• Sábado, 17 de Outubro de 2026

Márcia se foi, mas deixou seu amor em cada canto da sapataria

Prestes a completar um ano sem a esposa, sapateiro mantém viva a história de afeto e trabalho

AMANDA FERREIRA / CAMPO GRANDE NEWS


Entre ferramentas e materiais, a sapataria mantém viva uma tradição familiar que atravessa gerações (Foto: Arquivo Pessoal)



Quem passa pela Rua Antônio Maria Coelho, em Campo Grande, talvez nem imagine quantas histórias cabem na pequena Sapataria Fashion . À primeira vista, parece apenas mais uma loja de consertos de sapatos, mas, por trás da fachada, 4 cômodos guardam memórias de uma família que há 50 anos mantém o negócio de pé.

Samuel Rocha Pereira e sua esposa, Márcia Marques Pereira, fundaram a sapataria, que atravessou gerações, colecionou momentos felizes e enfrentou perdas dolorosas. A mais marcante foi a morte de Márcia, que completa um ano neste sábado (17).

Hoje, entre 7 funcionários, sapatos à espera de reparos e lembranças espalhadas pelo lugar, a família mantém vivo o legado da mulher que foi o braço-direito de Samuel e fez do amor à profissão uma parte da própria história. Afinal, ali não se consertavam apenas saltos e solados, também se construía uma vida inteira de dedicação, companheirismo e amor pelo ofício.

A ausência de Márcia ainda é sentida na rotina de Samuel. Durante anos, os dois dividiram muito mais do que o balcão da sapataria. Trabalhavam juntos, almoçavam, viajavam, passeavam e frequentavam a igreja lado a lado.

A companheira de vida também era a pessoa que conhecia cada detalhe do negócio, desde os materiais guardados nos fundos até os serviços encomendados pelos clientes. Agora, prestes a completar um ano sem ela, Samuel continua abrindo as portas da loja que os dois ajudaram a construir.

Márcia faleceu após enfrentar complicações de saúde que, segundo o marido, evoluíram rapidamente. Samuel conta que ela passou por uma cirurgia, mas sofreu uma infecção e não resistiu. A perda chegou de forma inesperada e deixou um vazio tanto em casa quanto no trabalho.

Nos primeiros meses, até encontrar os materiais necessários para um conserto virou desafio. Samuel explica que a esposa tinha uma memória impressionante e sabia de cabeça onde estava praticamente tudo. Era ela quem acompanhava os pedidos, organizava os materiais e ajudava a manter o funcionamento da sapataria.

'Ela tinha uma mente fotográfica. Sabia tudo de cabeça, aqui e lá dentro. Foram quatro, cinco meses bem complicados para descobrir tudo que ela tinha de cabeça, desde material até trabalhos de cliente', conta.

O que ficou - Foi nesse período que a filha do casal, Bárbara Pereira, entrou em cena para ajudar o pai. Embora tenha seguido outro caminho profissional e hoje trabalhe com consultoria para prefeituras, ela cresceu dentro da sapataria e conhece o funcionamento do negócio. Após a morte da mãe, ajudou a reorganizar os espaços, separar materiais e colocar os serviços em ordem.

A participação da filha não começou naquele momento. Durante a pandemia, quando muitos estabelecimentos estavam fechados e o futuro do comércio era incerto, foi Bárbara quem incentivou Samuel a investir na reforma da loja. Ele resistiu à ideia, preocupado em gastar dinheiro sem saber quando o movimento voltaria ao normal.

'Ela falou: 'Você vai fazer'. Eu falei que não precisava. Ela disse: 'Eu vou bancar para você me pagar'. E falou: 'Quem não é visto não é lembrado'', recorda.

A reforma saiu do papel, com investimento de aproximadamente R$ 50 mil. A filha também ajudou a levar o trabalho da sapataria para as redes sociais, onde Samuel passou a mostrar o antes e depois das peças restauradas. Atualmente, segundo ele, o perfil reúne cerca de 12 mil a 13 mil seguidores.

