• Segunda, 19 de Outubro de 2026

Jeans velho, moda nova, mulheres transformam retalhos em estilo

Projeto reúne 40 alunas que encontram na costura oportunidades de renda, autoestima e novos começos

AMANDA FERREIRA / CAMPO GRANDE NEWS


Reunidas, alunas mostram que criatividade e sustentabilidade caminham juntas na transformação de tecidos usados em novas peças de moda (Foto: Amanda Ferreira)

Com linhas, cortes e retalhos, a moda ganha novos significados nas mãos de mulheres que aprendem a transformar roupas antigas em peças cheias de estilo e personalidade. Mas, por trás de cada costura, também existem histórias de superação, autoestima e busca por independência financeira.

O projeto reúne 40 alunas, divididas em duas turmas de 20 participantes, uma no polo do Senac Hub Academy e outra no Coophavila II. Nas aulas, elas aprendem a técnica de upcycling, que consiste em transformar roupas e tecidos que seriam descartados em novos produtos.

Todas as sextas-feiras, a partir das 8h, as participantes se reúnem para aprender técnicas de corte, costura e criação de peças, principalmente com jeans, mas também com camisas, camisetas e outros tecidos. O que antes poderia acabar no lixo ganha uma nova utilidade e até valor comercial.

Além de estimular a criatividade, o curso oferece a possibilidade de geração de renda com a venda das peças produzidas. Para algumas mulheres, a atividade também representa uma oportunidade de recuperar a autoestima e enfrentar momentos difíceis, incluindo a depressão.

Entre as participantes estão mulheres com deficiência, problemas de saúde e baixa visão, que não querem ser reconhecidas pelas limitações, mas pelo talento e pela capacidade de criar. A proposta é mostrar que a moda também pode ser um espaço de inclusão, aprendizado e autonomia. Cada peça carrega não apenas o trabalho manual, mas também a dedicação de quem encontrou na costura uma oportunidade de desenvolver habilidades e conquistar seu espaço.

Responsável pelas aulas, a professora Ivany Grance, de 56 anos, é costureira há mais de três décadas, formada em Ciências Sociais e mestre em Antropologia Social. Ela encontrou uma maneira de unir o conhecimento acadêmico à experiência com linhas, agulhas e tecidos para ensinar muito mais do que técnicas de costura.

O projeto trabalha com sustentabilidade, geração de renda e empregabilidade, mostrando que roupas esquecidas no guarda-roupa podem ganhar novas formas, estilos e utilidades.

Confira a galeria de imagens:

“Eu vejo a costura como uma ferramenta de transformação social. Aquela mulher que muitas vezes não tem mais espaço no mercado de trabalho, por idade, por problema de saúde ou qualquer outra questão, tem a costura como possibilidade de gerar renda, de ser inclusa novamente no mundo do trabalho, com a flexibilidade que às vezes é necessária', explica Ivany.

A professora destaca que o upcycling não se resume a reaproveitar tecidos, mas também envolve criatividade e conhecimento de moda. Durante as aulas, as participantes aprendem a desmontar peças antigas e transformá-las em roupas, acessórios e até objetos de decoração.

 O objetivo é prolongar a vida útil dos materiais e evitar o descarte, mas também criar produtos que despertem o interesse dos consumidores. Segundo Ivany, o valor dessas peças não está apenas na matéria-prima, mas principalmente no tempo, na dedicação e no conhecimento de quem as produz.

“As pessoas costumam dizer assim: a costura é terapia. Não, terapia você faz com um profissional de terapia. Isso aqui é dinheiro. A partir do momento que você pega um material que seria descartado e transforma em algo com valor, com informação de moda, você está produzindo objetos de desejo. O que mais valoriza uma peça de upcycling não é a matéria-prima, é o conhecimento de quem produz e o tempo de vida empregado para fazer cada peça', ressalta.

Transformação social - Além de ser uma possibilidade de geração de renda, o curso também representa uma oportunidade de superação para algumas alunas. É o caso da aposentada Marília Reis, de 59 anos, que encontrou na costura uma forma de recomeçar. Enfrentando a depressão, ela conta que as aulas trouxeram um novo sentido à rotina e a oportunidade de aprender outras habilidades.

Pela terceira vez participando das aulas, Marília transforma jeans usado em acessórios que podem servir tanto para guardar fones de ouvido quanto dinheiro, unindo criatividade e utilidade.

“Esse curso veio como uma forma de renovo na minha vida. Aprender uma coisa nova é importante. Aqui a gente tem aprendido a reaproveitar o jeans e outros materiais de forma muito maravilhosa. Eu planejo meus projetos tanto para vender, quanto para uso pessoal', conta a aposentada.

Outra aluna que encontrou na costura uma maneira de ocupar a rotina foi a aposentada Genora Soares Barbosa, de 64 anos. Costureira de profissão, ela passou anos produzindo nécessaires de nylon, mas decidiu encerrar a atividade.

Para não ficar parada, resolveu participar do curso e conhecer novas técnicas. Agora, seu primeiro projeto é uma mochila feita com pedaços de jeans reaproveitados, que ainda está em fase de produção.

“Estou gostando e penso em dar continuidade. Gostei da ideia de usar roupas que não têm mais utilidade para transformar em outra coisa que dá para usar. Já cortei todas as partes da mochila, agora estou esperando uma vaguinha na máquina para costurar', conta.

Aos 22 anos, Geiceani Nantes já acumula mais de uma década de experiência com a costura e sonha em abrir o próprio ateliê. Diagnosticada com fibromialgia, ela encontrou na moda uma paixão que pretende transformar em negócio.

Depois de participar de um curso com Luiz Gugliato, decidiu aprofundar os conhecimentos em upcycling, técnica que já conhecia e que permite dar nova vida a roupas usadas. Agora, aproveita as aulas para aperfeiçoar a modelagem e aprender outras formas de criação.

“Eu sempre amei moda, é minha vocação. Gosto de fazer modelagem e adoro aprender técnicas novas. Vim para aprender de tudo um pouco e também porque quero montar meu próprio espaço de costura', conta.



Para Aline Marcario, a costura vai além da criação de roupas e também representa uma forma de questionar o desperdício na indústria da moda. Integrante de grupos e coletivos ligados ao setor em Campo Grande, ela conheceu o projeto por meio de uma divulgação e decidiu participar para aprofundar os conhecimentos sobre upcycling, técnica que já estudava e pesquisava.

Durante as aulas, Aline desenvolve uma camisa feita com retalhos de tecidos, usando uma modelagem mais complexa, que exige criatividade na combinação das peças. Com cerca de 80% do trabalho concluído, ela aposta em costuras aparentes e bordas desfiadas para dar personalidade à roupa. Ela mesma usará a peça, mas o aprendizado deve contribuir para futuras criações.

“Eu gosto muito de upcycling e acho uma solução extremamente importante para o momento da moda atual, em que a indústria produz muito lixo e desperdiça tecido. Não é só reaproveitar o material, mas criar composições de design para valorizar ainda mais o produto. Gosto dessa estética em que a roupa parece estar costurada, com as costuras expostas e as franjas aparentes. É uma escolha estética. Essa peça estou fazendo para mim, mas o conhecimento que estou adquirindo aqui vai me ajudar a desenvolver muito mais essa técnica', explica.

O curso já está na reta final, com as alunas na etapa de apresentação das peças produzidas ao longo das aulas. O encerramento será marcado pela entrega dos certificados às participantes, que poderão mostrar o resultado do aprendizado e das técnicas desenvolvidas. A previsão é de que novas turmas sejam abertas no próximo ano.

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