• Sexta, 24 de Abril de 2026

Prefeitura afirma que ponte no Segredo ainda está em fase inicial

Moradores cobraram alternativas durante audiência pública realizada nesta quinta (23)

GUSTAVO BONOTTO E JUDSON MARINHO / CAMPO GRANDE NEWS


População acompanha audiência pública para discutir futuro de ponte na região do Segredo. (Foto: Judson Marinho)

Audiência pública realizada na noite desta quinta-feira (23), em Campo Grande, escancarou o conflito entre a proposta de construção de uma ponte no Parque Linear do Segredo e a preservação da área reflorestada, situada na região norte de Campo Grande. O encontro ocorreu na Associação de Moradores da Vila Saraiva, no Jardim Seminário, e reuniu moradores, técnicos da prefeitura, MP (Ministério Público) e representantes de projetos ambientais.

No encontro, a prefeitura afirmou que a proposta ainda está em fase inicial e não há definição sobre traçado ou execução da travessia. Segundo a diretora-presidente da Planurb (Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano), Mariana Massud, a ponte surgiu como diretriz dentro de estudos de impacto de vizinhança apresentados por empreendimentos na região.

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“Hoje nós não temos aprovado nenhuma forma de como vai ser essa travessia. Não existe projeto definido', disse. Ela explicou que o processo ainda depende de análise técnica e licenciamento ambiental. “Qualquer intervenção em área de preservação permanente exige autorização e segue etapas. A gente está cumprindo o que a legislação estabelece', afirmou.

Mariana também rebateu críticas sobre possível dano ambiental. “Ouvi que estaríamos cometendo um crime ambiental. Isso não procede. Existe um rito, e nós estamos na fase inicial', declarou. Segundo ela, a necessidade de ligação viária já aparece em instrumentos como o Plano Diretor e o Plano de Mobilidade.

A favor - Os vereadores que participaram da audiência defenderam a revisão da proposta e a busca por alternativas à construção da ponte. O vereador Ronilço Guerreiro (Podemos), autor do pedido da audiência, e outros parlamentares presentes sinalizaram que pretendem discutir, na Câmara Municipal, a adoção de um projeto mais amplo de requalificação do parque como medida compensatória.

A ideia é substituir a obra viária por intervenções voltadas ao lazer, segurança e preservação ambiental. Também houve defesa de que a eventual ligação entre bairros ocorra em outro ponto, fora da área reflorestada, ou por meio de soluções viárias com menor impacto.

Já a Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) defendeu a proposta sob o argumento de melhoria da mobilidade. A diretora-executiva Andrea Figueiredo afirmou que o crescimento populacional aumentou a pressão sobre as vias da região norte.

“Identificamos 4.700 veículos em um período de uma hora e meia em um cruzamento da região. Isso é muito carro para uma via local', disse. Segundo ela, a proposta de interligação busca reduzir deslocamentos longos e distribuir o fluxo. “A ideia é quebrar esse trajeto no meio do bairro e evitar que os veículos percorram vias locais inteiras', explicou.

Andrea destacou que a ligação viária já foi discutida em planos anteriores. “Essa necessidade aparece desde 2009 e foi reafirmada na revisão do Plano Diretor em 2018', afirmou. Apesar disso, reforçou que não há decisão final. “Estamos aqui para discutir como isso pode ser feito', disse.

Contra - Moradores e integrantes do projeto Ecoplantar contestaram a proposta e cobraram alternativas. A dona de casa Eloisa Fernandes, que vive na região há 60 anos, criticou a possibilidade de supressão da vegetação.

“Foi um trabalho de anos para deixar esse parque como está. Não acho que a gente pode derrubar essas árvores', disse. Ela também cobrou melhorias no atendimento ao público. “A gente precisa de ônibus melhor, saúde melhor, não só de obra viária', afirmou.

O secretário-adjunto da Semades (Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável), Ademar Silva Júnior, que também atua no projeto, disse que foi surpreendido com a possibilidade de construção da ponte.

“Estamos há 14 anos trabalhando nesse parque. De repente, fui surpreendido com uma proposta que já aparecia como avançada em estudo apresentado', afirmou. Ele questionou o traçado e a origem da ideia. “A informação que tive é que a ponte não foi solicitada por empreendedor, mas surgiu dentro da própria prefeitura', disse.

Ademar também criticou a ausência de diálogo prévio. “Ninguém da comunidade foi chamado para discutir. Isso precisa ser construído com quem vive a realidade do local', declarou. Segundo ele, o parque já cumpre funções importantes. “Ali não é só um parque. É infraestrutura urbana, que segura água da chuva e reduz alagamentos', afirmou.

Mediação - Conforme noticiado pela reportagem, o MP abriu procedimento para acompanhar o caso. O promotor de Justiça Luiz Antônio Freitas afirmou que o órgão não decide sobre a obra, mas fiscaliza a legalidade.

“O nosso papel é verificar se a decisão está em conformidade com a lei e com a Constituição', disse. Ele explicou que intervenções em área de preservação permanente exigem justificativa. “É preciso comprovar que não há alternativa técnica ou locacional', afirmou.

Segundo o promotor, a investigação ainda está no início. “Solicitamos informações ao Executivo, que ainda está no prazo para responder. Só depois disso teremos uma posição mais consolidada', declarou.

Durante a audiência, a professora Eliane Guaraldo, da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), apresentou estudos acadêmicos para requalificação do parque. Os projetos incluem recuperação ambiental, áreas de lazer e soluções para drenagem.

“O parque faz parte de um corredor de biodiversidade. Ele conecta áreas verdes e ajuda no controle de enchentes e erosão', explicou. Segundo ela, os trabalhos foram desenvolvidos por alunos com base em estudos técnicos. “Não são ideias soltas. Há análise social, ambiental e urbanística', disse.

Até o fechamento desta reportagem, a audiência seguiu com manifestações da população e não houve deliberação final.



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