Coronel Sapucaia
Às vésperas de centenário da morte, Tia Eva tem legado reconhecido
Certificado entregue nesta segunda formaliza título do primeiro quilombo tombado do Brasil
GUSTAVO BONOTTO E CLAYTON NEVES / CAMPO GRANDE NEWS
Às vésperas do centenário da morte de Eva Maria de Jesus, a Tia Eva, a comunidade quilombola que leva seu nome recebeu nesta segunda-feira (28), em Campo Grande, o certificado de tombamento como Patrimônio Cultural Brasileiro. A cerimônia, com a presença da ministra da Cultura, Margareth Menezes, marcou a entrega formal do título ao primeiro quilombo do País inscrito no novo Livro do Tombo do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
Trineta da matriarca e integrante da diretoria da associação da comunidade, Vânia Lúcia Batista Duarte afirmou que o título chega em um período de outras conquistas para o quilombo. A Igreja de São Benedito, um dos principais símbolos do território, também passa por restauração e deve ter essa etapa da obra concluída em breve.
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“Para nós é um momento muito especial, é uma realização, uma conquista para nós, descendentes de Tia Eva. Hoje estamos recebendo esse título de patrimônio cultural nacional, o território da Comunidade Tia Eva, e em poucos dias também será entregue a restauração da Igreja de São Benedito. Então, para nós é um período festivo, de muita alegria e de muita emoção. Estamos muito felizes', afirmou Vânia.
Segundo ela, os moradores acompanharam as intervenções na igreja desde o planejamento. A obra foi discutida com a comunidade para que os serviços não interferissem nas atividades realizadas no local.
“A construção foi muito dialogada, de forma que não interferiu nas nossas ações aqui na comunidade. E, como é um bem para nós, entramos em conversa, em diálogo, e todos nós nos acertamos esperando por essa grande obra. É uma expectativa muito grande. A gente vê cada tijolinho, cada efeito aqui na igreja, e para nós é uma grande realização', disse.
Para a trineta, o reconhecimento também reforça a responsabilidade dos descendentes na preservação da história deixada pela matriarca.
“Para nós é uma responsabilidade, porque Tia Eva foi e nós ficamos com o legado dela. Então, cuidar desse legado, levar para frente, levar o conhecimento para toda a sociedade é nossa responsabilidade. Com isso, nós estamos felizes. É gratificante, mais uma vez, honrar Tia Eva', afirmou.
Margareth Menezes disse que o tombamento amplia o reconhecimento institucional do território e pode aproximar a comunidade de outras políticas públicas. Segundo a ministra, o trabalho envolve diferentes áreas do governo federal.
“A partir do momento que tem um tombamento oficializado, a comunidade começa também a adquirir os registros e até mesmo a possibilidade para receber as políticas públicas do governo, de maneira mais oficial. Isso é uma batalha que vem de centenas de anos das comunidades quilombolas do Brasil. Nós estamos, neste momento, começando a trazer essas entregas', declarou.
Questionada pelo Campo Grande News sobre a possibilidade de outros quilombos de Mato Grosso do Sul passarem pelo mesmo processo, a ministra disse que cada caso depende do cumprimento de etapas próprias, mas afirmou que o trabalho deve continuar.
“Todos esses processos têm um ritual, são ritos para conseguir. Mas, como nós estamos vendo a realização, a materialização, é uma sequência para que as outras comunidades também comecem a receber. Estamos trabalhando muito fortemente para que a gente consiga contemplar o máximo possível dos quilombos com esse tombamento', afirmou Margareth.
Confira a galeria de imagens:
O superintendente do Iphan em Mato Grosso do Sul, João Henrique dos Santos, destacou que a iniciativa para o tombamento partiu da própria comunidade. Segundo ele, a medida reconhece tanto o território quanto a trajetória das pessoas que mantiveram viva a história de Tia Eva.
“A iniciativa pelo tombamento partiu da própria Comunidade Tia Eva. É um reconhecimento que representa um marco importante na valorização e no fortalecimento da trajetória de resistência do povo quilombola e na preservação de territórios que guardam parte fundamental da história do Brasil', afirmou.
João também relacionou o tombamento à preservação da ancestralidade e dos modos de vida construídos no território ao longo das gerações.
“É um momento de celebrar a ancestralidade para que não se esqueçam de quem veio antes, abriu os caminhos e resistiu para que toda essa Comunidade Tia Eva pudesse hoje existir. O tombamento do quilombo parte da compreensão de que esses territórios e seus moradores são partes constitutivas da nossa identidade, da nossa memória e da nossa diversidade cultural', disse.
Para o superintendente, o reconhecimento também destaca o papel das mulheres negras na formação dessas comunidades. “Esse tombamento reconhece que as mulheres negras foram centrais na luta pela liberdade, pela construção de comunidade, pelo fortalecimento dos afetos e pela preservação de saberes e fazeres ancestrais', afirmou.
Saiba mais - A cerimônia ocorre a pouco mais de um mês do centenário da morte de Tia Eva. Nascida em condição de escravização em Goiás e posteriormente alforriada, Eva Maria de Jesus chegou a Campo Grande no início do século 20 e se estabeleceu na região onde seus descendentes formaram a comunidade. Ela morreu em 11 de novembro de 1926.
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