• Sábado, 16 de Maio de 2026

A história do ex-Flamengo que recusou festas de Ronaldinho e foi suspenso por passaporte falso

Wanderley Júnior passou por clubes do Brasil e do Oriente Médio; agora, tenta a carreira de treinador em clube que teve o cantor Gusttavo Lima como investidor

GLOBOESPORTE.COM / GUILHERME XAVIER


Wanderley Júnior ao lado de Ronaldinho Gaúcho no Flamengo — Foto: Reprodução/Redes sociais

"Muito mais do que eu merecia". Foi assim que Wanderley Júnior definiu a sua carreira. A fé sempre o acompanhou, seja nos tempos de Ponte Preta, quando estava dando os primeiros passos nos gramados, ou no momento em que recebeu seu maior desafio: vestir a camisa do Flamengo ao lado de Ronaldinho Gaúcho.

No Moisés Lucarelli, Wanderley jogou com nomes conhecidos no futebol brasileiro, como Renato Cajá, Elias e o goleiro Aranha. O time era tão bom que, em 2008, chegou à final do Campeonato Paulista, sendo derrotado pelo Palmeiras de Valdivia e Diego Souza.

A boa passagem pelo clube de Campinas rendeu um contrato com o Cruzeiro. Na época, a Raposa tinha uma das melhores estruturas do futebol brasileiro e figurava frequentemente na Libertadores, tanto que foi vice-campeã no ano seguinte à chegada de Wanderley.

As oportunidades para o atacante, contudo, foram escassas, por isso ele foi emprestado. Em 2009, vestiu a camisa do Santo André com Marcelinho Carioca. Depois, jogou com Everton Ribeiro no São Caetano e ainda teve passagem pelo Grêmio Prudente até o fim de 2010.

Aos 22 anos, Wanderley já tinha mais de 100 jogos na carreira, com grande experiência na elite do futebol brasileiro, mas não conseguia se firmar em um clube de expressão.

Foi aí que a fé mudou sua vida.

— Uns três meses antes de ir para o Flamengo, eu estava doido para me fixar em algum clube e a minha mulher propôs uma roda de oração, para fazermos todos os dias. Ele preparou o Flamengo com essa proposta — disse.

Parecia coisa do destino mesmo, já que Wanderley assistia vídeos de Ronaldinho Gaúcho para buscar inspiração antes de um novo desafio. Duas semanas depois de fechar acordo com o Flamengo, o ídolo se tornou um companheiro de equipe.

— Assistia muitos vídeos na internet do Ronaldinho Gaúcho para ver o espetáculo que ele sempre deu. Era um time incrível, ele, Thiago Neves, Renato Abreu, David Braz, Maldonado, Rodrigo Alvim, Egídio, Léo Moura, só para citar alguns — relembrou.

Momentos especiais, mas só dentro de campo

No Flamengo, Wanderley disse que viveu o dia mais especial da carreira. Na estreia de Ronaldinho Gaúcho, contra o Nova Iguaçu, no Campeonato Carioca, o atacante marcou o gol da vitória rubro-negra por 1 a 0.

— Eu me lembro que depois cheguei no ônibus, liguei pra minha mulher e para o meu pai falando assim: “Agora estou me sentindo um jogador de verdade' — brincou.

O clube se sagraria campeão daquela edição do estadual de maneira invicta. Tudo corria bem dentro de campo, melhor ainda nos treinamentos, onde Ronaldinho e Thiago Neves exerciam toda a sua magia. Wanderley acompanhava de perto, maravilhado com a velocidade de raciocínio dos craques.

Enquanto deslanchavam dentro de campo, Ronaldinho e Thiago Neves também davam show na noite carioca. As festas eram comuns na rotina do elenco rubro-negro, especialmente na casa de R10. Essa parte, Wanderley não aproveitou.

Não foi por falta de convite, mas a situação envolvia uma escolha para o atacante. Wanderley é casado desde os 18 anos com Alana, considerada uma guerreira pelo ex-jogador. Comprometido, ele não se aventurava com o mesmo afinco dos companheiros, que o respeitavam por isso.

