• Sexta, 29 de Maio de 2026

Socorrista de Michael Schumacher detalha resgate: "Pensei que fosse brincadeira"

Piloto que atendeu o heptacampeão nos alpes franceses e médicos envolvidos no caso do ídolo da F1 relataram operação de sigilo e tratamento do ex-piloto, após acidente de esqui em 2013

GLOBOESPORTE.COM / REDAçãO GE


Michael Schumacher comemora o heptacampeonato conquistado no GP da Bélgica de 2004 — Foto: Mark Thompson/Getty Images

Passados 13 anos do grave acidente sofrido por Michael Schumacher enquanto esquiava na França, detalhes da operação de resgate e atendimento ao heptacampeão em um hospital da região foram revelados ao público. Os esforços envolveram não apenas o tratamento do piloto, mas o acolhimento à família e amigos e também a privacidade de ambos.

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Uma das fontes ouvidas pelo jornal francês L'Equipe também revelou que os ex-F1 Felipe Massa, Gerhard Berger e Luca Badoer eram os únicos autorizados a visitar Schumacher. Olivier Panis, porém, foi barrado pela família do alemão.. Entre os entrevistados estão o piloto do helicóptero que socorreu o heptacampeão, e vários funcionários do Hospital Universitário de Grenoble, onde ele foi atendido.

Os detalhes do resgate a Schumacher foram descritos por Yannick Dainese, que pilotava o helicóptero para salvamentos em Meribel, na França, região em que o heptacampeão se acidentou. Dainese revelou que havia uma equipe de reportagem acompanhando o dia a dia dos socorristas e que, por isso, eles estavam paramentados com câmeras e microfones quando foram ao local do acidente:

- Um dos socorristas pulou para dentro do helicóptero com o médico da equipe de emergência e me disse: "Estamos indo até Schumacher!". Pensei que ele estivesse brincando, mas quando o comandante nos ordenou que removêssemos nossos microfones e câmeras GoPro e proibiu jornalistas de nos acompanharem, percebi que era verdade. Não fazemos perguntas, não conversamos uns com os outros. Cada um se isola na sua própria bolha. O importante é se desapegar de todas as emoções para se manter no auge do desempenho - disse o piloto, acrescentando:

- Infelizmente, a montanha cobra muitas dívidas dos esquiadores. Para mim, ele era apenas mais um esquiador gravemente ferido. Subconscientemente, claro, a pressão existia, porque, mesmo não sendo fã de Fórmula 1, eu sabia que ele era idolatrado como um deus. Ainda é impressionante ver uma celebridade como ele confinada em uma maca. Não quis falar com a imprensa antes para evitar problemas.

Schumacher foi levado para o Hospital Universitário de Grenoble, cidade próxima de Meribel, em uma viagem de 25 minutos. Para o seu atendimento, foram acionados a diretora Jacqueline Hubert; o chefe de anestesiologia e terapia intensiva Jean-François Payen; o neurocirurgião Stephan Chabardes e o chefe do departamento de neurocirurgia Emmanuel Gay.

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Segundo o L'Equipe, o heptacampeão da F1 deu entrada com quadro de hipertensão intracraniana, hematomas e contusões cerebrais e um edema cerebral difuso. Ele foi colocado sob coma induzido e seu corpo foi resfriado de forma controlada para proteger órgãos vitais e minimizar lesões do cérebro.

Ele também teria apresentado uma fratura craniana com afundamento e, na primeira cirurgia de emergência à qual foi submetido, passou por um procedimento para reduzir a pressão do crânio na qual foram observadas lesões hemorrágicas bilaterais difusas que não se limitavam à região do impacto.

No decorrer dos meses, Schumi foi acompanhado diariamente pela esposa, Corinna. Ela chegava à unidade pela manhã por uma entrada privada e se hospedou, nos primeiros dias, em um leito comum. Ao longo das semanas, a ex-vendedora e empresária passou a fazer viagens diárias da casa da família em Gland, na Suíça, até o hospital na França, um trajeto de cerca de 174 km.

Os dois filhos do casal, o piloto Mick e amazona Gina, permaneceram na unidade, bem como o pai e o irmão do alemão, Ralf. A família contou, ainda, com o suporte do chefe de neurocirurgia dos Hospitais Universitários de Genebra, Karl Schaller, e de Jean Todt, amigo próximo e ex-chefe da Ferrari na F1. Foi Todt que conduziu, por exemplo, a transferência do piloto para Lausanne, na Suíça, no ano seguinte.

