Esportes
E.C. Originários: clube só com jogadores indígenas reúne aldeias do Brasil todo e vai jogar o Carioca
Time de Maricá carrega o orgulho de um povo marginalizado. Cacique, que também é o presidente, se emociona a duas semanas da estreia: "Todos esses guerreiros foram preparados para estar aqui"
GLOBOESPORTE.COM / TéBARO SCHMIDT
Em Maricá, cidade da Região Metropolitana do Rio de Janeiro que fica a menos de uma hora de distância da capital, a história anda sendo escrita. Pela primeira vez no país, um clube formado exclusivamente por jogadores de origem indígena vai disputar uma competição oficial. O Esporte Clube Originários faz os últimos ajustes para estrear na Série C do Carioca - o equivalente à quinta divisão.
O clube nasceu este ano com um propósito: o de abrir as portas do futebol para indígenas e transmitir o orgulho de um povo geralmente marginalizado. "A gente não é muito ouvido, né", lamenta Tupã Nunes, presidente do clube e cacique da Aldeia Mata Verde Bonita que lidera a resistência dos Guarani Mbya no distrito de Itaipuaçu.
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Com o cocar de liderança feito com penas de mutum, o Tupã recebeu a reportagem do ge em sua casa, na margem do Canal da Costa. Duas imagens imponentes do cacique penduradas na parede dão a ideia de quem é o dono do lugar. Ele quis ser jogador de futebol por um curto período entre a infância e a adolescência, mas, aos 16 anos, conta que precisou escolher o caminho da militância do seu povo.
Hoje, aos 51, o líder da aldeia vê o sonho de uma vida sendo realizado e se emociona.
- O povo indígena vive numa resistência muito forte por causa da desvalorização da sua terra. Acredito que, com o caminho da arte e o caminho do futebol, nossos filhos vão alcançar esse degrau e transmitir para o mundo que esse povo merece estar onde estar, merece ser respeitado no seu habitat original, onde sempre esteve - afirma, sem contar as lágrimas.
Tupã Nunes é o cacique de cerca de 300 indígenas Guarani Mbya que vivem em Maricá. Mas, como presidente do Originários, ele agora comanda jogadores de pelo menos outras 14 etnias diferentes, vindos de todos os cantos do Brasil.
Na equipe, tem gente de aldeia Xekriabá, tem também Potyguara, Pataxó, Guarani, Tupinikim, Kamaiurá, Guarani Nhandeva, Terena, Shanewana e por aí vai. Outros jogadores ainda devem chegar antes do primeiro jogo na competição, no dia 3 de maio, contra o Barcelona.
- Cada jogador que está lá é semente de cada família, de cada povo, de cada sonho. Se é do Xikrin, vai ser do Xikrin. Se é do Kaingang, vai ser do Kaingang. Se é do Xingu, vai ser do Xingu. Todos esses guerreiros foram preparados para estar aqui. Eles sabem onde estão, sabem o que eles vieram fazer - afirma o cacique.
- Todos eles terão essa transmissão importante para o mundo de que ele veio daquele território sagrado, daquela mata, daquela floresta, daquele pedaço do chão chamado "pindorama" - completa ele, fazendo referência ao termo do tupi usado para definir o Brasil e toda a região da América do Sul antes da colonização.
Como seria necessário desembolsar R$ 1,3 milhão para registrar o clube (R$ 500 mil da taxa de filiação da Federação do Rio e cerca de R$ 800 mil da CBF), o Originários fechou um acordo com o Ceres, que não tinha planos de montar time nesta temporada, e vai jogar o Carioca com a inscrição do clube de Bangu.
Como esse time nasceu?
O Esporte Clube Originários até aqui se mantém com dificuldade, financeiramente falando. Existe apenas o patrocínio de uma empresa de proteção veicular de Maricá. O clube tem conversas avançadas com a prefeitura do município e com a Loterj e até correu atrás do registro autêntico de todos os jogadores para comprovar que são indígenas e, dessa forma, destravar a verba pública. Mas o dinheiro ainda não entrou.
O ônibus escolar que busca as crianças todos os dias na aldeia fez um acréscimo no seu itinerário para, duas vezes por semana, levar os jogadores para um campo alugado em Maricá. As atividades não podem terminar depois de 11h da manhã porque o coletivo tem horário para voltar - no caminho, deixa os jogadores que não são da cidade em um hotel onde estão hospedados.
