• Quarta, 03 de Junho de 2026

Do fórum à delegacia, Carlos Leite revela bastidores da vida de agente: "Não sou banco nem agiota"

Empresário conta que teve crise de pânico, revela relações e problemas no Vasco e no Corinthians e considera que pai de Gerson errou em condução de saída: "Passa um pouquinho do ponto"

GLOBOESPORTE.COM / RAPHAEL ZARKO E RONALD LINCOLN


Carlos Leite no Abre Aspas — Foto: André Durão

Aos 55 anos, Carlos Leite hoje aproveita mais os três filhos e a mulher Patricia do que em outros tempos. Foi agente de treinador e de jogadores de Seleção. Exercia influência nos principais clubes do país. Em outra escala, tudo segue parecido nesse ex-dono de lojas de pneus de família portuguesa do ramo de mercados alimentícios.

Uma crise de pânico o acometeu durante três anos e fez o agente pisar no freio e procurar ajuda profissional. Numa entrevista de quase duas horas, Carlos Leite conta bastidores do mundo do futebol, que vão das relações difíceis entre agentes até as relações bem próximas com dirigentes polêmicos.

Sem deixar de reconhecer que os tempos mudaram e que, hoje, são Flamengo e Palmeiras que fazem brilhar os olhos de atletas e, claro, também de intermediários nesta relação.

Ficha Técnica:

Nome: Carlos Alberto Cardoso LeiteIdade: 55 anosProfissão: agente Fifa no futebol Alguns jogadores agenciados: Paulinho (Palmeiras), Gabriel Sara (Galatasaray), João Gomes (Wolverhampton), André (Wolverhampton), Anderson Talisca (Fenerbahçe). Principais transferências: Lucas Leiva (para o Liverpool), Douglas Luiz (Manchester City), Talisca (Benfica), Renato Augusto (China), Paulinho (Bayer Leverkusen), João Gomes e André (Wolverhampton), Gerson (Flamengo e Zenit), Cássio (Corinthians e Cruzeiro), Mano Menezes (Seleção), Fágner (Wolfsburg), Léo Lima (Porto).

Como foi o início dessa trajetória no futebol?

— A minha carreira no trabalho começou na própria empresa do meu pai e da família, que são do Supermercado Mundial. Trabalhei durante dez anos. Dos 14 aos 24. Com 24 anos, a gente montou a loja de pneus, e fiquei com três lojas num período de cinco ou seis anos. Nessas lojas eu acabei conhecendo aquele cliente de loja o Léo Lima e ficou meu amigo. Dali que a gente começou uma relação de amizade, e um dia, o convidei para almoçar na minha casa. Aquela relação de torcedor mesmo. Como ele começou a frequentar a loja, começamos a ter a relação de amizade. Jogava no clube que eu torcia.

— Convidei para almoçar um dia na minha casa. Uma hora, toca o telefone dele, ele atende o telefone, começa a conversar com a pessoa. Daqui a pouco, ele: "só um minutinho, fala aqui com o meu empresário.' Falei: “cara, você está louco'. Ele: “fala, fala, fala'. Peguei o telefone, comecei a conversar sem saber o que eu ia falar, na verdade. Não tinha nenhum tipo de contato com esse mundo. Mas conversei ali na hora, e marcamos uma reunião. Desliguei o telefone, falei: “cara, você está louco, cara. Não tem nada a ver com isso, não é meu mundo.' Ele: “eu queria que você passasse a me representar. Eu tenho uma passagem de algumas negociações que não foram boas, não foram legais para mim e eu tenho uma confiança em você. Gostaria que você, a partir de agora, fosse meu agente'. Aquilo despertou, e fui entender que é esse mundo.

Você percebeu que o futebol poderia ser atrativo logo?

— Na verdade, no início eu continuei com o meu negócio que eu tinha e fui estudando e querendo entender o funcionamento. Aí me aprofundando, conversei bastante com o falecido Rodrigo Pitta, filho do Reinaldo, querendo entender essa dinâmica do futebol. Quando eu realmente entendi que aquilo ali poderia se tornar um grande negócio. Até que eu vi que não dava para tocar e fazer bem feito. Então eu resolvi vender a minha rede, as três lojas que eu tinha e partir com tudo para dentro do futebol, já vislumbrando realmente um retorno financeiro dentro da profissão.

Como foi a reação da família?

— No início ali: “você tá louco'. Quando eu falei que eu ia vender as lojas, inclusive amigos e muita gente realmente achando que eu estava tomando uma atitude errada. Mas no momento eu já era casado, então minha esposa foi fundamental também. Eu já com uma filha, eu tive que trocar essa ideia com ela e dizer: “olha, vai ser uma coisa nova e eu vou precisar me ausentar do meu dia a dia que eu tenho aqui hoje'. Então eu tinha uma vida muito regrada, com horário, com tudo no final de semana e daqui a pouco a vida mudou de cabeça para baixo. Ficou uma loucura e ela me apoiou em todos os momentos e acho que isso foi fundamental para o meu crescimento.

Você tinha o Léo Lima, mas logo teve outros jogadores?