Sapatos, couro, malas, entre outros. Mas a história da Sapataria Fashion começou muito antes das redes sociais. Samuel aprendeu o ofício com um tio, seguindo uma tradição familiar que já existia desde o tempo do avô, também dono de sapataria. Ao todo, são cerca de 50 anos de história da profissão na família. O estabelecimento da Rua Antônio Maria Coelho funciona no mesmo endereço há aproximadamente 27 anos.

Na época em que começou, o trabalho era mais tradicional. Com o passar dos anos, Samuel aprendeu a lidar com novos materiais e técnicas, ampliando os serviços. Hoje, quem entra na loja pode levar desde um sapato com o salto quebrado até uma bolsa de grife que precisa ser completamente restaurada.

A pequena fachada esconde espaços destinados a diferentes etapas do trabalho. Há materiais para confecção de cintos, peças para bolsas, rodinhas de malas, saltos, forros, ferragens e uma sala reservada para pintura de calçados. Em cada canto, uma etapa diferente da recuperação de objetos que, muitas vezes, os donos já pensavam em descartar.

Samuel explica que os serviços são personalizados. Uma cliente pode pedir a troca do forro de uma bolsa, outra pode querer mudar completamente a cor de um sapato. Há também quem procure a sapataria para recuperar jaquetas de couro, trocar zíperes, golas, mangas e punhos. 'Na realidade, essa é uma profissão em que cada trabalho é um desafio. Se eu for falar onde aprendi, foi com o tempo', afirma.

Entre os trabalhos que passaram por suas mãos estão bolsas de marcas famosas e peças encomendadas para ocasiões especiais. Samuel conta que já atendeu clientes conhecidos, incluindo políticos, e também recebe pedidos de outras regiões do Brasil. Para ele, o segredo da permanência no mercado está em acompanhar as mudanças e não limitar a sapataria aos consertos mais simples.

Apesar de ter construído uma clientela fiel, Samuel não pensa em mudar de endereço ou ampliar o estabelecimento. O principal obstáculo, segundo ele, é encontrar profissionais qualificados. A mão de obra especializada está cada vez mais escassa, embora ele acredite que a profissão ainda tenha muito futuro.

Confira a galeria de imagens:

'É uma profissão que nunca vai acabar. Tudo vai se modernizando, mas ninguém vai andar com asa nos pés, vai pisar no chão. E aí necessita do sapateiro', brinca.

Foi com o dinheiro conquistado nesse trabalho que Samuel e Márcia criaram os 2 filhos, Bárbara e Bruno, ambos formados e hoje dedicados às próprias atividades profissionais. O sapateiro fala com orgulho da trajetória da família e garante que nunca pensou em abandonar o ofício. 'Meus filhos todos são formados, cada um tem sua empresa hoje. E eu banquei daqui', destaca.

Mesmo depois de tantos anos, ele ainda participa diretamente dos atendimentos, avalia peças, calcula preços e acompanha os serviços. Diz que conquistou praticamente tudo o que desejava por meio da sapataria, embora faça questão de brincar que só não ficou rico.

'Eu amo o que eu faço. Tenho outra profissão, mas não me vejo fazendo outra coisa. Porque a minha profissão me deu tudo. Tudo que eu quis conquistar, eu consegui', afirma.

Ao falar das conquistas, porém, Samuel não separa a própria trajetória da história que construiu com Márcia. O trabalho dos dois ajudou a sustentar a família, formar os filhos e transformar uma pequena loja em um endereço conhecido por clientes de diferentes gerações.

'O que eu conquistei com a minha esposa foi daqui de dentro. E estou satisfeito. A gente não vai parar no tempo. O que aconteceu, aconteceu, mas a vida tem que continuar', diz.

Neste sábado, quando a morte de Márcia completar um ano, a saudade continuará fazendo parte da rotina de Samuel. A mulher que sabia de memória onde estava cada material já não está atrás do balcão, mas sua presença permanece na história da loja, nas conquistas da família e no cuidado com o negócio que ajudou a construir.

Entre sapatos que ganham uma segunda chance e peças que voltam a ter utilidade, Samuel segue fazendo aquilo que aprendeu a amar, agora também como uma forma de preservar tudo o que os dois construíram juntos.



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