O Oriente Médio e o passaporte falso

Seis meses depois de desembarcar no Rio de Janeiro, o voo da vida de Wanderley teve outro destino. O Al-Arabi, do Catar, fez uma proposta enquanto o atacante brigava pela posição com Deivid, daquelas irrecusáveis financeiramente falando.

A carreira passou pelo Oriente Médio entre 2011 e 2018, mas, em 2016, Wanderley viveu seu momento mais delicado no futebol. Ele foi suspenso por três meses por causa de um passaporte falsificado da Indonésia.

O ocorrido ainda rendeu a eliminação do Al-Nasr nas quartas de final da Champions Asiática, clube que acabara de contratar Wanderley. O atacante estreou com dois gols na vitória por 3 a 0 sobre o El-Jaish, mas, após a comprovação da falsificação do passaporte, o clube dos Emirados Árabes sofreu um "W.O" e não conseguiu reverter o resultado, mesmo jogando em casa.

O episódio rendeu uma história curiosa. Em meio à investigação, a imprensa da Indonésia questionou Alfred Riedl, treinador austríaco que dirigia a seleção local, sobre a razão da ausência de Wanderley na convocação. O ex-jogador lembrou da história com muitas risadas.

— Começaram a ligar desesperadamente para o treinador da Indonésia falando assim: “Tem um tal de Wanderley, você nunca convocou esse cara? Esse cara joga muito, já jogou em grandes clubes no Brasil e você nunca convocou esse cara?' — explicou, antes de completar:

— Ele começou a pesquisar, falou que não conhecia, fizeram até uma entrevista coletiva com ele para explicar essa situação, porque ele não tinha me convocado ainda. E aí foram verificar mais a fundo. E viram que era um passaporte ilegal que fizeram, e por isso gerou todo esse constrangimento.

Wanderley não teve o contrato rescindido pelo Al-Nasr. O clube entendeu que o erro foi de terceiros, não do atleta. A passagem durou mais duas temporadas, totalizando sete gols.

Nova fase

Depois da passagem pelo Oriente Médio, o atacante voltou ao Brasil, onde vestiu as camisas de Ponte Preta, Coritiba e Paranavaí. Esse último foi a passagem derradeira da carreira como jogador, mas, também, iniciou os próximos passos da vida de Wanderley.

William Sander, que foi treinador dele no Paranavaí, o convidou para integrar a comissão técnica a partir de 2024. Wanderley se tornou figurinha carimbada no banco de reservas, atuou nas categorias de base do clube paranaense e, atualmente, comanda o elenco principal.

— Não tinha, a princípio, essa vontade. Acho que a maioria dos atletas, quando está jogando, não quer se envolver com o futebol, principalmente como treinador. Mas aí, na reta final da minha carreira, eu tive uma conversa com um amigo meu chamado Edgar, que é ex-atleta também.

— Nós estávamos batendo um papo, comentando o que vamos fazer, quais serão os nossos próximos passos, e ele falou: “Wanderley, nós temos que ficar no futebol. Por quê? No futebol nós já temos experiência, nós já passamos por muitas situações, então o ideal é que nós ficássemos e participássemos ainda de uma certa forma do futebol'. Fez sentido, até porque nós sairíamos na frente de muitas pessoas pela nossa experiência e vivência.

O Paranavaí é uma SAF e já teve o cantor Gusttavo Lima, um dos principais nomes do sertanejo brasileiro, como investidor. Em fevereiro de 2024, "o Embaixador" adquiriu 60% das ações do clube e prometeu um projeto ambicioso até a elite do futebol brasileiro.

O objetivo atual, contudo, é o acesso para a primeira divisão do Campeonato Paranaense. A missão está próxima de ser cumprida: após campanha de altos e baixos, o Paranavaí atingiu a semifinal da segunda divisão do estadual e, se vencer a eliminatória contra o Patriotas, sobe.

O jogo de ida da série eliminatória será neste sábado, às 15h30, com mando do Paranavaí. Com a mesma fé e superação que o acompanharam ao longo de toda a carreira, Wanderley tenta escrever mais um capítulo na sua relação com o futebol.



Ao utilizar nossos serviços, você aceita a política de monitoramento de cookies.
Para mais informações, consulte nossa política de cookies.