— Eu fiquei com o Léo Lima e comecei a olhar os jogadores do próprio Vasco e, coincidentemente, quando ele é vendido, uma semana depois, o Souza (Caveirão, atacante) acaba também sendo vendido e para o mesmo clube na Bulgária, o CSKA. Ele estava sem agente. Então ele me procurou e falou: “Carlos, eu falei com o Léo e tal, você pode me ajudar nessa ida para lá. Falei: 'Pô, lógico!' E dali acabei pegando também o Souza". E começamos a olhar a base.

— Pode parecer que não, porque todo mundo fala muito dos agentes, mas também é um trabalho social, porque o que a gente desenvolve com os jogadores ainda não é percebido. Então você tem que pegar uma família muitas vezes despreparada, morando em comunidades, sem ter o mínimo. Então você tem que ir trabalhando tudo isso. Aí você tira de uma comunidade, você tem que pagar um aluguel para ele ficar em um lugar melhor. Você tem que muitas vezes acabar ensinando. Hoje eu não faço mais isso porque eu não tenho mais tempo, mas no início eu fazia bastante.

— Você tem que ensinar o cara até como comer, como lidar, como falar, chegar nos lugares, dar um bom dia, boa tarde, boa noite. Isso muitas vezes não faz parte da vida deles e a gente fazia bastante isso.

Como lidar com jogadores em deslumbre?

— Por mais que você tentasse mostrar um caminho, cara, são meninos com 20, com 19, com 18 anos que nunca viram um monte de coisa. Com vontade de viver, que nunca tiveram a oportunidade de ter um monte de facilidade e você querendo mostrar para o cara: “Você tem que ser assim, você tem que ir nessa linha.' Era muito difícil até você entender que tem que ser realmente aos poucos. É mais forte para eles, e a gente compreende essa dificuldade. O cara nunca teve nada e de repente cai o mundo para ele, as facilidades, os amigos com tapinhas nas costas. Só o tempo que vai fazer o amadurecimento deles e eles entenderem isso.

Já viveu situações inusitadas para ajudar jogadores?

— Já tiramos de algumas enrascadas. (Por exemplo)... batida de carro. Várias em que você tem que levar alguém ali para poder resolver ou briga com namorada. São inúmeros casos. Eu acho que (era comum) mais antigamente. Hoje mudou muito. Acho que o telefone celular veio para dar uma acalmada em tudo isso, porque hoje tem que ter uma preocupação muito maior. A qualquer momento estão fotografando, estão filmando. Assim, saí muitas vezes sai de madrugada, 2h (da madrugada), telefone tocando com problema e tinha que sair para resolver.

As redes sociais são um risco, nesse sentido?

— Cara, a gente tem que se adaptar, então você tem que formar uma equipe que possa estar monitorando tudo isso. Chegou o momento que a gente trouxe o Roger (Ferreira, jornalista e ex-assessor de imprensa) também para começar a entender e coordenar um pouquinho (a gestão de jogadores e redes). Mas até hoje o Roger, pela veia dele jornalística, fica acompanhando todos os meninos aqui. “Cara, por que você botou isso?' Acabou de perder um jogo, e o cara está lá postando, num restaurante, numa festa. Não pode, não pode. Você tem que estar o tempo inteiro ali falando.

A sua empresa começou com o Branco, ex-jogador?

— Quando o Léo Lima me chama para entrar no futebol, eu procuro o Branco, tetracampeão do mundo. Ele tinha uma loja de material de construção em Jacarepaguá e estava completamente fora do futebol. Eu me torno amigo do Branco. A gente almoçava, estava juntos o tempo todo. E eu falo: “Branco, você não tem interesse em iniciar esse trabalho? Você jogou tanto tempo em tantos países'. O Léo Lima me contou que o Porto esteve para contratá-lo quando ele saiu do Madureira. Aí, eu vou com o Branco para Portugal. Nesse momento o nome da empresa se chama B&C Consultoria, que é de Branco e Carlos, e a gente começa a trabalhar. Mas o Branco com aquele jeitão dele, né? Deixando as coisas acontecendo. Daqui a pouco ele: “Carlos, eu não vou poder continuar. Eu acabei de receber um convite para ir para a CBF, então a partir de hoje você segue a tua vida e tal.'

Como surge a relação com o Jorge Mendes, agente do Cristiano?

— Quando eu começo a trabalhar a venda do Léo Lima eu acabo conhecendo o Jorge. Estava lá levando a fita cassete e conheço o Jorge. Rapidamente a gente tem uma relação próxima com uma pessoa que foi o braço direito dele, o Sérgio Alves, em julho de 2003. E o Léo Lima é vendido logo ali. Ele não participa da venda, eu também não faço. O Vasco vende diretamente. Mas eu levo o Léo para a Bulgária. Aí o clube não paga os 3 primeiros meses no contrato do Léo Lima e do Souza e acabo entrando na Justiça com a ajuda do escritório do Jorge. Então eu trabalho com o Jorge entre 2004, 2005 e 2006. Depois eu lanço a carreira solo.

