• Segunda, 20 de Abril de 2026

Etnomatemática no Território Quilombola Kalunga

Um olhar para as práticas socioetnoculturais

HéLIO RODRIGUES DOS SANTOS (*) / CAMPO GRANDE NEWS


A tese Etnomatemática no Território Quilombola Kalunga: um olhar para as práticas socioetnoculturais, defendida por Hélio Rodrigues dos Santos e orientada por Dr. Geraldo Eustáquio Moreira, no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Brasília – PPGE/UnB, oferece uma perspectiva enriquecedora sobre as conexões a respeito dos saberes ancestrais e o ensino formal de Matemática em comunidades quilombolas.

Situada no campo da Educação Matemática, a pesquisa estabeleceu um diálogo entre dois campos de investigação: a Educação Escolar Quilombola e o Programa Etnomatemática. A Educação Escolar Quilombola constitui-se como uma modalidade de ensino comprometida em traduzir o pensamento radical em práticas sociais inovadoras e socioterritorializadas, orientadas pela consciência da transformação social. Sua essência está no compromisso com a luta pelo acesso aos bens sociais e pela valorização das especificidades das comunidades quilombolas.

Esses anseios da Educação Escolar Quilombola dialogam com o Programa Etnomatemática, uma vez que é a área, o estudo ou a investigação das práticas matemáticas coexistentes em diversas culturas e realidades, que atendam à realidade objetiva de um grupo social específico, transcendendo a mera função de uma proposta pedagógica.

A Etnomatemática – manifestação individual ou coletiva, consciente ou inconsciente, intermediada pela realidade que se propõe a resolver e mensurar os problemas do mundo real de uma maneira não convencional, surge como resposta aos modelos numéricos e filosóficos em que a Matemática atendia apenas aos anseios eurocêntricos, configurando-se como um instrumento de resistência cultural e política, enraizada na interdisciplinaridade e interculturalidade.

Dessa maneira, foi construindo o diálogo entre a Educação Escolar Quilombola e o Programa Etnomatemática que desempenhamos as oficinas pedagógicas na escola quilombola, funcionando como espaços colaborativos e afetivos que mediaram interações entre os saberes populares e os conhecimentos escolares. A participação ativa dos anciãos, professores e estudantes nessas atividades não só enriqueceu o processo educativo com saberes autênticos da comunidade, como também ampliou os laços entre a escola e a comunidade, que historicamente encontravam-se frágeis, transformando o ambiente de aprendizagem em um verdadeiro espaço de trocas e construções coletivas.

As oficinas tiveram a adoção de temas geradores na abordagem pedagógica, elemento crucial para promover o resgate de técnicas e saberes ancestrais que corriam o risco de serem perdidas no tempo, expondo suas profundas dimensões culturais e sociais, bem como desnaturalizando a percepção de neutralidade da Matemática.

Os resultados alcançados pela pesquisa evidenciaram impactos positivos na vida dos participantes. Os achados foram a superação da negação identitária entre os estudantes que, ao se engajarem com os princípios da Etnomatemática, passaram a reconhecer e valorizar suas heranças quilombolas. Esse processo de reafirmação identitária não apenas fortaleceu o senso de pertencimento, mas também impulsionou uma evolução expressiva no aprendizado de Matemática. O ensino, ao ser cuidadosamente contextualizado nas vivências diárias e nos saberes transmitidos pela comunidade, torna-se mais relevante e acessível, facilitando a articulação entre os conhecimentos tradicionais e os conceitos matemáticos escolares.

À guisa de conclusão, a tese reforça a necessidade de políticas públicas educacionais que garantam a implementação de currículos específicos, uma formação de professores contextualizada/específica e investimentos contínuos, essenciais para a efetivação da Educação Escolar Quilombola. A Etnomatemática, nesse cenário, emerge como um percurso vital para a emancipação e a reparação histórica, assegurando que a escola seja de fato um reflexo da rica herança cultural do quilombo para ao quilombo.

(*) Hélio Rodrigues dos Santos é professor voluntário do curso de Licenciatura em Educação do Campo da UnB (LEdoC/UnB). Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da UnB (PPGE/UnB), na linha de pesquisa em Educação Matemática (EDUMAT).

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.



Ao utilizar nossos serviços, você aceita a política de monitoramento de cookies.
Para mais informações, consulte nossa política de cookies.