Na Série C, o Originários vai mandar seus jogos no Estádio Municipal João Saldanha, no distrito de Ponta Negra. Com a ajuda de um aqui e o esforço de outro ali, as coisas vão se ajeitando.
"Eu sou grato a todos que se empenharam nesse projeto. Não é só Tupã, por trás do Tupã existe muitas pessoas que não dormem para isso poder acontecer, sabe?", agradece o cacique.
Anderson Terra é uma dessas pessoas a quem Tupã se refere. Presidente do Instituto Terra do Saber, que desenvolve trabalhos com os Guarani Mbya de Maricá há pelo menos cinco anos, ele é o homem por trás do projeto do Esporte Clube Originários.
De fala pausada, barba grisalha e postura inegociável quando se trata de defender a causa indígena, Anderson costuma prestar o papel de interlocutor da aldeia com o poder público e prefere caminhar nos bastidores. Mas se emociona tanto quanto o cacique ao testemunhar o projeto que ajudou a tirar do papel.
- Existe um contexto social em volta da aldeia que é muito pouco observado para quem não está aqui dentro. Um deles é a droga, o outro é o alcoolismo. Então o esporte é canalizador para que o menino tenha uma ocupação, se sinta parte da sociedade e tenha espaço para fazer outras coisas. Nessa ideia de trazer mais coisas para a aldeia é que surge, então, o time de futebol - explica Anderson, revelando o plano de, em breve, montar um time feminino.
A inspiração do Originários é o Gavião Kyikatejê, do Pará, o primeiro clube de futebol indígena do Brasil. Mas com uma proposta ainda mais ousada que a da equipe de Bom Jesus do Tocantins, que precisou recorrer a jogadores de outras etnias ao longo dos anos e nunca disputou uma competição com elenco formado 100% por indígenas.
A primeira missão, portanto, era encontrar esses atletas. Por esse motivo, o clube convidou Huberlan Silva, que ano ano passado foi o treinador da Seleção Indígena de Futebol do Brasil e das Américas (SIFBA). Mas a tarefa não foi das mais fáceis, em especial porque a Série C do Carioca só permite elencos sub-23, com um limite de cinco jogadores acima dessa idade na relação para as partidas.
"A minha dificuldade foi mapear o Brasil inteiro para procurar esses atletas. Porque é só indígena, é 100% indígena. Não pode ser outro", esclareceu o treinador da equipe.
Com divulgação sobretudo nas redes sociais, o Originários promoveu uma peneira com mais de 400 inscrições. A maioria dos indígenas chegou a Maricá por conta própria. Mas, em alguns casos, o clube conseguiu ajudar com as passagens. O goleiro Sávio Conrado, que está no elenco que vai jogar a Série C, por exemplo, veio de Autazes, no interior do Amazonas.
Ele conta que levou quase quatro dias de viagem: saiu de lancha de sua aldeia, pegou a estrada sinuosa até Careiro, mais uma lancha e um carro de aplicativo só para chegar em Manaus. E não se arrepende.
- Eu nunca tive uma oportunidade como essa, de sair e jogar fora. Eu sou o único da minha comunidade que saiu para jogar em um clube profissional - se orgulha Sávio, da etnia Mura.
"As pessoas olham diferente"
No sacolejar do ônibus escolar, depois de mais uma sessão de treino sob a batuta do exigente treinador Huberlan, Jefter da Silva Pêgo canta com voz doce. Ele veio de uma aldeia Tupinikim em Aracruz, no Espírito Santo, e faz soar a canção na sua língua nativa, o tupi-guarani.
Em seguida, o lateral-direito do Originários traduz a música para a reportagem do ge:
"Eu tava lá dentro da mata, pra quê mandou me chamar?
Eu tava lá dentro da mata, pra quê mandou me chamar?
Eu sou o Índio Guerreiro, o Índio Guerreiro em todo lugar
Eu sou o Índio Guerreiro, o Índio Guerreiro em todo lugar".
Jefter tem 20 anos e aceitou deixar a sua terra para jogar a quinta divisão do Carioca porque tem o sonho de fazer carreira como jogador profissional. Ao mesmo tempo, quer ser um exemplo para o irmão caçula. O Esporte Clube Originários, nesse sentido, é a porta de entrada para ele e outros indígenas se provarem.
"Eles têm muito orgulho de se mostrarem, de ter essa causa defendida", afirma o treinador.
- Aqui a gente vai estar numa competição oficial, profissional e federada, mas também vamos estar levando a cultura de cada um. E a gente quer mostrar isso para o povo. Que esse povo merece respeito, merece apoio e merece ser visto. Nada melhor que o futebol para promover isso. Eles querem mostrar para o Brasil que existem - conclui Huberlan.