— Mas a gente (Carlos e Jorge) acaba se conhecendo, com ideias muito parecidas. Posso dizer que ele foi o cara que me ensinou o mundo do futebol. Foi com ele que eu aprendi. Foi uma universidade para mim. E ali eu posso dizer que eu aprendi praticamente tudo que eu conheci no futebol.

Lembro que numa entrevista ao ge em 2013 você comentava de práticas como presentes que agentes davam a jogadores. Como está isso hoje? É agressiva essa disputa?

— Como acontece em qualquer segmento, é cada um lutando pelo seu espaço, uns com mais ética, outros sem ética, mas normal como qualquer segmento aqui no Brasil. O mercado está muito competitivo nesse aspecto. Eu brinco lá dentro do escritório que se for para ir por esse caminho (de dar dinheiro), a gente vai ter problema, porque não vamos. A gente vai continuar na nossa mesma pegada. Eu tenho que respeitar toda a história que grandes jogadores tiveram com a gente.

— Ajudamos jogadores, é normal e natural. Eu acho que a Fifa não consegue entender que cada mercado é um mercado. O mercado sul-americano como um todo tem problemas de estrutura, financeiros, enfim, se nós agentes não ajudarmos esses jogadores, ninguém ajuda. Os clubes agora começaram a fazer realmente algumas ajudas. Mas quantos jogadores existem no clube? Como que esses clubes vão conseguir ajudar a todos os jogadores? Então, os agentes entram justamente também fazendo isso. Agora, se alguns agentes se aproveitam disso para poder fazer um contrato mal feito, enganar, isso tem que ser combatido.

— Tem jogadores que estão há dez, 12, 15 anos. A gente nunca ganhou absolutamente nada. Por quê? Porque não deram resultado. Mas eu não posso largar esse jogador. Eu tenho que continuar fazendo exatamente aquilo que a gente sempre fez (...) Mas eu acho que tem que ter uma trava, tem que ter um limite, não pode ficar tão comercial como está.

Como é a relação com famílias que participam da gestão de carreira de jogadores?

— E eu acho que essa entrada dos familiares dos pais para quererem fazer a gestão da carreira dos filhos se acentuou muito com o Neymar “Pai'. E todo mundo acha que pode fazer o trabalho que o Neymar “Pai' faz e não vai fazer. Primeiro que eu acho que o Neymar é um dos maiores jogadores que nós tivemos em todos os tempos dentro do nosso futebol. É um fenômeno em tudo, tanto dentro como fora de campo. O Neymar “Pai', eu acho que ele foi muito feliz e muito competente em toda a condução da carreira do filho dele.

— É muito difícil que eles consigam obter sucesso por uma série de fatores. Eu acho que um deles é a questão sentimental. Você não consegue lidar com a razão, você vai lidar com a emoção. Então quando você lida com a emoção, você acaba cometendo muitas falhas durante a condução da sua carreira. Vai olhar o lado financeiro primeiro ou vai olhar: “o meu filho tem que ter um contrato melhor agora, porque ele é melhor do que o outro'. Eu vejo que esse crescimento, mas acaba prejudicando muitos jogadores.

Ainda nesse tema, como foi lidar com Marcão, pai do Gerson?

— Muito difícil. O Marcão é uma pessoa difícil, né? Nós temos uma boa relação com ele, mas realmente é muito difícil. É uma figura típica do pai que quer ser o agente do jogador. Sabe que tem as suas limitações, por isso ele acaba procurando sempre alguém para estar do lado. Mas eu acho que em alguns momentos ele ultrapassa um pouquinho a linha e acaba se enrolando nessas decisões que ele toma. Então passa a ser realmente muito difícil. Não é fácil. Essa saída dele do Flamengo foi conturbada porque ele se precipitou.

Você foi contra a saída do Gerson do Flamengo?

— Eu fui contra. Na verdade, a forma como ele fez. Então na verdade ele tomou a decisão de sair e foi mal conduzido. Acabou dando aquele problema com o próprio Bap e eu tive que entrar para dar uma amenizada na situação. Eu acho que ele (Marcão) passa um pouquinho do ponto em alguns momentos, mas a emoção acaba tomando conta e ele acaba muitas das vezes largando (dinheiro). Todo mundo fala que o Marcão é dinheirista. Realmente ele tem um pouquinho disso, mas ele acaba jogando tudo para fora, ele acaba abrindo mão de muita coisa para que o filho possa fazer aquilo que ele quer naquele momento. Então ele larga dinheiro, ele vai para a França, ele acaba largando dinheiro aqui, ele sai da França e volta para cá. Ele acaba largando dinheiro lá e sempre no intuito de fazer bem feito pelo Gerson.

— Não dá para a gente falar que ele fez tudo errado não. Eu acho que ele fez muitas, muitas coisas. Ele acabou fazendo e dando certo ao jeito Marcão de ser. Mas acho que ele tinha que escutar um pouquinho mais para poder não ter tanto problema nas negociações. Mas é uma escolha. Eu sou muito flexível e a gente acaba tentando ajudar e mostrar um caminho melhor. Quando quer escutar, muito bem. Quando não quer escutar, vai pagar o preço pelas escolhas mal feitas.

