• Sexta, 22 de Maio de 2026

Raio-x da base: Flamengo e Palmeiras recebem jovens de todas as regiões do país em reflexo de protagonismo

Relatórios inéditos mostram que, juntos, rivais só não atingem dois estados brasileiros. Clubes têm trabalho quase invisível para acolhimento e dados mostram dependência da família de jovens

GLOBOESPORTE.COM / RAPHAEL ZARKO


Naturaliadde de jogadores da base de Flamengo e Palmeiras espalhados pelo país — Foto: Relatórios dos clubes

Protagonistas do futebol brasileiro há quase uma década, Flamengo e Palmeiras se enfrentam neste sábado no Maracanã, às 21h, na disputa direta pela liderança no Brasileirão. O trabalho mais visível da ponta da tabela passa também por outro, quase imperceptível para o grande público.

Relatórios inéditos do fim do ano passado aos quais o ge teve acesso mostram que, até saírem Vini Jrs, Estevãos, Paquetás e Endricks, Flamengo e Palmeiras vivem processo longo na formação desses jovens. O alcance da dupla protagonista também na base – os cariocas venceram as últimas duas Libertadores sub-20, e os paulistas têm três conquistas do Brasileiro da categoria em quatro edições - é tão grande que vai até 24 estados da federação brasileira.

Um resumo dos dados:

A base do Flamengo só não tem atletas de Mato Grosso, Sergipe, Roraima, Amazonas, Acre e Amapá. São 20 estados e o Distrito Federal representados. Além de jogadores de quatro nacionalidades distintas (Espanha, Croácia, sendo esses casos os filhos do ex-meia Diego Ribas e do ex-atacante Eduardo Silva) , mais Senegal e Indonésia, dois meninos de 12 anos)

No caso do Palmeiras, o alcance é ainda maior, com presença em 23 estados brasileiros e no Distrito Federal. O Alviverde não tem meninos e garotos nascidos em Acre, Rondônia e Amapá, todos da região Norte.Entre os estrangeiros, os palmeirenses contam com quatro atletas: um da Alemanha, um de Mali, outro do Paraguai e a mais nova atração palmeirense, o zagueiro Koné, nascido na Costa do Marfim. Ele tem feito treinos no profissional e foi relacionado para jogo da Libertadores .

Vulnerabilidade

Com equipes que contemplam assistentes sociais, pedagogos, inspetores e outras profissões, as duas bases acolhem meninos - o Palmeiras em alojamentos para 76 atletas - a partir dos 14 anos - vínculo federativo é permitido a partir dos 12 - e iniciam a formação do futuro atleta e cidadão. Porque, no fim das contas, a carreira no futebol profissional é incerta, e poucos atingem de fato carreiras de sucesso.

Em São Paulo, o Palmeiras chama de “vulnerabilidade social', índice criado para monitorar os cuidados com seus garotos. São oito indicadores que passam por questões de habitação, educação, migração e questões familiares – veja o quadro abaixo – e têm por princípio pilares de “acolher, conhecer e intervir', um mantra no departamento socioeducacional do clube paulista.

— Por exemplo, como é a habitação na cidade de origem? Ele possui casa própria, a casa é alugada? Ele está morando numa casa alugada aqui e já não aluga mais a casa que ele residia lá na região? Isso trouxe impacto? Se você tem uma habitação que era própria e agora você está alugando, passa a ter uma possibilidade de aumento de uma vulnerabilidade social. No aluguel, a qualquer momento o proprietário pode pedir essa casa e você vai ter que procurar outra casa nem sempre na mesma região, nem no mesmo valor — explica Fernando Truyts, coordenador socioeducacional do Palmeiras e que antes trabalhou no Flamengo, no Santos e na CBF.

Dentro da avaliação, o clube considera outros fatores que diminuem a vulnerabilidade desses meninos, como o próprio salário para aqueles que completaram 16 anos, mas também bolsa para colégios particulares (65% dos atletas de base do Palmeiras estudam em colégios pagos), ajuda de custo de agentes e empresários ou algum auxílio para moradia.

O relatório palmeirense abrange jogadores dos 9 aos 20 anos. O departamento promove ao longo do ano diversas atividades fora do ambiente do futebol, como em visita a espaços culturais - recentemente os garotos foram ao Museu Afro Brasilerio e ao Museu da Migração - e também a redações de imprensa para se ambientarem num local que pode significar parte do seu futuro.

O clube marca em cima da educação nos colégios em que estão matriculados e observa dois dados relevantes:

20% dos jogadores do sub-20 interromperam os estudos em meio à dedicação ao futebol10% possuem atraso escolar

— Esses dados estão muito relacionado aos atletas que já ingressam nas nossas categorias maiores, com o processo educacional interrompido. Nós orientamos esse jovem sobre a importância dos estudos porque a educação é parâmetro para tudo. Nós pensamos em criar atletas críticos, atletas que tenham conhecimento para tomar boas decisões não só dentro de campo, mas principalmente fora de campo, em relação à vida dele.

— Costumam dizer que "tem que ter o plano B". Não pode ser o plano B, na verdade a educação tem que ser o plano A e caminhar lado a lado com o futebol. Então, a gente faz todas essas reflexões — explica o coordenador palmeirense.

No Fla, 64% contribuem com a renda familiar

O Flamengo tem na média 52% dos jogadores entre 7 e 17 anos em escolas particulares – o relatório anual do Departamento de Desenvolvimento Humano não contempla a faixa de 18 aos 20 anos e registrava total de 289 "atletas ativos". Há sete casos do chamado "atraso escolar ou distorção de idade-série" entre 12 e 17 anos.

