Coronel Sapucaia
"Não merecem a farda": família de homem morto em abordagem clama por justiça
Testemunhas dão depoimentos emocionados e reconstruíram últimas horas de vida da vítima
ANAHI ZURUTUZA E GABI CENCIARELLI / CAMPO GRANDE NEWS
A primeira audiência de instrução do processo que julga policiais militares pela morte de Rafael da Silva Costa, em 21 de novembro de 2025, foi marcada por depoimentos emocionados, relatos divergentes e a reconstrução, ponto a ponto, das últimas horas de vida da vítima. Ao todo, dez testemunhas de acusação foram ouvidas nesta quarta-feira (6).
A mãe de Rafael, Marines da Silva Costa, chorou durante todo o depoimento ao relembrar o último contato com o filho. “Cedo, às 9h, ele me ligou de vídeo. Depois, me ligaram falando que a polícia tinha matado meu filho', relembra.
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Ela relata o impacto da morte na família, especialmente nos quatro filhos de Rafael. “Eles fazem cartas, agora desenham caixão, desenham o pai sem caminho. Estamos muito abalados', afirmou. Em meio ao choro, completou: “Meu filho foi um bom pai, um bom filho, e isso dói demais, o jeito que foi tirada a vida dele'.
A mãe também descreveu que o filho apresentava episódios de paranoia, mas não era agressivo. “Ele dizia que perseguiam ele, mas só ficava dentro do quarto. Ele pedia ajuda, não atacava ninguém'.
Taiane da Silva Costa, irmã da vítima, aproveitou a visibilidade do caso para clamar por justiça. 'A gente foi em busca da verdade e agora a gente quer Justiça. Rafael era pai, irmão, filho. Pessoa alegre, brincalhão, apelidava todo mundo. Era trabalhador, um irmão excelente, um pai amoroso, presente. Queria que a justiça fosse feita e que eles perdessem a farda, porque eles não merecem essa farda. Trataram meu irmão não só com truculência. Para mim, meu irmão foi torturado', afirmou à imprensa logo após depor.
Durante o interrogatório, na qualidade de informante, afirmou que, ao chegar ao local após a abordagem dos policiais, ouviu de outras pessoas que Rafael havia sido agredido. “Todo mundo fala que ele apanhou muito. Que usaram taser, spray'.
Ela descreveu episódios anteriores de surto, nos quais Rafael pedia ajuda à própria polícia. “Ele achava que tinham pessoas querendo matar ele. Corria para locais públicos para procurar ajuda'.
Em um desses episódios, segundo a irmã, ele foi contido e levado à unidade de saúde, sem agressões. “Não deu nem três dias e ele estava em casa'.
Testemunhas visuais – Uma das testemunhas-chave, a vizinha Sara Vitória Ramão de Farias, afirmou ter presenciado parte da abordagem policial. Segundo ela, Rafael já estava no chão quando os policiais chegaram ao local. “Eu vi os policiais agredindo ele de cassetete, bateram muito nele, e ele pedia ajuda', disse.
A testemunha conta que ligou para o pai da vítima durante a ação: “Falei: ‘vem aqui no mercado, porque estão batendo no seu filho e acho que vão acabar matando ele’'.
Sara relatou ainda dificuldade dos policiais em colocar Rafael na viatura. “Colocaram ele e não conseguiam puxar a perna pra dentro. Ele se debatia pedindo ajuda'. Questionada, afirmou que não viu Rafael agredir os agentes. “Ele estava meio deitado, meio chutando, mas não chutava os policiais'.
Ela também disse ter ouvido xingamentos. “Eu não ouvi ordem, ouvi eles [dupla de militares] xingando. Mandavam colocar a perna pra dentro'.
Funcionários do mercado onde Rafael esteve antes da abordagem disseram que foi ele próprio quem pediu para chamar a PM (Polícia Militar). Um deles relatou: “Ele estava dizendo que queriam matar ele e pediu pra chamar a polícia'.
Segundo o funcionário, Rafael não agrediu ninguém dentro do estabelecimento. “Ele não fez mal a ninguém. Falava normal, só pedia ajuda'.
Outro trabalhador confirmou que o comportamento era de agitação, mas reforçou: “Se ele não tivesse pedido, não ia chamar a polícia'.
Versões sobre a abordagem – Parte das testemunhas afirmou não ter presenciado diretamente a ação policial. A vizinha Bruna Farias disse que soube do ocorrido pela filha. “Minha filha chegou e disse que a polícia estava pegando o Rafael'.
Já o pai da vítima, Edmundo Batista de Oliveira, resumiu o sentimento da família: “A gente chama a polícia para ajudar e não para matar'.
A esposa de Rafael, Katiane Batista de Oliveira, contou que estava trabalhando no momento dos fatos e recebeu uma ligação informando sobre as agressões. “Só me disseram que ele estava apanhando'.
Ela também relatou que, em episódios anteriores, o marido pedia ajuda durante crises. “Ele pedia pra chamar a polícia'.
De acordo com os depoimentos, Rafael foi retirado do mercado sem resistência inicial e conduzido para fora pelos policiais. Parte das testemunhas afirma que as agressões ocorreram já do lado externo, durante a tentativa de colocá-lo na viatura.
A audiência também abordou informações sobre chamadas ao 190 relatando comportamento alterado da vítima, embora familiares tenham dito não ter conhecimento desses registros. Rafael morreu horas depois da abordagem, já em unidade de saúde.
A acusação – De acordo com a denúncia, oferecida pelo promotor Douglas Oldegardo Cavalheiro dos Santos, chefe do Gacep (Grupo de Atuação Especial De Controle Externo da Atividade Policial), por volta das 18h daquela sexta-feira, na Rua Santo Augusto, Bairro Tarsila do Amaral, em Campo Grande, os militares “agindo em dolo eventual assumiram o risco de produzirem o resultado de morte, agrediram fisicamente, mediante de diversas pancadas, asfixia e eletrochoque, a vítima'.
Ele denunciou o terceiro sargento José Laurentino dos Santos Neto e o soldado Vinícius Araújo Soares por homicídio qualificado, por meio cruel, e por recurso que dificultou a defesa da vítima. José Laurentino ainda deve responder por falsidade ideológica.
O promotor ainda destaca que José Laurentino fez declaração falsa ao registrar o boletim de ocorrência na Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) do Cepol (Centro Especializado de Polícia Integrada) “com a finalidade de alterar a verdade sobre o fato juridicamente relevante, fazendo constar que o abordado encontrava-se com as calças abaixadas e que se aproximou da equipe policial adotando postura de resistência'.
O juiz Carlos Alberto Garcete de Almeida recebeu a denúncia em janeiro deste ano.
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