Mas qual é o papel do jogador nessas situações? Ele tem a última palavra?

— Eu acho que o jogador sempre tem que ter a voz ativa. Sempre, em qualquer circunstância, que tenha pai, que não tenha pai envolvido. Ele é fundamental para as suas decisões. A gente passa o acha que é o mais importante, o que seria o melhor na condução da carreira dele. Durante muitos anos muitos agentes acabavam tomando essa frente, até porque o jogador confia demais no trabalho do seu agente. Mas eu sempre procurei deixar o jogador muito participativo das suas decisões. Ele tem que ter responsabilidade.

— Existe um paternalismo muito grande de sempre passar a mão na cabeça e tomando a frente. Não. Essa é uma decisão única e exclusiva dele. E é isso que a gente mostra. “Quem vai passar o frio é você, quem vai ficar no isolamento, ficar sozinho, muitas vezes sem a família e passando momentos difíceis, é você.' Então a decisão dele é fundamental. Então eu procuro sempre está trocando muito com os atletas e coloco a minha posição.

Mas nem sempre tem.

— Não tem. Mas tem que ser. Tive um caso muito interessante. Do Renato Augusto. Ele estava à beira de uma Copa do Mundo e ao mesmo tempo com um contrato que fazia uma diferença muito grande financeiramente para a China. Então você tem que mostrar os dois lados: “cara, você vai ter isso e você vai ter isso. Você tem que escolher o que você vai querer, se você vai querer único e exclusivamente olhar só um lado desportivo ou se você vai querer olhar o lado financeiro, ou se você vai querer escolher o desportivo mais o financeiro". E muitas vezes você não consegue conciliar o desportivo mais o financeiro. E vai depender muito do estágio da carreira, da idade que ele tem. Então ali foi uma decisão difícil que o Renato tomou e que acabou dando tudo certo, porque ele foi para a China, fez um contrato excelente e acabou indo para a Copa do Mundo. Mas nem sempre é assim.

O crime organizado no futebol

Você falou de um exemplo de sucesso, mas recentemente um jogador que você representou, o Daniel Pessoa, ex-Vasco, foi assassinado. Como soube disso?

— Essa história desse menino é uma história muito, muito difícil, porque veio sem pai nem mãe, sozinho aqui no Rio de Janeiro. A gente pegou para trabalhar dando todo o suporte necessário. Então o pessoal saía daqui, ia para lá (Norte). Na época era a avó que tinha a guarda, mas infelizmente foi difícil demais para gente, porque ele se envolveu com droga muito cedo. A gente teve uma luta muito árdua para tentar tirá-lo disso. Conseguimos em alguns momentos, teve recaídas, mas infelizmente são aquelas coisas do futebol que a gente fala: é difícil para os jogadores também.

Têm a ver também com a frustração na carreira?

— Eu acho que você é muito produto do meio, não é? O Brasil tem muito isso. É o contexto geral que a gente vive, as dificuldades que nós temos aqui no nosso país. Muita falta de oportunidade. Nesse caso não foi falta de oportunidade, porque ele teve bastante oportunidade, talvez ele não soube aproveitar, ou não conseguiu aproveitar, mas é muito do que a gente vive como um todo. Como esses meninos que estão nessas comunidades e acabam muito cedo entrando no mundo do crime, então o futebol não é diferente. A diferença é que o futebol tem exposição pública.

Tem bastante notícia de facções criminosas entrando no mercado de agenciamento. Já se deparou com algum caso? Tem receio?

— Lógico que a gente tem que ter um pouquinho de cuidado, mas eu acho que, mais uma vez eu digo, isso é um grande problema que nós estamos vivendo no nosso país. Então, independentemente de facção A, B, C ou D. Então eu acredito que muita coisa seja falado para uma pessoa ou outra que quer se mostrar com força para tentar ganhar uma disputa A ou B e acaba falando que pertence a facção A, B ou C, quando na verdade não, não acontece. Não vou dizer que não tem.

— Claro que se tiver qualquer tipo de disputa numa situação dessa, eu não vou entrar. Simples assim. Quem fala que vai? Mas eu acho que mesmo isso acontecendo, se você traçar uma linha reta nas suas decisões, não vai ter problema. Acho que até nisso tem uma uma posição bem definida. Ninguém quer problema. Então se tem alguém de alguma facção, ou se tem alguma facção dentro de qualquer segmento, ninguém quer problema.

Esse assédio por apostas também tem sido desafio para os agentes?

— A gente procura pegar os jogadores que não estão ainda num patamar financeiro consolidado e o tempo inteiro mostrando que isso aqui pode realmente trazer bastante problemas. E a gente pegou alguns exemplos que aconteceram e a gente fica o tempo inteiro mostrando para eles que, se entrar, vai ter que arcar com as consequências. A gente está com a consciência tranquila de ter mostrado, conversado e orientado para que não entrem nesse caminho, porque se entrar, sabe que vai ter o risco de ter o problema.

