melhora do quadro depressivo. “Eu não me sentia mais o mesmo. E eu precisava achar um jeito de tirar todo esse sentimento que eu tinha. Escrever e fazer música é uma forma de eu me curar e, ao mesmo tempo, tentar ajudar os outros', afirma.
Hoje, esse processo também aparece na relação com quem acompanha o trabalho dele. Algumas pessoas chegam a enviar letras e pensamentos para que Maruko transforme as ideias em música.
“Eu falo de amor, falo da minha experiência, falo também de resistência indígena. Na verdade, eu falo de tudo. Através da música a gente pode se expressar e falar o nosso pensamento', detalha.
No trabalho artístico, Maruko tem como uma das principais referências o Brô MC's, grupo indígena de Mato Grosso do Sul que levou a cultura e as vivências das aldeias para o rap.
“Eles são exemplo de que a gente pode chegar onde quiser, mostrando nossa verdade. E eu vou me dedicar muito porque é uma coisa que eu sempre quis e eu amo fazer. Eu amo cantar', finaliza.
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