Esportes
Camisa de Pelé na final da Copa de 1958 salvou museu em Alagoas e vai a leilão por R$ 30 milhões
Estimativa é que a peça seja arrematada neste ano por mais de 6 milhões de dólares. Museu não receberá nenhuma quantia com venda
GLOBOESPORTE.COM / REDAçãO DO GE
A camisa usada por Pelé na final da Copa de 1958 será leiloada pela Sotheby's por um valor estimado em mais de 6 milhões de dólares.
Doada pela família do ex-jogador Dida, a peça histórica foi vendida em 2004 por 105 mil dólares para salvar o Museu dos Esportes de Maceió da falência.
O museu alagoano não receberá nenhuma quantia com a nova venda.
Na decisão de 1958, o Brasil goleou a Suécia por 5 a 2 usando o uniforme azul improvisado, comprado às pressas pelo chefe da delegação brasileira.
A camisa que Pelé usou na final da Copa de 1958 voltou a ganhar nesta terça-feira destaque internacional. Leiloada em 2004 para salvar o Museu dos Esportes de Maceió, a peça vai ser leiloada neste mês pelo comprador daquela época, com valor estimado em mais de 6 milhões de dólares, aproximadamente R$ 30 milhões.
A casa de leilões Sotheby's foi procurada pelo comprador particular, que não divulgou a identidade, e anunciou que o novo leilão será realizado entre 29 de junho e 16 de julho, em Nova York, durante a Copa.
Camisa no museu de Alagoas
A camisa de Pelé chegou a Alagoas por intermédio de Dida (Edvaldo Alves Santa Rosa), reserva do rei na Copa do Mundo de 1958, na Suécia.
Em 1993, quando o museu com o nome do craque alagoano foi inaugurado justamente no Estádio Rei Pelé, em Maceió, o irmão de Dida, Edson Santa Rosa, doou a peça, que ficou em exposição até 2003, atraindo a atenção dos turistas e frequentadores do estádio. Era a joia da coroa.
Em 2019, o então diretor do Museu dos Esportes, Lauthenay Perdigão, falecido em 2021, quebrou um longo silêncio sobre o assunto e contou ao ge como foi a história.
— Essa camisa estava com o Edson. O Dida, quando veio, deixou a camisa com o irmão. Quando ele (Dida) chegou a Maceió, a gente conversou sobre a camisa, aí ele disse: ''Leve essa camisa para o museu''. E o Edson concordou. Quando eu tive a ideia de colocar a camisa em leilão, eu fui direto no Edson e expliquei a situação do museu para ele e que a solução seria leiloar a camisa. Falei: "Já que a camisa estava com você e foi por você que ela chegou até mim, eu te dou 50% da venda''.
Segundo Lathenay, a camisa foi arrematada no leilão da Christie's em 2004 por 59 mil libras (105,6 mil dólares, aproximadamente R$ 300 mil na época e R$ 527 mil atualmente). Ele achou o valor muito baixo.
– O museu vivia uma terrível crise financeira. Paredes mofadas, goteiras e o risco de perder todo o acervo. Eram muitos problemas e, infelizmente, tivemos que colocar a camisa em leilão. Mas fui pego de surpresa e tive que pagar o imposto de renda. Foram R$ 36 mil. Tive que pagar advogado para resolver a questão do imposto de renda, paguei outro advogado para resolver o negócio com a Christie's. Tive que pagar o dinheiro do Edson, irmão do Dida... – explicou Lathenay, que, com os recursos, manteve o museu aberto com menos de R$ 60 mil.
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— Eu tinha prometido a ele a metade do dinheiro recebido. No fim, sobraram R$ 52 mil. Fiz reforma, deu para comprar cadeiras para o auditório, deu para comprar móveis que os cupins haviam estragado... Deu para endireitar uma infiltração, que estava prejudicando, e até comprar uma máquina fotográfica. Todo o material para melhorar o museu.
Edson Santa Rosa, falecido neste ano, disse em 2019 ao ge que foi difícil desapegar da camisa histórica. Era de Pelé, depois foi do irmão Dida e também de seu pai. O peso era grande.
— Foi um presente e se tornou uma memória... Como Dida recebeu em um momento especial, era algo importante. Foi muito bem cuidada e ficou um tempo com a nossa família, e também foi bem cuidada no museu, passando um bom tempo exposta. A possibilidade do leilão foi em uma emergência — lembrou o irmão de Dida, que entendeu o pedido de Lauthenay.
— Quem tomava conta da camisa era o meu pai, que recebeu de presente do Dida. Após o seu falecimento, na iminência de perder a camisa, resolvemos doar ao museu. Sabíamos como era mantido o museu, que também passou por uma série de dificuldades de ordem técnica (estrutura), de vazamento e outros... Então, para ajudar o museu, resolvemos presentear.
Arrependimento
Neta de Lauthenay, Marcela Acioli hoje é responsável pelo museu em Maceió e disse nesta terça que a família não vai receber nenhum centavo pelo novo leilão.
— O museu não ganha mais com o novo leilão. Na época, ela foi vendida para salvar o museu, que estava passando por inúmeros problemas e corria sérios riscos de fechar. Uma das coisas que meu avô mais falava era do arrependimento de ter leiloado. A sensação de saber que essa preciosidade já fez parte do nosso acervo é de extremo orgulho, porque só engrandece o nosso museu. Porém, é inevitável não ter esse sentimento de frustração por não ter conseguido outra forma para resolver o problema e a venda dela ter sido a única forma (à época) encontrada. Ele fez o que podia ser feito, sabe? Temos certeza disso. Mas perdemos, talvez, a nossa maior peça. E quando falo nós, não falo o museu. Falo dos alagoanos, dos brasileiros.
Ao anunciar o leilão de 2026, a Sotheby's destacou que a autenticidade da camisa de Pelé de 1958 foi comprovada por campeões mundiais em Maceió.
— Foi atestada por quatro membros da seleção campeã da Copa do Mundo de 1958. Além do próprio Dida, outros três campeões confirmaram a procedência da camisa número dez: Nilton Santos, Orlando Peçanha e Mário Zagallo, todos os quais visitaram o museu e autenticaram a peça. A camisa foi posteriormente oferecida em leilão público em setembro de 2004, na Christie's, ocasião em que toda a sua história foi documentada formalmente por escrito pelo então proprietário. A camisa não é exibida ao público há mais de duas décadas.
O peso da camisa 10
Na final de 1958, Pelé marcou dois gols e foi o destaque da goleada por 5 a 2 sobre a Suécia, na final da Copa. O rei tinha apenas 17 anos e a camisa 10, azul, virou um dos maiores símbolos do futebol.
Como a Suécia era a anfitriã da Copa, teve preferência na escolha pela cor da camisa na decisão. A deles era também amarela. Às pressas, Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação brasileira, comprou camisas azuis em Estocolmo e pediu que fossem costurados os números dos atletas e os escudos da CBD. O resto virou história.
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