Essa bolha das apostas inflou muito os valores do mercado de jogadores?

— Eu vejo da seguinte forma tá. Se o clube acaba tendo um faturamento maior, é natural que tudo isso venha a reboque. A gente fala muito das bets hoje, mas o Flamengo por exemplo, tem o maior faturamento do país. E quanto que a bet representa? Se for pegar o tamanho que o Flamengo está hoje, o Palmeiras, sempre vai ter alguém (patrocinando). Então eu vejo que o futebol brasileiro sempre teve alguém, alguma empresa. Em algum momento foram bancos. Hoje são as bets, natural que com o clube tendo cada vez mais um poderio financeiro forte, acaba elevando também a questão dos jogadores, porque ele vai entrar numa disputa, ele não vai querer perder. É a lei do mercado.

— Agora eu acho que vai muito mais pela pela falta de grandes jogadores. Então o jogador que deveria ganhar 200 (mil reais), está dando 500 (mil reais). Mas por quê? Então faz o seguinte: contrata jogador de 200. Mas o que acontece? O nosso mercado aqui, o jogador sai daqui muito cedo, com 17 para 18 anos. O cara já está prontinho para sair. Com 18, foi embora. Então, os grandes jogadores estão saindo muito cedo. Os jogadores que estão consagrados voltando já têm um valor também alto. O jogador que eles têm que contratar realmente vai ser mais caro. É natural que os jogadores acabam também se beneficiando disso.

Esse domínio de Flamengo e Palmeiras tem reflexo no mercado?

— O mercado é imenso. Então você vai ter várias categorias. Flamengo e o Palmeiras nesse momento estão dominando. Por quê? Porque eles fizeram um trabalho bem feito. A gente fala do Flamengo. O Flamengo começou em 2013 essa retomada do Flamengo. São 13 anos que o Flamengo vem trabalhando para chegar no ponto que chegou. O Palmeiras, a mesma coisa. Começou lá atrás, com outro presidente, o Paulo Nobre, passou pelo Maurício Galliote, agora está na Leila Pereira. Foi um trabalho que eles fizeram, que outros não estão fazendo. Infelizmente é isso. Acho que a tendência agora não tem volta. Acho que os clubes vão ter que se preparar melhor porque estão vendo essa diferença gritante que existe hoje com Flamengo e Palmeiras tendo essas distorções financeiras traduzidas para dentro do campo.

— E eles vão ter que correr atrás para que possam chegar nesse mesmo (patamar) ou próximo. Acho difícil agora os clubes chegarem próximo ao Flamengo, porque realmente tem uma ter uma marca muito forte. Tem feito trabalho magnífico desde lá de trás. Se você pegar hoje o presidente do Flamengo, o Bap, ele estava lá em 2013, então nós estamos falando da mesma equipe desde 2013. Teve um probleminha aqui, outro ali, mas é a mesma galera. Foi o Bandeira, foi o Walim, o Landim, o Tostes... Trabalharam para que isso acontecesse, profissionalizaram os clubes.

— Agora, profissionalizaram de verdade. Porque a palavra profissionalizar é bonita. E é frustrante. A gente vê alguns outros clubes não chegando nesse patamar. Hoje a gente está falando que a gente está negociando com um Flamengo que é muito parecido com um clube europeu. Estou falando dos clubes de ponta. Você imagina se nós tivéssemos dez clubes aqui dessa forma? O Flamengo hoje consegue segurar um jogador, consegue trazer um Paquetá como trouxe aqui agora.

Todo mundo hoje quer fazer negócio com Flamengo e Palmeiras?

— Normal e natural. Não só pelo lado financeiro, mas pelo lado da organização, pelo lado desportivo. Você vai pegar um jogador e você vai levar para o Flamengo ou vai levar para o Palmeiras, já que você está falando desses dois, você sabe que você vai ter uma resposta não só financeira, mas também desportiva. Então, normal e natural que os agentes queiram pegar os seus melhores jogadores e trazer para os clubes aonde você vai ter o retorno financeiro e também desportivo, porque o desportivo é importante.

— O financeiro só existe pelo desportivo, então se ele foi bem num clube, se ele se destacou, se tem uma equipe mais forte, vai ganhar títulos, esse jogador está mais valorizado. Se ele está mais valorizado, para gente, é melhor. Você vai ter um jogador que vai se destacar em um clube que não tem o retorno desportivo. Claro que vai, o nosso futebol acaba tendo em alguns momentos esses jogadores. Mas se você pode também levar para dentro de um clube onde você vai ter a resposta desportiva, você vai ter o jogador mais valorizado.

A associação de agentes processa o Botafogo de John Textor de calotes em comissões. Você tem a receber do Botafogo?

— Não, eu não fiz negócio com o Botafogo.

Você já conhecia a fama do Textor?

