Coronel Sapucaia
May adoeceu de tanto trabalhar e hoje ajuda mulheres a desacelerar
Empresária decidiu transformar a própria dor em alerta para outras pessoas que vivem sob pressão para produzir
CLAYTON NEVES / CAMPO GRANDE NEWS
Depois de parar cinco vezes na emergência achando que estava tendo um infarto, mas sair do hospital sem diagnóstico físico, a empreendedora May Gabrielle entendeu que o problema não estava no corpo, e sim na forma como vinha se relacionando com o trabalho. O excesso, a cobrança constante e a dificuldade em separar vida profissional da pessoal a levaram a crises severas de ansiedade e síndrome do pânico ainda antes dos 30 anos.
“Eu coloquei meu CNPJ em um pedestal e deixei meu CPF de lado', resume. A partir dessa percepção, May conta que decidiu transformar a própria dor em alerta para outras mulheres, principalmente aquelas que vivem sob pressão constante para produzir, entregar e performar, muitas vezes ignorando os próprios limites.
O cenário descrito por ela não é isolado. Em relações de trabalho cada vez mais intensas, seja no empreendedorismo ou no regime tradicional, o excesso tem cobrado um preço alto e levado ao desgaste emocional, isolamento e adoecimento mental. No caso de May, o impacto foi direto na rotina. “O medo de ter crises em público me fazia evitar sair de casa e até conviver com outras pessoas', revela.
Foi desse limite que nasceu um movimento voltado ao autocuidado dentro do universo profissional. A proposta é pausar, algo simples, mas pouco praticado.
O grupo reúne hoje mais de 300 mulheres em atividades que misturam ligações profissionais com práticas de saúde mental e física, como exercícios, meditação e terapias. Neste fim de semana, parte das integrantes se reuniram para uma corrida e caminhada no Parque dos poderes.
A iniciativa parte de uma lógica diferente da cultura produtivista. Em vez de priorizar apenas resultados e metas, o foco está em fortalecer quem está por trás do trabalho. “Se a pessoa não estiver bem, o negócio também não vai estar', defende May.
Entre as participantes, a história se repete com nuances diferentes. A empreendedora Samira Ayala, de 24 anos, também enfrentou crise de pânico e depressão, e aponta o excesso de trabalho como um dos principais gatilhos. “Eu era muito focada em trabalhar e esquecia de cuidar de mim', conta.
Na época, ainda sob regime CLT, ela ignorava sinais de esgotamento. “Achava que era bobeira, até acontecer comigo', relata. O quadro só começou a mudar quando ela desacelerou e incluiu atividade física na rotina. Hoje, Samira conta que está quase totalmente recuperada e mais atenta aos próprios limites.
A analista comportamental Juliana Vieira também participou da ação e reforça que esse tipo de ruptura costuma surgir após um período prolongado de negligência pessoal. Segundo ela, muitas mulheres só buscam ajuda quando já ultrapassaram o limite. “Todo processo de mudança começa com uma dor', afirma.
Para ela, o problema está na forma como o trabalho ocupa espaço central na vida, muitas vezes engolindo outras áreas importantes, como saúde, família e bem-estar. “As dores são muito semelhantes: sobrecarga, relações familiares fragilizadas e falta de tempo para si', explica.
O movimento liderado por May tenta justamente quebrar esse ciclo. Ao propor encontros quinzenais e atividades voltadas ao autocuidado, a ideia é criar um ambiente onde produtividade e saúde não sejam opostos, mas complementares.
“O excesso de trabalho não é sinal de sucesso e pode levar ao colapso. Reconhecer limites, fazer pausas e cuidar da saúde mental deixam de ser luxo e passam a ser necessidade básica para sustentar qualquer carreira a longo prazo', finaliza May.
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