Coronel Sapucaia
Após 59 anos, pesquisa descobre originais de 1º filme da Capital
Investigação mostra que o longa “Paralelos Trágicos' não foi queimado no incêndio do Cinema Acapulco
NATáLIA OLLIVER / CAMPO GRANDE NEWS
O que parecia lenda de cinéfilo finalmente deixou de ser. Depois de 59 anos “perdido', um dos originais do 1º filme campo-grandense de ficção, “Paralelos Trágicos', foi encontrado. Quem fez o milagre foi o jornalista e escritor Rodrigo Teixeira, através da pesquisa que batizou de “Em Busca do Lendário Paralelos Trágicos'. A investigação reúne 215 matérias publicadas ao longo de seis décadas e coloca um ponto final na narrativa de que o filme dos irmãos Lahdo, que custou R$ 80 milhões, teria desaparecido para sempre.
Além de resgatar a história do longa, ele fez um catálogo digital que serve como base de estudos para quem quiser conhecer parte do cinema feito aqui na época do lançamento do filme, em 1967. Rodrigo conta que o filme não sumiu e que um dos originais dele está preservado na Cinemateca Brasileira desde 1989.
O que ninguém imaginava era que Bernardo Elias Lahdo, produtor e escritor do livro que deu origem ao longa, guardou “segredo' sobre a existência de um segundo material de 16 milímetros. “Nenhum jornal me perguntou e eu nunca desmenti', comentou ao Lado B durante o lançamento do catálogo nesta terça-feira (28). A estreia foi feita no auditório de Arquitetura da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). O material pode ser conferido neste link.
Rodrigo conta que o material existente na Cinemateca apresenta danos significativos na estrutura do filme e que não pode ser reproduzido. Já o de Bernardo precisa passar por estudos para saber se há possibilidade de reprodução. Para quem não lembra, o original do filme de 35 milímetros foi queimado junto com o Cine Acapulco, em 2000. O motivo do incêndio ainda é um mistério. Criminoso ou não, o episódio enterrou a história do filme, pelo menos até antes da pesquisa.
“Eu decidi fazer o catálogo para mostrar a extensão que o filme foi divulgado, os anos em que foi falado na mídia. Foram mais de 200 matérias para rastrear se existia algum rastro desse material. É para tirar as lendas do lugar e colocar a história que o catálogo vem. Mostra que Campo Grande era capaz de fazer um filme audiovisual.
Ele explica que antes a produção local era voltada para temas como natureza e povos indígenas. “Filmes de ficção não existiam, então o Paralelos vem para trazer a cultura moderna, o voo mais urbano e voltado para o ser humano do que a coisa regional. É a primeira ação, digamos, modernista que vai mudar o cenário'.
Paralelos Trágicos foi dirigido pelo irmão de Bernardo, Abboud Lahdo, que também atuou no filme. Ele foi lançado em 13 de janeiro de 1967, no Cine Alhambra. Hoje, aos 81 anos, Bernardo relembra que a première do filme foi a maior noite de autógrafos da história na época.
“Fecharam o trânsito da Rua Barão de Rio Branco até a Afonso Pena. Foram mais de 4 mil pessoas e autografei mais de 2 mil livros. A ideia foi do meu irmão, que dirigiu e atuou. Ele teve a ideia e eu acabei adaptando o livro para o cinema. As adaptações sempre sofrem algumas mudanças. Uma coisa é escrever e outra é mostrar. Na época nós usamos a ideia de ‘uma ideia e uma câmera’. Foi o único filme que foi feito com técnicos e atores de Campo Grande, na época Mato Grosso Uno'.
Ele explica que a montagem e edição do filme tiveram que ser feitas em São Paulo porque em Campo Grande ainda não existiam estúdios para isso. “Entre a filmagem e edição tivemos 1 ano e meio. Tivemos problemas com a censura, consideraram o filme terrorista e pornográfico porque aparecia uma mulher tomando banho e não estava nua totalmente. Nem beijos tinham. O filme custou, na época, uns R$ 80 milhões'.
Para ele, falar de novo sobre a grande obra da sua vida é, além de uma alegria, uma realização. “Resgatar ele é emocionante. Fico arrepiado. O reconhecimento do público mexe com os nossos nervos e neurônios. Só tenho que agradecer'.
A paixão pelo cinema nasceu de incontáveis horas dedicadas a assistir aos clássicos das telinhas e da influência da família. Bernardo chegou a fazer parte de um grupo de estudo de cinema que ficava das 8h às 20h vendo filmes. A ideia do cinema surgiu do meu irmão Abudi, que sempre gostou de cinema. “Ele tem a maior coleção de livros sobre o cinema e eu acabei aprendendo com ele e realizamos. Meu pai era músico, ligado às artes'.
Rodrigo conheceu os Lahdo em 2008, quando era editor no jornal O Estado e, atrás de uma pauta, chegou a fazer uma entrevista com o elenco e produção do longa. “Aí que tive contato. Bernardo não falava sobre e eu, na minha ânsia jornalística, falei que falaria sobre essa história. Criei uma relação com os irmãos'.
Apesar do que muitos acham, Paralelos Trágicos nunca saiu do debate público. Ele foi citado, discutido e lembrado entre 1964 e 2024, com registros em 54 veículos de imprensa de cinco estados e do Distrito Federal.
Trama
Paralelos Trágicos acompanha a vida de Roberto, professor de História que enfrenta uma sequência de perdas. Após a morte da esposa durante o parto da filha, ele entra em colapso psicológico, abandona a filha em um internato e acaba vivendo nas ruas. Antes disso, vive um romance proibido com uma aluna, enfrentando a oposição do pai dela, um homem rico e influente na época. O desfecho é trágico para ambos.
Confira a galeria de imagens:
O filme circulou entre 1967 e 1971 em cidades como São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Brasília (DF) e Campinas (SP). A trilha sonora contou com o maestro paraguaio Hermínio Gimenez, referência na música latino-americana. O diretor francês Claude Lelouch chegou a ser convidado para dirigir o filme, mas acabou não conseguindo por problemas pessoais.
Na época do lançamento, o filme enfrentou censura durante a ditadura militar. Foi classificado como inadequado por cenas consideradas sensíveis, mesmo sem nudez explícita. Ainda assim, teve impacto social. Parte da arrecadação da estreia foi destinada à rede feminina de combate ao câncer, contribuindo para a estrutura inicial do hospital oncológico de Campo Grande.
Acompanhe o Lado B no Instagram @ladobcgoficial, Facebook e X. Tem pauta para sugerir? Mande nas redes sociais ou no Direto das Ruas através do WhatsApp (67) 99669-9563 (chame aqui).
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para entrar na lista VIP do Campo Grande News.
Leia mais

