Coronel Sapucaia
Flávio e Lula travam disputa pelos 483 mil que faltaram às urnas em MS
Riedel, Azambuja e Contar mobilizam estrutura política; Trad aposta em militância e abstencionistas
VASCONCELO QUADROS, DE BRASíLIA / CAMPO GRANDE NEWS
Vencedores e perdedores nas eleições deslancharam nesta quarta-feira movimentos distintos para intensificar as campanhas do senador Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em busca de uma fatia do eleitorado estadual que não compareceu às urnas no primeiro turno. Em Mato Grosso do Sul, 483.210 eleitores deixaram de votar, o equivalente a 23,87% dos aptos, a maior taxa de abstenção do país. É esse contingente, de quase um em cada quatro eleitores, que passou a ser alvo das campanhas para o segundo turno.
O tamanho do eleitorado ausente entrou na mira dos dois lados da disputa, mas com estratégias diferentes. No campo de Flávio, a prioridade declarada é combinar a redução da abstenção com a transferência de votos de candidatos que ficaram fora do segundo turno e a ampliação do arco político que já apoia o candidato do PL. Entre os aliados de Lula, a ordem é localizar os eleitores que não compareceram, convencê-los a retornar às urnas e ampliar a conversa com quem ainda não definiu o voto.
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Direita mobiliza prefeitos - Depois de um encontro com Flávio Bolsonaro na tarde desta quarta-feira (7), em Brasília (DF), o senador eleito Reinaldo Azambuja (PL) afirmou que a mobilização para reduzir a abstenção está entre as estratégias para ampliar a votação do candidato do PL em Mato Grosso do Sul. Ele estima que Flávio possa chegar a um patamar de 70% dos votos válidos no Estado.
“Diminuindo a abstenção e ampliando essa base de apoio político, de pessoas que estavam no outro campo, que agora vieram junto com a gente, nós vamos ter um belo resultado nas eleições', afirmou Azambuja ao Campo Grande News. Azambuja aposta na mobilização política e na busca pelos eleitores que não foram às urnas para ampliar a votação de Flávio.
A chuva forte registrada no domingo entrou na avaliação dos aliados do candidato do PL como um dos fatores que contribuíram para o elevado número de faltosos. A estratégia, porém, não se limita aos abstencionistas. O grupo também pretende atrair eleitores que votaram em candidatos derrotados no primeiro turno.
O governador Eduardo Riedel (PP), que também participou do encontro com Flávio Bolsonaro, diz que a campanha vai manter mobilizados os comitês e reunir prefeitos, eleitos e aliados que participaram da disputa estadual. Com a eleição local encerrada, a estrutura política passa a ser direcionada à disputa nacional.
“A gente continua mobilizado com os nossos comitês. Vamos reunir os prefeitos, os eleitos, aqueles que não foram eleitos, mas tiveram juntos, pra poder continuar mobilizado, trabalhando, convencendo', afirmou.
Riedel cita eleitores de Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury como alvos da campanha. “A gente tem que estar presente nesse momento, para poder apoiar e ajudar a eleição do Flávio Bolsonaro em Mato Grosso do Sul, a ampliar a vantagem, de trazer aqueles eleitores que tiveram uma outra visão no primeiro turno'.
Questionado se a abstenção seria o foco principal, o governador respondeu: “O foco é o convencimento daquele eleitor que não votou no Flávio, votar nele. Abstenção é outro foco, mas a gente tem que, principalmente, atuar naqueles que tiveram uma outra opção, trazer para o lado da votação do Flávio.'
Riedel também afirma que a coalizão formada em torno de sua candidatura ao governo deve se repetir na disputa presidencial. “PP, União, agora apoiando o PL. Republicanos apoiando o PL.' Segundo ele, a intenção é incorporar também o Avante e manter unidos os partidos que participaram da aliança estadual. O candidato do Avante, Augusto Cury, foi o terceiro mais votado no Estado, com 2,3% do eleitorado ou quase 40 mil votos.
Azambuja afirma que prefeitos que estiveram no campo adversário no primeiro turno já sinalizaram uma mudança de posição. Na próxima quarta-feira, acompanhado de Riedel e das novas bancadas, pretende coordenar uma reunião com os 79 prefeitos do Estado. Nos cálculos de Reinaldo Azambuja, apenas seis prefeitos votaram em Lula. Ele diz que eles já indicaram que migrarão em bloco para Flávio nesse segundo turno.
“Amanhã o Podemos, hoje à tarde o Republicanos. São forças que se movimentam positivamente pra nos ajudar a fortalecer o palanque e, se Deus quiser, dia 25, consolidar a vitória', afirmou Azambuja.
