Coronel Sapucaia
Famílias buscam recursos em bazar para levar ginastas a torneio nacional
Com peças a partir de R$ 5, mobilização busca arrecadar R$ 28 mil para despesas da delegação em São Paulo
BRUNA MARQUES E GENIFFER VALERIANO / CAMPO GRANDE NEWS
Roupas a partir de R$ 5, calçados, peças infantis, vestidos de festa e até collants de ginástica rítmica estão entre os produtos vendidos no bazar beneficente realizado neste domingo (18), em Campo Grande. A iniciativa reúne mães, pais e familiares de 11 atletas da Adgims (Associação Desportiva e Ginástica do Mato Grosso do Sul) para arrecadar dinheiro e garantir a participação das meninas no Torneio Nacional de Ginástica Rítmica, entre os dias 3 e 8 de novembro, em São Paulo.
O Campo Grande News esteve neste domingo (18) no bazar, realizado na Avenida Salgado Filho, nº 868. A mobilização busca arrecadar R$ 28 mil para custear transporte, hospedagem e alimentação das 11 atletas durante a competição. Até o momento, as famílias ainda não tinham confirmação sobre a disponibilização de um ônibus pelo poder público. Segundo os responsáveis, as ginastas também não conseguiram o Auxílio-Atleta, benefício da Prefeitura de Campo Grande.
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A venda de produtos doados foi a alternativa encontrada para diminuir o valor que cada família precisará desembolsar. Além de roupas para adultos e crianças, o público encontra sapatos, roupas de festa, eletroportáteis, utensílios domésticos, peças de ginástica rítmica e pastéis. A arrecadação não tem horário definido para terminar: a intenção é permanecer no local enquanto houver possibilidade de vender os produtos e conseguir mais recursos.
A auxiliar contábil Luciana Mota, de 47 anos, mãe de uma das atletas, conta que a ideia surgiu quando os pais tentavam encontrar uma forma de levantar o dinheiro em pouco tempo. Segundo ela, a possibilidade de organizar um bazar chamou a atenção porque os produtos poderiam ser obtidos por meio de doações, sem gerar custos para as famílias.
“Estávamos pensando: meu Deus, o que vamos fazer? Fazer rifa demora muito para vender. Então, passei por uma igreja e vi um bazar solidário. Cheguei aqui e falei: ‘Gente, o que vocês acham de fazer um bazar solidário?’', relata.
A mobilização ganhou força com a contribuição de familiares e pessoas que doaram roupas, calçados e outros itens. Depois, os organizadores também incluíram a venda de pastéis, doces e bolos. Luciana explica que todos os 11 pais das atletas estão envolvidos, com a ajuda de outras pessoas que se solidarizaram com a causa.
“Tudo aqui foi doado. Ainda não sabemos quanto vamos arrecadar, mas, se conseguirmos R$ 10 mil ou R$ 11 mil, já vai ajudar bastante e diminuir o valor que cada pai terá que tirar do próprio bolso', afirma.
Segundo Luciana, o custo estimado para cada atleta é de aproximadamente R$ 2.400, incluindo hospedagem, alimentação e transporte. Caso o ônibus não seja disponibilizado, as famílias terão de encontrar outra forma de levar as meninas à competição, o que pode elevar as despesas.
A mãe também explica que o investimento na ginástica vai além das viagens. Os collants usados nas apresentações podem custar cerca de R$ 1.400 e precisam ser substituídos conforme mudam os temas e as coreografias.
“É um esporte muito caro. Um collant custa R$ 1.400. Por isso, também estamos vendendo peças que as meninas já não usam mais. Minha filha, por exemplo, tem um tema neste ano, mas, no ano que vem, o tema muda e precisamos comprar outro collant. Então, vendemos o antigo para conseguir dinheiro para comprar o novo', conta.
Para Luciana, o esforço é uma forma de ajudar a filha a realizar um sonho. Aos 11 anos, a menina já conseguiu a classificação para o torneio nacional, após participar de competições anteriores.
“Minha filha está no segundo ano de competição e já conseguiu se classificar para o nacional. Isso é um sonho dela. Ela sempre me dizia: ‘Mãe, eu vou me classificar para o nacional’. Então, como não vamos fazer isso por ela? Vamos correr atrás de qualquer forma', diz.
A família já havia contado com transporte e Auxílio-Atleta na competição regional do ano passado, realizada em Sinop (MT). Desta vez, segundo Luciana, não houve a mesma garantia de apoio.
Rotina de treinos - A classificação para o torneio nacional é resultado de uma sequência de etapas, que inclui seletivas, competições estaduais e regionais. Para as ginastas, chegar ao campeonato representa a oportunidade de competir em nível nacional e representar Mato Grosso do Sul.
Ana Beatriz, de 17 anos, pratica ginástica rítmica há seis anos e afirma que a preparação para a competição tem sido intensa. A estudante ainda não conquistou um pódio em torneios nacionais, mas espera alcançar esse objetivo.
“A expectativa é ótima. Espero que cheguemos lá e façamos o nosso melhor. Estamos treinando bastante para isso e vai dar tudo certo', afirma.