- Eu havia operado meu primeiro paciente às 8h da manhã e, como sairia de férias no dia seguinte, pretendia continuar normalmente. Por volta das 13h, um residente me disse: "Professor, o Michael está na tomografia computadorizada". Na época, eu tinha outro residente chamado Michael. O residente desceu as escadas e me disse que o pobre homem provavelmente havia quebrado alguma coisa. Assim que cheguei lá embaixo, senti uma agitação incomum no ar - detalhou Stephan Chabardes, primeiro neurocirurgião a atender Schumacher na França, adicionando:

- Quando me aproximei do paciente ainda vestido com seu traje de esqui, reconheci Michael Schumacher. Naquele momento, pensei: "Meu Deus, este dia vai ficar complicado". Durante o procedimento, pude ver que a situação era grave. Mas foi na tomografia computadorizada pós-operatória que percebi que as coisas eram extremamente críticas.

Os esforços de segurança precisaram ser intensificados: Schumacher teve que ser atendido sob o pseudônimo Jéremie Martin após uma equipe de enfermagem tentar suas tomografias; os prontuários foram guardados em um cofre, e a equipe responsável pelos cuidados do alemão foi restrita a 50 pessoas - neurocirurgiões, anestesistas, enfermeiros, cuidadores, radiologistas e biólogos.

- Eu tinha apenas uma vaga ideia de que Schumacher era piloto. Após a ligação, meu filho exclamou: '"Mãe, ele é um deus vivo!". Imediatamente entendi que seria extremamente difícil. O estacionamento estava lotado de caminhões de transmissão via satélite. Ninguém imaginava aquela multidão. Foi então que entendi o que meu filho queria dizer com 'deus vivo'. Estávamos completamente despreparados para um acontecimento daquela magnitude. Meu lema era ser humana sem interromper o funcionamento do hospital - detalhou Jacqueline Hubert, diretora do Hospital de Grenoble.

Schumi permaneceu em um leito de UTI compartilhado com outros dois pacientes sob forte vigilância. Enquanto a cobertura jornalística no hospital crescia, fotógrafos tentaram a usar uma lente teleobjetiva para tentar obter imagens do quarto a partir de uma colina, e funcionários foram alvo de tentativas de suborno: jornalistas tentaram obter jalecos para acessar a clínica e um deles até se disfarçou de padre.

- Havíamos discutido tudo extensivamente com a família para determinar exatamente o que podíamos e o que não podíamos dizer. Estávamos lendo nossas anotações. O mais horrível para mim foi que os repórteres estavam nos esperando do lado de fora para fazer todo tipo de pergunta - detalhou Emmanuel Gay, neurocirurgião responsável pela segunda cirurgia de Schumacher.

O heptacampeão passou seu aniversário de 45 anos, em 3 de janeiro de 2014, no hospital enquanto ainda estava sob coma induzido. Do lado de fora do hospital, porém, uma grande caravana de torcedores da Ferrari homenagearam o ex-piloto.

Segundo a diretora Jacqueline Hubert, a iniciativa teria sido da própria Ferrari, com a qual Schumi ganhou cinco de seus sete títulos Mundiais.

- Alguns dias depois do acidente, voltei ao hospital para deixar outra pessoa ferida. A cena me impressionou: havia tantos ônibus, bandeiras vermelhas e pessoas por toda parte que o pátio do hospital havia se transformado em um circuito de Fórmula 1. Era monstruoso! - detalhou o piloto do helicóptero que prestou os primeiros socorros a Schumacher, no dia do acidente.

Apesar das oscilações no estado de saúde de Schumacher, o que causou "intenso desânimo" na equipe representada pelo anestesista Jean-François Payen e que exigiu "inúmeros procedimentos de emergência", o heptacampeão foi retirado do coma induzido em junho de 2014.

Ele deixou o hospital na noite do dia 15 para 16 do mesmo mês, em uma operação conduzida por Jean Todt e a equipe do Hospital de Grenoble; de lá, seguiu para Vaud, em Lausanne, onde permaneceu por três meses até ser transferido para sua casa na Suíça.

Porém, a família do ex-piloto teve que lidar com outra crise: o prontuário enviado por Payen para a equipe médica foi roubado por um diretor da Rega, empresa especializada em resgates e subsidiária da companhia aérea SwissAir.

Os documentos teriam sido oferecidos pela imprensa por cerca de 50 mil euros (hoje, cerca de R$ 296 mil), mas a família de Schumacher e o hospital de Grenoble acionaram a polícia; o responsável foi preso após uma investigação que envolveu até a Interpol e especialistas dos Estados Unidos. Semanas depois, o suspeito foi encontrado morto na prisão em Zurique, na Suíça.

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Desde então, Schumacher se recupera sob completo sigilo das sequelas de lesões cerebrais consequentes do traumatismo. Um dos poucos com acesso à casa do heptacampeão é o anestesista de Grenoble, Payen, e Jean Todt.



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