• Quinta, 01 de Outubro de 2026

Hormônios e cirurgias não eliminam risco de câncer de mama em pessoas trans

Idade, histórico familiar e presença de tecido mamário ajudam a definir a necessidade de exames

KAMILA ALCâNTARA / CAMPO GRANDE NEWS


Paciente passa por atendimento com especialista da área de endocrinologia (Foto: Divulgação)

Usar testosterona ou passar por uma cirurgia de masculinização do tórax não significa eliminar o risco de câncer de mama. Para pessoas trans e não binárias, a necessidade de acompanhamento depende do tecido mamário presente, da idade, do histórico familiar e do uso de hormônios.

O alerta é da endocrinologista Renata Maksoud Bussuan, professora da Afya Educação Médica em Campo Grande. Segundo ela, a identidade de gênero, sozinha, não determina quais exames uma pessoa precisa fazer.

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“Quando avaliamos uma pessoa trans, não podemos pensar no rastreamento do câncer apenas com base no gênero com o qual ela se identifica. É preciso saber quais órgãos e tecidos essa pessoa mantém, se realizou alguma cirurgia, quais hormônios utiliza ou utilizou, por quanto tempo, além da idade e dos fatores de risco individuais', explica.

Homens trans e pessoas não binárias designadas como do sexo feminino ao nascer que mantêm as mamas estão incluídos na recomendação de mamografia de rotina do Ministério da Saúde. No SUS (Sistema Único de Saúde), o rastreamento é recomendado a cada dois anos, dos 50 aos 74 anos, para esse público sem sinais ou sintomas suspeitos.

A cirurgia de masculinização do tórax precisa ser considerada na avaliação, porque não necessariamente retira todo o tecido mamário. A técnica utilizada e o histórico de saúde ajudam a definir o acompanhamento.

O uso de testosterona não elimina a necessidade de prevenção do câncer de mama. Se a pessoa mantém as mamas, deve haver acompanhamento compatível com sua idade e seus fatores individuais', afirma Renata.

Para mulheres trans que utilizam estrogênio, o desenvolvimento das mamas é um dos efeitos da terapia hormonal. Segundo a endocrinologista, o tempo de uso dos hormônios também deve entrar na avaliação.

De acordo com Renata, os estudos disponíveis sugerem que mulheres trans em terapia hormonal têm risco de câncer de mama maior que o de homens cisgênero, mas menor que o de mulheres cisgênero. Ela ressalta, porém, que ainda há limitações nas pesquisas de longo prazo sobre essa população.

Por isso, o acompanhamento deve considerar idade, exposição hormonal, casos de câncer de mama ou ovário na família e alterações genéticas associadas à doença. Pessoas com risco elevado podem precisar de uma estratégia diferente, com início mais cedo dos exames.

Sintomas precisam ser investigados - A mamografia de rotina busca identificar a doença antes do aparecimento de sintomas. Já um nódulo ou outra alteração suspeita exige avaliação própria, independentemente da faixa etária prevista para o rastreamento.

“É importante diferenciar rastreamento de investigação. A idade indicada para fazer uma mamografia de rotina não significa que uma pessoa mais jovem com um nódulo deva esperar chegar àquela idade. Diante de um sinal suspeito, estamos falando de investigação diagnóstica, e ela pode ser necessária em qualquer idade', explica a médica.

Entre as alterações que merecem atenção, a especialista cita caroço ou endurecimento novo na mama ou na axila, mudanças na pele, retração do mamilo, secreção espontânea, principalmente sanguinolenta ou transparente, e feridas que não cicatrizam. Vermelhidão, inchaço persistente e mudança recente no tamanho ou formato de uma das mamas também precisam ser avaliados.

Constrangimento pode afastar - Segundo Renata, experiências de discriminação e falta de preparo dos serviços podem dificultar o acesso de pessoas trans a consultas e exames. Respeitar o nome e os pronomes do paciente e perguntar sobre sua anatomia são medidas para tornar o atendimento adequado.

“Em vez de presumir a anatomia pelo gênero registrado no sistema, precisamos saber quais órgãos a pessoa possui, porque é isso que vai determinar grande parte da prevenção', afirma.

A organização dos espaços também pode criar barreiras. “Um homem trans que precisa realizar uma mamografia, por exemplo, pode se sentir extremamente desconfortável em uma sala de espera identificada exclusivamente como espaço feminino. Às vezes, uma mudança aparentemente pequena na organização do serviço pode fazer uma enorme diferença', diz.

Em Campo Grande, a Afya Educação Médica informa que oferece consultas gratuitas em endocrinologia, dermatologia, psiquiatria e pediatria, além de exames de ultrassom. Informações sobre disponibilidade e agendamento podem ser obtidas pelo telefone (67) 99885-9556.

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