Coronel Sapucaia
Simone perde o Senado, consolida despedida de MS, mas ganha novo território
Terceira colocada, ex-ministra tem votação expressiva e pode transformar a derrota em plataforma para 2030
VASCONCELO QUADROS, DE BRASíLIA / CAMPO GRANDE NEWS
Ao encerrar uma relação de quase 30 anos com a política de Mato Grosso do Sul, trocar o MDB pelo PSB e aceitar uma disputa para o Senado em São Paulo para fortalecer o palanque de Lula, a ex-ministra Simone Tebet colocou todas as fichas na maior aposta de sua vida. E perdeu. Ela ficou em terceiro lugar na disputa em que foram eleitos Guilherme Derrite (União Brasil) e André do Prado (PL), mas conquistou mais de 8 milhões de votos, ou cinco vezes a votação que havia tido como candidata a presidente por São Paulo em 2022 e o equivalente a quatro vezes todo o eleitorado de Mato Grosso do Sul.
Ficou sem cargo, mas pode ter ganhado um novo território eleitoral e densidade para se colocar como alternativa na campanha de 2030.
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“Eu sou uma pessoa de centro', disse Simone hoje, ao fazer um primeiro balanço da eleição. A frase resume a identidade política que procurou sustentar durante a campanha e que agora ganha outro significado diante da derrota: ela não conquistou o mandato que lhe daria o estrelato, mas preservou o espaço político que pretendia ocupar no debate nacional, algo que havia sido negado pelo MDB em Mato Grosso do Sul, onde nem a legenda para o Senado, por pressão de André Puccinelli, teria sido garantida.
Ao explicar sua relação com Lula, Simone reafirmou que não se tornou lulista. “Eu não penso igual ao presidente Lula', disse. Mas, segundo ela, “aquilo que me aproxima do presidente Lula é infinitamente maior do que aquilo que me separa'. Entre esses pontos estão os “conceitos civilizatórios' e “conceitos universais', além da defesa da democracia e dos direitos humanos.
“Eu estive lá tendo coragem de estar ao lado da democracia e é isso que eu defendo', afirmou, ao lembrar sua posição em 2022. Também reforçou sua defesa da soberania nacional: “As riquezas são nossas, nossos problemas são nossos'. E definiu sua principal bandeira: “Eu sou, por humanista, pela pauta dos direitos humanos', com foco na “erradicação da miséria' e na “diminuição da desigualdade social'.
Um novo território - A operação paulista representou uma ruptura com a geografia política familiar. Simone deixou o MDB, filiou-se ao PSB e transferiu o domicílio eleitoral para a capital paulista. Seu marido, Eduardo Rocha, permaneceu em Mato Grosso do Sul e disputou, sem sucesso, uma vaga de deputado estadual pelo MDB. Não foi apenas uma mudança de domicílio eleitoral: foi uma tentativa de construir uma nova base política cujo fracasso praticamente tira a família Tebet da política de Mato Grosso do Sul.
São Paulo, contudo, não era um território completamente desconhecido. Na eleição presidencial de 2022, foi o Estado onde Simone obteve sua maior votação: 1,626 milhão de votos, 6,34% dos válidos, cerca de um terço de sua votação nacional. A candidatura ao Senado multiplicou e transformou esse resultado em uma aposta concreta.
A dificuldade era como convencer o eleitor paulista de que uma política formada em Mato Grosso do Sul poderia representá-lo. Os adversários exploraram a condição de “forasteira'. Simone respondeu apresentando sua experiência nacional como credencial: senadora, candidata à Presidência, ministra, prefeita de Três Lagoas e vice-governadora.
A estratégia foi construir uma candidatura que não se confundisse inteiramente com a esquerda nem se afastasse do campo que a sustentava. Novata no PSB, integrou a aliança de Fernando Haddad e dividiu palanque com Lula, Geraldo Alckmin, Márcio França e Marina Silva. Ao mesmo tempo, procurou dialogar com setores do interior, do agronegócio e com eleitores que não se identificam integralmente com o lulismo. Acabou superando a parceira de coligação e colega de ministério, Marina Silva, o que não é pouca coisa.
A campanha também buscou atravessar fronteiras partidárias. Houve aproximação com Gilberto Kassab e prefeitos do PSD, apoio do Democracia Cristã e, na reta final, de Soninha Francine, do Cidadania. A campanha chegou a imprimir 1 milhão de panfletos sem nomes, imagens e números de Lula, Haddad e Marina, atendendo a pedidos de lideranças de PSD e MDB que queriam apoiar Simone sem associar seus candidatos à chapa majoritária.
A derrota - A competitividade construída ao longo da campanha afastou a ideia de que sua candidatura fosse apenas simbólica. As pesquisas chegaram a colocá-la entre os nomes que disputavam as duas vagas. No fim, porém, a competitividade não se converteu em mandato. Derrite e André do Prado foram eleitos, e Simone terminou em terceiro, atropelada pela onda bolsonarista que, para desespero do STF, conquistou o Senado. O resultado impõe um limite claro à narrativa de que a candidatura foi uma vitória política. A aposta principal fracassou.
Mas a derrota não encerra necessariamente o projeto que estava por trás dela. Simone não estava apenas tentando conquistar uma cadeira. Estava também tentando conquistar território para o futuro, o que, de certa forma, conseguiu ao encerrar a eleição como uma candidata competitiva.
Neste domingo, ao avaliar a eleição, Simone classificou o pleito como “uma eleição atípica, uma eleição diferente de todas, uma eleição nacionalizada' e disse ter sido “a eleição mais silenciosa das sete que eu já participei'.
Para ela, a menor intensidade das disputas nas ruas revela “uma fadiga, um cansaço do eleitor' com a polarização que se arrasta desde 2018. Segundo Simone, o eleitor “não quer mais brigar com a família, ele não quer mais brigar com o filho ou perder amigo por conta de eleição'.
O que fica para 2030 - A leitura da ex-senadora por Mato Grosso do Sul combina com o espaço político que ela pretende ocupar: um centro democrático capaz de dialogar para além da polarização. Por isso, apesar da derrota, Simone afirmou: “Eu tô bastante otimista'.
Também permanece aberta a possibilidade de uma nova participação no governo Lula, caso o presidente seja reeleito nesse segundo turno. Uma eventual volta ao Executivo, porém, dependeria de decisões políticas futuras e não pode ser tratada como consequência automática da derrota.
Mais distante, mas politicamente possível, está 2030. Sem mandato, Simone terá de encontrar uma forma de permanecer relevante no debate nacional e transformar a experiência paulista em capital político.