Na equipe, uma figura se destaca pelo lado direito do campo. Edílson Karai Mirim atua como ponta-direita, tem Everton Cebolinha, do Flamengo, como inspiração e atrai olhares por jogar com o rosto pintado.
Ele é um dos poucos jogadores do time que vivem entre os Guarani Mbya de Maricá e quer estender seu alcance para além das redes sociais, onde tem um perfil com mais de 50 mil seguidores em que compartilha os costumes e a rotina na aldeia.
- Sempre corri atrás do que eu queria na minha vida, desde criança. Passei por muitas coisas na minha vida durante essa caminhada, mas mesmo assim nunca desisti. Tinha pessoas que olhavam diferente para mim. Falavam "você, indígena, está aqui jogando com a gente. Indígena não usa roupa, você usa roupa" - relata ele.
- Não é porque eu uso roupa, não é porque eu estou jogando no clube que eu vou deixar a minha cultura. A cultura vai sempre permanecer - completa Edílson, que vai se pintar para os jogos da Série C.
Para Anderson Terra, o fato de fundar um clube só com jogadores indígenas em Maricá, a um passo da Região dos Lagos do Rio, é ainda mais significativo. Foi pela área onde hoje ficam situadas as cidades de Cabo Frio, São Pedro da Aldeia e Saquarema que a resistência indígena sofreu sua maior derrota para os colonos portugueses, resultando na morte de aproximadamente 10 mil homens e mulheres nativos em 1575, de acordo com os relatos da época.
Os indígenas sobreviventes do massacre foram escravizados. A "Confederação dos Tamoios", como ficou conhecido o conflito, é apontado como um dos maiores genocídios que se tem registro no país.
- Por isso é tão importante retratar a história nesse momento porque nesse mesmo local, nessa mesma região onde houve o maior massacre da humanidade que guerreiros estão revertendo a história e trazendo alegria no pé, na alma e no coração. Mostrando que eles sobreviveram, resistiram a essa luta e vão conseguir formar um time de 11, de 22 e quantos mais jogadores surgirem - afirma ele.
"Quero um futebol bem jogado"
A cereja do bolo do projeto, a possibilidade que fazia os olhos das pessoas à frente do Originários brilharem, seria jogar no Maracanã no Dia do Orgulho Indígena, comemorado no domingo passado. A ideia era fazer a preliminar do jogo entre Flamengo e Bahia, pelo Brasileirão.
O clube recém-nascido não mediu esforços para que isso fosse possível, já que ver indígenas pisando no gramado do Maracanã no dia mais importante do ano para a causa provocaria o impacto que eles almejavam. Mas o Flamengo não aprovou o plano em nome da preservação da grama. Ao ge, o Fla informou que não realiza jogos preliminares no estádio desde 2007 e lembrou que o Maracanã recentemente recebeu quatro jogos no período de uma semana.
No final das contas, o Originários comemorou a data com um jogo festivo em Maricá e goleou o 9 de Abril, um time amador, por 7 a 0. Seja no Maracanã, no Estádio Municipal João Saldanha ou em qualquer outro campo, o Tupã Nunes tem a mesma convicção:
- Eu quero um futebol bem jogado, um futebol com arte, que há tanto tempo não vejo.
O cacique é um apaixonado pelo futebol da seleção brasileira de 1994, que conquistou o tetra nos Estados Unidos. Pouco tempo atrás foi a um jogo do America e quase tirou foto com Romário, mas a equipe do qual o ex-jogador é presidente sofreu dura derrota, e o registro ficou para outra hora.
O Tupã acredita que é possível fazer um futebol bonito com os indígenas que tem à disposição no seu elenco e projeta o sonho de infância nos seus atletas.
- Nosso depósito foi feito em cada um deles. E eles agora têm a responsabilidade de, não só jogar bem, fazer essa arte, mas mostrar para o mundo como o Brasil é bonito, com todos os povos. Acredito que vamos chegar em lugar bom com os guerreiros - afirma, antes de secar as lágrimas.
- Eu me emociono em falar porque eu não tive essa oportunidade de escolher ser jogador. Minha família precisava resistir no seu território pela invasão, pelo desrespeito, pelo preconceito. Eu tive que escolher desde os 16 anos ser militância do meu povo. E hoje sou cacique - completa.
O líder da aldeia e presidente do Esporte Clube Originários acrescenta que não se arrepende.
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