Há detalhes da vida dos pais em indicadores assinalados ao longo de 60 páginas de relatório em casos que são reflexo também da sociedade brasileira.

10,20% dos garotos de 7 aos 10 anos moram apenas com a mãe; 23,80% dos 15 aos 17 anos moram apenas com a mãe;Das faixas analisadas (7 a 10, 11 a 14 e 15 a 17 anos), índico máximo de 54% dos pais que concluíram Ensino Médio. Com escolaridade sempre maior da mãe do que do pai;72% dos atletas do sub-17 concluíram o Ensino Médio, o maior índice em três anos, segundo o relatório do Flamengo;10,3% dos pais estão desempregados na faixa de 11 aos 14 anos e 41,4% recebem até dois salários mínimos;Um dado ainda mais relevante mostra que 64% dos garotos de 15 aos 17 anos contribuem na renda familiar. O Flamengo informa ainda que "somente 4% dos atletas das categorias de base possuem distorção idade/série"

Procurado pela reportagem, o Flamengo não concedeu entrevista, mas enviou respostas por escrito. A coordenadora do departamento de desenvolvimento humano do clube, Patricia Negreiros, lembra que os dados de moradia de atletas partem do processo migratório típico das categorias de base.

— Quando um atleta chega ao clube vindo de outro estado, a família precisa se reorganizar. Essa nova realidade torna visível a divisão de papéis de gênero construída pela sociedade brasileira: ao homem cabe prover, à mulher, o cuidado. Historicamente é a mulher quem cuida dos filhos, quem os leva ao médico, à reunião escolar e se responsabiliza pela alimentação e por toda a rotina. O ingresso do atleta para a categoria de base de um clube não muda essa relação. O futebol de base não cria esse padrão. Ele é o reflexo da sociedade, que sempre tratou o cuidado como obrigação feminina — explica a dirigente do Flamengo.

Patricia afirma ainda que "mesmo assim, em grande parte desses cenários de migração, a mãe não apenas cuida, ela também provê." Ela cita as diversas variáveis do futebol, como mães que acompanham filho por escolha "porque não abrem mão de estar por perto" ou simplesmente porque estavam desempregadas e ficam encarregadas com a mudança e até mesmo aquelas separadas dos pais dos filho ou ainda as mães solo.

— Existem casos nos quais uma figura envia renda como complemento. Em outros, é a mãe solo que trabalha, paga as contas. Os dados apontam o papel consolidado da mãe como cuidadora — comenta Patricia. — Os caminhos são diferentes, mas levam ao mesmo lugar, ao lado do filho, dando conta da rotina.

Em comum entre Flamengo e Palmeiras, está a presença mais tímida em regiões mais afastadas — numa proporção que pode ser comparada à Seleção convocada em 2026, que tem mais da metade da região Sudeste e apenas um (o goleiro Weverton, nascido no Acre) do Norte. Mas o Rubro-Negro tem aumentado esse "déficit" nas categorias mais próximas do sub-20. Repare acima como quase 10% vêm da região Norte. O Palmeiras tem maior alcance no Nordeste, por sua vez.

Uma das atraçãos mais recentes, inclusive, vem do norte do país. No mês passado, o Flamengo comprou por R$ 3 milhões do Paysandu o meia Pedro Henrique, de 18 anos. Ele assinou por três temporadas, mas continua no clube paraense até o fim da Série C do Brasileiro.

— Um dos principais motivos pelos quais temos poucos atletas do Norte na base é a baixa quantidade de jogos e competições na região, especialmente nas categorias menores. Dessa forma, o nível de enfrentamento tende a ser inferior quando comparado a outras regiões do país — explica Ricardo Perlingeiro, gerente de scout e de mercado do Flamengo.

O dirigente rubro-negro comenta que é um dos principais objetivos qualificar e aumentar ainda mais o processo de monitoramento não só na região Norte, mas também no Nordeste. O clube tem hoje parcerias com quatro clubes: Tolentino, da Bahia, Centro Esportivo Wilson Goiano, de Goiás, Inter de Minas (MG) e Azuriz, do Paraná.

Cestas básicas

Os dois clubes planejam aumentar a presença em outras áreas do país com participação mais ativa dos pais, mesmo nos casos de maiores distâncias, e também reforços em alimentação tanto para os garotos quanto para as famílias - é corriqueira a distribuição de cestas básicas. Num país em que a desigualdade é notada em tantas medidas, o futebol é apenas mais um retrato brasileiro.

Fernando Truyts, do Palmeiras, lembra que o departamento de base avalia qual ação tomar para buscar o conforto do garoto e da família.

— A gente pode proporcionar cesta básica, por exemplo, ou um "kit lanche" reforçado para esse adolescente para que ele possa tomar um café da tarde mais reforçado, além do do que ele já toma no clube. Ou na possibilidade de aumento de ajuda de custo quando percebemos que a questão está interferindo na vida do menindo — explica Fernando Truyts, do Palmeiras.

— A entrega de cestas básicas não se limita apenas em “dar alimento'. É uma ação de apoio emergencial para famílias em situação de vulnerabilidade social e insegurança alimentar e tem objetivo mais amplo, de potencializar essas famílias por meio de um acompanhamento social próximo e contínuo — observa Patricia Negreiros, do Flamengo.



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