Estrutura da direita reaproveitada - Capitão Contar, senador eleito pelo PL, também presente na reunião com Flávio Bolsonaro em Brasília, diz que a militância não será desmobilizada. Segundo ele, uma estrutura criada durante a campanha estadual, o Projeto Casa da Direita, reúne mais de 400 grupos instalados nos 79 municípios e será aproveitada no segundo turno.
“Nós temos mais de quatrocentas Casas da Direita espalhadas em todos os municípios do Mato Grosso do Sul. Então, é uma estrutura que vai ser aproveitada no segundo turno para ajudar o Flávio a chegar lá', afirmou.
Contar também coloca a recuperação dos votos de outras candidaturas entre as prioridades, ao lado da mobilização de vereadores, prefeitos e demais lideranças. “A nossa meta agora, como foi falado aqui, é voltar para nossos estados, conscientizarmos os entes e agentes políticos, vereadores, prefeitos, gente que não foi eleita, gente que foi eleita, para que a gente se una em torno de uma, dessa grande causa que é eleger o Flávio Bolsonaro.'
A orientação, segundo ele, é concentrar a campanha em temas como segurança pública, educação, saúde e economia. “A orientação aqui é trabalhar pautas verdadeiras sobre a segurança pública, educação, saúde, sobre economia.'
Para Azambuja, a combinação entre redução da abstenção e ampliação do apoio político deve elevar a votação de Flávio. “Só tem uma expectativa de mudança, é o Flávio presidente. Então eu acredito muito na vitória no dia 25', declarou.
PT mira abstencionistas e “bolhas neutras' - No campo de Lula, o ex-candidato do PT ao governo de Mato Grosso do Sul, Fábio Trad, afirma que a estratégia também passa diretamente pelo eleitor que não compareceu às urnas. Ele relata que recebeu da direção nacional quatro orientações para a campanha do segundo turno.
A primeira é ampliar a participação de militantes e simpatizantes nas redes sociais. A segunda é dialogar com as chamadas “bolhas neutras', expressão usada por Trad para definir eleitores que ainda podem optar por Lula. A terceira é justamente identificar os abstencionistas e “recuperá-los pra voltar às urnas', afirmou.
A leitura petista sobre a elevada abstenção é diferente da apresentada pelos aliados de Flávio. Para Trad, o número de eleitores ausentes precisa ser analisado levando em conta as condições excepcionais do domingo. Na avaliação dele, a abstenção foi um fenômeno “forçado' por outro fenômeno, este natural: as chuvas torrenciais que atingiram o Estado e prejudicaram a mobilização e o comparecimento.
A quarta orientação é ampliar o contato presencial. “Provocar debates e reuniões com setores que possam vir a votar em nós', disse Trad.
O petista também atribui peso político ao resultado que obteve no primeiro turno. Segundo ele, Lula o parabenizou pessoalmente pela votação expressiva numa disputa marcada pela desproporção de forças. Trad diz que conquistou mais de 328 mil votos enfrentando todo o sistema industrial reunido em torno da Fiems (Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul), o agroexportador e suas entidades patronais, 90% dos vereadores e quase a totalidade das prefeituras.
Na conversa com os petistas, na segunda-feira, o presidente chegou a afirmar que Trad seria “a nova liderança do campo democrático-progressista no Estado'. Trad diz que pretende continuar atuando politicamente, sem assumir cargos no governo, e usar a votação obtida como base para a atuação da esquerda no Estado.
“A minha posição vai ser de continuar militando, atuando, vigiando, apontando', afirmou.
A estratégia petista combina a recuperação dos abstencionistas com a tentativa de alcançar eleitores ainda não fechados com nenhuma das candidaturas. Trad diz que a campanha pretende atuar nas redes, em reuniões e debates e na busca direta por quem não compareceu no primeiro turno.
A disputa pelos ausentes - Os dois lados chegam ao segundo turno com uma conclusão semelhante: o resultado não será disputado apenas entre os eleitores que já escolheram Flávio ou Lula. A diferença está na estratégia para transformar a parcela ausente em comparecimento e, principalmente, em voto.
No campo de Flávio, Azambuja, Riedel e Contar apostam na estrutura política formada na eleição estadual, na mobilização de prefeitos e militantes e na transferência de votos de candidatos derrotados.
No PT, Trad pretende melhorar o desempenho de Lula combinando a busca pelos eleitores ausentes através do diálogo com as chamadas “bolhas neutras' e a mobilização da militância. A disputa pelo eleitor ausente passa a ser uma das principais frentes do segundo turno em Mato Grosso do Sul. Para os dois lados, o desafio é o mesmo: tirar de casa quem não votou no primeiro turno. O que muda é só o destino que cada campanha pretende dar a esses votos.
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