Ela conta que os treinos têm exigido dedicação e disciplina. “Os preparativos estão sendo bem intensos e dedicados. Estamos fazendo o nosso máximo para sair o melhor possível', diz.
A relação de Ana Beatriz com o esporte começou ainda na infância, aos 10 anos. Segundo ela, a ginástica entrou em sua vida como uma forma de estimular o desenvolvimento, por orientação médica, após o nascimento prematuro.
“Eu nasci prematura e o médico disse que, para poder desenvolver a altura e o cognitivo, eu precisava fazer algum esporte que incentivasse isso. E a ginástica entrou na minha vida como um objeto para me ajudar a desenvolver', conta.
Além dos avanços físicos e esportivos, a atleta destaca as mudanças na própria personalidade. “Eu era uma menina tímida. Hoje em dia sou mais desenvolvida, consigo falar em público', relata.
A estudante Júlia de Lima Escobar, de 20 anos, também se prepara para a competição. Além de estudar, ela trabalha como professora estagiária de ginástica rítmica. Após ficar cerca de cinco ou seis anos afastada do esporte, retomou os treinos e intensificou a preparação neste ano.
“Está sendo intensa. No ano passado, voltei um pouco e, neste ano, estamos pegando mais pesado nos treinos, porque vamos participar do torneio nacional. Então, está sendo bem intenso', explica.
A rotina precisa ser conciliada com a faculdade e o trabalho. Atualmente, a equipe tenta treinar dois dias por semana, com sessões que ocupam boa parte da tarde e, quando possível, o dia inteiro.
“Por conta da faculdade, estamos tentando treinar dois dias por semana, sendo o máximo que conseguimos. A outra atleta também faz faculdade, tem trabalho e tudo mais. Então, precisamos conciliar todos esses horários, o que fica bem complicado', relata.
Para Júlia, a disciplina é um dos principais requisitos para chegar às competições. Ela também reconhece que a falta de recursos financeiros pode dificultar a trajetória das atletas.
Pais cobram apoio - O professor Maurício do Prado Lima, de 52 anos, é pai de uma ginasta de 11 anos e participa da mobilização. Ele afirma que as famílias estão apreensivas com a proximidade da viagem, mas mantêm a esperança de conseguir o dinheiro necessário.
“A gente fica sempre apreensivo. As mães são muito dedicadas e estão aqui a semana inteira preparando tudo. Graças a Deus, alguns pais também têm vindo, assim como familiares e outras pessoas, para prestigiar o bazar e ajudar na arrecadação', afirma.
Para ele, a participação no torneio é uma conquista construída ao longo de diferentes etapas. As meninas que garantiram as vagas vão representar Mato Grosso do Sul e Campo Grande, mas precisam de condições para aproveitar a oportunidade.
Maurício também destaca a preocupação com o transporte. Como o destino fica em São Paulo, a viagem exige planejamento e um ônibus confortável para as atletas. Até o momento, as famílias ainda buscavam uma definição sobre a disponibilização do veículo.
“Ficamos apreensivos, mas esperançosos de conseguir arrecadar o valor necessário para custear essa viagem', diz.
A falta de apoio financeiro também pesa para as famílias que acompanham a rotina esportiva das meninas. Segundo os responsáveis, o esforço para manter as atletas nas competições se repete a cada ano, com a necessidade de buscar recursos para despesas que não conseguem ser cobertas pelos próprios familiares.
O bazar também recebeu pessoas que conheceram a iniciativa pela divulgação. A nutricionista Daniela Torres, de 29 anos, decidiu passar pelo local neste domingo enquanto seguia para a missa.
“Eu estava indo para a missa e pensei: ‘Cara, acho que é hoje!’. Eu tinha visto a divulgação, fui procurar, encontrei e falei: ‘Vou passar lá’', conta.
Daniela afirma que se sensibilizou com a oportunidade de contribuir para que as crianças participem da competição. Ela ainda não conhecia o projeto e considera importante incentivar o esporte desde a infância.
“É um público que sensibiliza a gente, porque são crianças, e estamos incentivando o esporte e dando a elas a oportunidade de, quem sabe, construir um futuro nessa área, diante de tudo o que estamos vendo hoje. Achei muito bonita a atitude', afirma.
A visitante Ângela Maria Ricaldi, de 54 anos, também foi ao bazar para ajudar. Amiga da mãe de uma das atletas, ela acompanha de perto a rotina das famílias e acredita que a iniciativa poderia alcançar ainda mais pessoas com maior divulgação.
“Com certeza. Acho que falta patrocínio e mais ajuda do poder público. Precisávamos divulgar mais, fazer cartazes, campanhas para ajudar nossas atletas. Graças a Deus, está tendo uma boa movimentação aqui, mas, se houvesse mais divulgação, mais pessoas conheceriam o bazar e viriam ajudar', diz.
Para as famílias, cada compra e doação representa uma contribuição para que as 11 ginastas consigam viajar e competir. A mobilização segue sem horário definido para encerrar, com a expectativa de arrecadar o máximo possível para reduzir os custos e garantir a participação das atletas no torneio nacional.
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