— Vou te dizer o seguinte: cada um tem uma forma de trabalhar e muita gente vai falar “pô, esse cara é demagogo'. Dinheiro é consequência de tudo que eu faço, Não é o ponto principal. Ponto. Então, com tantos clubes que nós temos aqui no Brasil, com capacidade financeira e com condições desportivas, a gente pode escolher também com quem trabalhar. Eu não vou trabalhar com ninguém em quem eu não confio. Claro que se eu tiver um jogador meu, que eu represente e o Botafogo, está interessado e o jogador quer ir para lá, eu vou ter que sentar e vou negociar. Eu não posso fazer o que eu quero.

— É o que o jogador quer. Mas muitas das vezes você tem outras escolhas. O que está acontecendo hoje com o Botafogo... Eu acho que para muita gente já era esperado. Eu acho que a lei das SAFs está completamente errada. Não pode chegar aqui, analisar um clube, e isso não é só para o Botafogo não... Isso serve para vários clubes do Brasil. Vamos falar das SAFs. O cara chega aqui, analisa o clube, faz a diligência que ele quer fazer e resolve comprar um clube. Dois anos depois, ele entra com recuperação judicial. Tem alguma coisa errada nisso, cara. Fica por isso mesmo?

— Então a gente trabalha, os jogadores, todo mundo está ali, pessoas que trabalharam, que não receberam durante vários anos aqui, agora perdem 40, 50, 70, 80% do seu valor para essas recuperações judiciais. Então eu acho que tem que ter um pouquinho de olhar mais crítico do poder público em cima disso.

— O próprio Vasco. Eu tenho uma relação excelente no clube, não vou falar de quem está lá hoje, não vou falar do Pedrinho, mas vou falar o seguinte: vem uma SAF aqui, vem uma empresa, analisaram, olharam, compraram e dois anos depois está sendo feito uma recuperação judicial, porque quem entrou aqui não pagou. Então peraí, tem que ter um controle melhor nessa entrada. Não pode chegar aqui, simplesmente faz a dívida vai embora. E aí, pessoas que trabalharam a vida inteira... a gente sabe que chega um determinado ponto, que não tem o que fazer, o clube não consegue pagar, vai ter problema, enfim. Só que tem que ter um controle melhor. Não pode.

Você esteve naquela reunião da recuperação judicial do Vasco. Você aprovou?

— Então, cara, chega em determinado ponto, não tem muito o que fazer, Você tem que aprovar. Então, a todo momento a gente está passando por isso. Então, graças a Deus eu tenho uma carteira de clientes que me suporta. E quantos agentes não têm? Quantos agentes têm dois ou três jogadores para receber desses clubes e não conseguem receber? Estou falando dos agentes, então agora defendendo um pouco a nossa classe, é o que acontece. Vai receber em 18 anos ou vai receber em 15 anos? É ruim, mas você tem um lastro para poder segurar tudo isso. Tem muito agente que não tem condições, que tem dois, três jogadores, quatro jogadores e que vai passar por problemas. E que ele não causou.

— O agente não tem caneta. É muito importante dizer isso, todo mundo que milita dentro do futebol aponta muito o dedo para os agentes. Mas a única pessoa que não tem a caneta é o agente. Uma operação só é feita com assinatura do clube, o vendedor, o comprador e o atleta. E o agente muitas das vezes é culpado por um monte de coisa que acontece onde ele não tem a caneta. Então temos que começar a rever certos conceitos.

Você é conhecido também por ajudar alguns clubes. A chegada das SAFs mudou isso ou continua um cenário parecido nesse sentido?

— Há SAFs e SAFs. Eu acho que no cômputo geral melhorou bastante, tá? E até pelos valores que os clubes hoje estão arrecadando, então isso melhorou muito. E também chegou um ponto que a gente falava dessas ajudas que a gente, não só eu, como outros agentes, acabavam dando em determinado ponto a certos clubes, os valores eram bem inferiores ao que hoje está se praticando.

— Então acaba os agentes também não fazendo mais aquilo que se fazia antigamente. O clube muitas das vezes não viajava para jogar (se a gente não fazia). As pessoas não têm noção do que que era em determinados clubes.

— Veja bem, eu não sou banco, eu não sou agiota, então eu não quero estar fazendo isso. Eu não ganho dinheiro com isso. Eu ganho dinheiro comprando e vendendo jogador, mas se não fizesse isso, muitas das vezes, o clube não saía para jogar e as pessoas sabem disso.

Por que?

— Porque não pagavam a agência de viagens, não conseguiam mais ter o crédito. Então muitas das vezes era um socorro que você tinha que fazer para o clube poder entrar dentro de campo. Os jogadores com três meses, quatro meses, salário atrasado. Eu tenho um caso aí do Paulinho, no Vasco, que que foi um caso que me deu muita dor de cabeça, onde eu fiz tudo para ajudar o clube e por pouco não me prejudico.

— O presidente que assume naquele momento pega o clube cheio de problema, tinha três e indo para quatro meses de salário atrasado. Ou seja, qualquer jogador poderia pedir a rescisão do contrato. Eu estou negociando a venda do Paulinho. Eu sei o que tem do outro lado da mesa ao mesmo tempo.

