Coronel Sapucaia
Na oficina, mulheres trocam dependência por autonomia debaixo do capô
Sonho de infância e vontade de não depender de ninguém fazem 40 alunas encararem mecânica na Capital
GUSTAVO BONOTTO E JUDSON MARINHO / CAMPO GRANDE NEWS
Uma esperou mais de 50 anos para finalmente aprender aquilo que observava escondida entre peças de trator. Outra já passou pela marcenaria, eletricidade e solda, mas ainda queria entender o suficiente sobre o próprio carro para não ficar à mercê de qualquer diagnóstico. Nesta sexta-feira (2), Telma Regina da Silva, de 64 anos, e Luciene Novaes dividiram a oficina com outras mulheres que chegaram à mecânica por caminhos diferentes, mas com um desejo parecido: saber fazer por conta própria.
Para Telma, entrar na turma de Mecânica Básica Automotiva significou retomar uma história interrompida quando ela ainda tinha por volta de 10 anos. Um dos tios trabalhava com tratores e, sempre que conseguia, a menina se aproximava para acompanhar o serviço. Podia lavar uma peça aqui, ajudar em outra tarefa ali, mas aprender de verdade não fazia parte das possibilidades oferecidas às garotas daquela época.
Outro tio também trabalhava como mecânico e chegou a deixá-la ajudar na montagem do motor de um Fusca. Foram pequenas participações suficientes para alimentar um interesse que permaneceu mesmo quando a vida tomou outro rumo. Telma se casou jovem, teve filhos, trabalhou e viu o tempo passar sem conseguir voltar para aquilo que havia despertado sua curiosidade ainda menina.
“Eu via meu tio mexendo em trator no trabalho como mecânico e tinha o maior prazer de querer estar ali junto com ele, lavando peça, mexendo. Mas eu nunca pude, nunca tive oportunidade de aprender. Casei muito jovem, tive os filhos, e as mulheres antigamente não tinham essa oportunidade como hoje', conta.
A chance apareceu décadas depois quase por acaso. Uma colega do Cras onde Telma trabalha soube que haveria uma turma de mecânica para mulheres e avisou justamente porque conhecia a antiga paixão dela. Telma correu atrás da inscrição e diz ter conseguido uma das últimas vagas disponíveis.
“Fiquei muito feliz quando tive essa oportunidade. Aí agora foi a minha vez. Falei: ‘Eu vou conseguir agora’. Então estou aqui, quero aprender', diz. Aos 64 anos, ela também começou a faculdade de Gestão Pública e já pensa em seguir para Serviço Social. Para Telma, voltar a estudar virou uma decisão maior do que simplesmente acumular cursos. “A gente não pode estacionar. Nossa passagem por aqui é muito rápida também.'
Na mecânica, o sonho antigo também ganhou uma razão bastante prática. Telma tem carro, acompanha os cuidados com o veículo e quer saber o que fazer quando surgir um problema simples. A intenção é depender menos de alguém disponível para socorrê-la e entender melhor o que acontece debaixo do capô.
A poucos metros dela está Luciene Novaes, que já fez justamente o caminho contrário: em vez de esperar décadas pelo primeiro curso, transformou as capacitações em rotina. Servidora pública, calcula estar chegando à sexta formação. Já encarou marcenaria, eletricidade e solda. Agora resolveu acrescentar mecânica à lista.
“Lugar de mulher é onde ela quer', resume Luciene, antes de explicar que, desta vez, a escolha também nasceu de situações vividas como motorista. Ela conta que já saiu de oficina com a sensação de ter pagado mais do que deveria porque não conhecia o suficiente para questionar o serviço apresentado.
Por isso, não pretende terminar as aulas sabendo apenas nomes de peças. Luciene quer reconhecer problemas básicos, conferir água e fluidos, trocar um estepe e chegar a uma oficina conseguindo explicar melhor o que percebeu no carro.
“Quero saber um pouquinho para eu mesma levar o carro no mecânico e falar: ‘Olha, meu carro está com problema em tal lugar’. E o mecânico olhar para mim e falar: ‘Realmente, você está certa’. A gente geralmente deixa essas coisas para um homem fazer. No curso, quero aprender justamente para saber fazer', explica.
Telma e Luciene estão entre as 40 inscritas na formação, número que já deixou interessadas aguardando uma próxima turma. Durante as 20 horas de aula, elas vão aprender desde o significado das luzes vermelhas, amarelas e verdes do painel até noções de funcionamento do motor, período correto para troca de óleo e substituição de pastilhas de freio. Segundo o instrutor Daniel Damazio, boa parte desse conteúdo será ensinada na prática dentro da oficina.
A intenção é que o aprendizado sirva tanto para quem quer cuidar melhor do próprio veículo quanto para aquelas que enxergarem ali uma possibilidade profissional. O profissional explica que a formação básica pode funcionar como primeiro contato antes de cursos técnicos e outros aperfeiçoamentos na área.
Com a turma preenchida, o Senai já mantém nomes em espera para uma nova edição. A coordenadora de educação profissional, Camila Salles, afirma que a presença de mulheres em cursos associados historicamente ao público masculino deixou de ser exceção dentro da instituição. Neste mês, além da mecânica, foram abertas formações voltadas ao público feminino em áreas como construção e fabricação de móveis. Segundo ela, a procura acompanha também uma demanda da indústria por mais profissionais mulheres em diferentes funções.
Para quem entrou na oficina nesta sexta, porém, os motivos cabem em histórias bem mais pessoais. Para Luciene, é saber o que está pagando quando entregar as chaves do carro a alguém. Para Telma, é finalmente ocupar o espaço que observava quando tinha 10 anos e só podia ajudar a lavar as peças dos tratores.
“Eu sempre tive esse sonho', conta Telma. Mais de cinco décadas depois, desta vez ela não está apenas olhando.
Serviço - O curso de Mecânica Básica Automotiva tem 20 horas e segue até 30 de outubro, com aulas às sextas-feiras, das 18h30 às 21h45, na Fatec Senai, localizada na Rua Engenheiro Roberto Mange, 194, Bairro Amambaí. A turma atual está completa, mas interessadas podem procurar o Senai para entrar na lista de espera. Informações pelo telefone (67) 99985-3600.