— O Paulinho é diferente, sua família é muito diferente. Acho que dificilmente e posso te garantir que isso não iria acontecer, mas eu não posso ficar contando com isso. O que eu fiz? Eu fui ao clube, falei: “olha só, você precisa pagar. Se você não pagar, você vai perder o jogador'. Eu não posso correr o risco de um jogador que eu represento chegar para mim e falar: “eu quero entrar na Justiça'.

— Eu nunca, em 24 anos de futebol, tirei um jogador de um clube nessa situação. Então eu chamei o presidente, falei: “eu vou te emprestar dinheiro, você paga duas folhas e quando você vender o jogador, você repõe o dinheiro'. E assim foi feito. E eu poderia muito bem tirar na Justiça. É que a família não iria fazer isso, o Paulinho não iria fazer isso.

— Mas muita das vezes se você induz acaba acontecendo. Muito dinheiro na venda, uma venda de 20 milhões de euros. O jogador é vendido, recebo a minha parte. Cara, o que eu tive de problema por causa disso foi um absurdo, então eu não quero fazer isso. Muitos agentes não querem estar fazendo isso, mas se você não fizer, você acaba tendo um problema.

— Mas o grande público não enxerga dessa maneira, não vê dessa maneira, não tem as informações para poder entender, tem a paixão envolvida. Mas hoje acho que já mudou bastante. Poucos clubes ainda recorrem aos agentes.

Você refere-se à época do Alexandre Campelo, no Vasco. Politicamente, você teve problemas?

— Eu fui parar na delegacia de Defraudações. Estou com 55 anos de idade. Eu nunca entrei numa delegacia. Tinha briga política no clube e inventaram um sem número de coisas. Ninguém sabe disso. Estou falando pela primeira vez. Eu tive que prestar depoimento e tive que mostrar tudo, até ameaçado de quebra de sigilo de um monte de coisa. Eu falei: “Você não precisa fazer isso. Eu vou trazer todos os meus extratos bancários. Você vai ver que nada disso que você está falando a verdade'.

— Eu não quero estar passando por isso. Então é muito melhor que você esteja negociando com os clubes que estejam bem financeiramente e que vão pagar para você aquilo que você recebe pelo serviço que você faz, aquilo que eu presto, que é o agenciamento, seja ele de compra ou de venda, de renovação de um jogador. Então eu acho que o caminho hoje é bem melhor.

— Não é o ideal. Não foi o ideal, a gente estar fazendo isso porque você acaba muitas das vezes, misturando essas relações. Mas eu tenho minha consciência tranquila que eu nunca me aproveitei de nenhum clube. Tanto é que eu tenho esse tempo todo de futebol e continuo com as portas abertas em todos os clubes e passaram várias gestões em vários clubes e eu nunca tive um único problema. Mas o ideal é que não tenha. Meu trabalho não é emprestar dinheiro.

Ainda tem dinheiro emprestado?

— Hoje, graças a Deus, acabou isso. Não tenho mais isso.

Nem no Corinthians?

— Dinheiro meu emprestado não. (Dívida) como comissão. Devem de muitos e muitos anos, o que as pessoas também não entendem. Então assim a gente acaba tendo uma exposição. Ah, “o Corinthians deve não sei quantos milhões ao Carlos Leite' ou deve não sei quantos ao agente X, Y, Z. Deve porque não paga, porque fez vários negócios. A gente muitas das vezes está privilegiando o clube onde você tem mais relação e você acaba não recebendo. Então aquilo vai virando uma bola de neve, né?

— Então o cara não pagou a primeira. Daqui a pouco o cara fez uma outra negociação, não pagou, fez a terceira, fez a quinta, fez a sexta e tá lá. Em algum momento vai estourar. E é o que aconteceu com alguns clubes, como foi o Vasco, o Corinthians, enfim, como hoje é o Atlético Mineiro. Acontece isso.

Alguém vai falar: “mas quando era o Andrés e o Duílio você não cobrava'. Já ouviu?

— Sim, claro, porque a relação que eu tinha com o clube era uma relação... Como é que eu vou explicar, de confiança. E eu só fiz o que eu fiz com o Corinthians, que muitas pessoas não sabem, porque o presidente que entrou (Augusto Melo, que sofreu impeachment) não foi correto comigo. Nas outras gestões, a falta de pagamento para mim não era por não ser correto, não paga por N motivos, mas reconhece o que tem.

— Eu negociei um contrato para o Corinthians com a Brax, de direitos das placas publicitárias. O Corinthians tem um valor para receber durante seis anos e eu negociei com o presidente o seguinte: “olha, estou te trazendo esse contrato ao qual eu fui contratado e eu gostaria que se esse contrato for finalizado que você me pague o que me deve em três anos. Você tem seis anos para receber. Você me paga em três. Eu fiquei sete ou oito anos sem receber, você me paga em três'.

— O contrato entre a Brax e o Corinthians estava em análise ainda. Eu fiz questão que o meu advogado colocasse todas as negociações no mesmo contrato que foram feitas para que não tivesse nenhum tipo de dúvida. Então anexamos todos os contratos, o que não foi pago e assim foi feito. Só que vem uma eleição e ganha a oposição e a oposição procura a Brax e diz para a Brax não ser anuente naquele contrato, que se ela fosse anuente ia cancelar o contrato.

— O que era feito ali: ia fazer uma cessão de crédito dos valores para pagar em três anos. O que me resta? O cara está entrando e na primeira atitude dele comigo, não me procura, não fala comigo, não teve nenhum tipo de de conversa. Ele simplesmente procura essa empresa e fala para a empresa: “cara, você não assina como anuente, porque se você assinar como anuente eu vou cancelar o contrato'. Não me restou outra alternativa. Eu tive que entrar com uma ação contra o Corinthians, coisa que eu segurei durante esses anos todos.

— “Ah, você não entrou contra o Andrés, contra o Duílio, contra o Roberto'. Realmente eu não entrei. Por quê? Porque a gente sempre estava tendo conversa, pagava uma parte, segurava e tal. Quando eu consigo achar um caminho onde eu trago uma receita nova para o clube, onde está tudo acordado, o presidente que está entrando faz uma ameaça para a empresa não anuir. O contrato pelo Corinthians foi assinado, o contrato por mim foi assinado. Faltava a anuência da empresa para poder fazer a cessão. Não tive alternativa. Eu tive que entrar na Justiça e cobrar.

"Paulinho é muito forte mentalmente"

A gente falou do Paulinho. Como foi esse período dele longe do futebol?

— Cara, o Paulinho é um jogador muito preocupado com a sua carreira. Ele ainda tem pouca idade, mas não tem um deslize dele em relação a absolutamente nada. Ele é muito profissional, muito focado. A recuperação é difícil, porque ele sai do Atlético-MG lesionado. O Palmeiras acredita nele. Tem a questão do Mundial e aí foi uma decisão em comum acordo dele jogar o Mundial e aquilo realmente prejudicou bastante a sua recuperação. Mas foi uma coisa de consenso. Então ele tem lá uma relação extraordinária com o Palmeiras, a presidente sempre, em todos os momentos apoiando ele, o Anderson Barros também.

Ele chegou fazer um post no Palmeiras com a família no reveillón e foi atacado.

— Acontece, né? Uma celebração normal e que todos fazem, mas você não vê estripulia nenhuma do Paulinho, sabe? São coisas bem pontuais, mas é normal e natural, pela paixão que é envolvida dentro do futebol. Talvez o momento do clube onde as coisas não aconteçam como o torcedor quer. Quando não vem um título, acontece isso e temos que saber lidar com essa paixão.

Ele sentiu?

— Ele é muito forte mentalmente. Lógico que, assim, é chato, né? Qualquer jogador não vai gostar disso, mas o Paulinho leva tranquilamente. Eu acho que ele tem uma consciência muito forte daquilo que ele faz, o quanto que ele treina, o quanto que ele trabalha, o quanto que ele se prepara. Então normal ficar um pouco chateado, mas faz parte do dia a dia do jogador. Essas frustrações, elas fazem parte, você tem que saber lidar com isso. E o Paulinho, acho que ele lida muito bem com essas questões.

Você foi empresário do Mano Menezes quando ele foi da Seleção. O que se lembra da saída dele?

— Aquela saída dele da seleção foi uma saída política. Não foi uma saída, vamos dizer assim, desportiva. Há uma troca de presidente. Quem contrata sai da seleção e aí ele acaba pagando pelo lado político que a gente vive muito aqui no Brasil, seja ela em qualquer tipo de política. Então ele pagou um pouquinho por isso. Era um início de trabalho, foi a uma final de Olimpíada. Tinha um caminho, era quando o time começou a se encontrar. Foi uma decisão muito política não só pela questão dele, mas como posteriormente acabou acontecendo a saída também do diretor de seleções da época, que era o Andrés Sanchez. Então a gente sabe que a parte política influencia bastante.

Como foi aquela negociação ali com o Ricardo Teixeira?

— Não teve negociação. A ida do Mano para a Seleção não teve nenhum tipo de negociação. Era uma característica do Ricardo Teixeira de não falar com agentes. Ele levou isso durante toda a gestão dele. Na verdade, aquilo foi tudo muito confuso. Tudo que começa começa errado, acho que a tendência é terminar errado. Na época, tem uma conversa que vai ser o Mano, vai ser o Muricy. E aí o Mano recebe um comunicado que vai ser ele e daqui a pouco aparece o Muricy aqui no Rio fazendo uma negociação ou tendo um encontro com o Ricardo Teixeira.

— E eu estava em São Paulo por acaso naquela semana. A minha filha estava no Einstein fazendo uma operação no olho dela. Tinha três aninhos. E aí eu recebi o telefonema de um de um jornalista perguntando se o Mano já tinha recebido o telefonema para ir para seleção. Eu falei: “mas acabou de ter um encontro do Ricardo Teixeira com o Muricy'. “Mas o Muricy não vai aceitar'. “Mas como não vai aceitar?' “O Muricy não sentiu firmeza dele ser o treinador até o final da Copa e ele não vai aceitar'.

— Eu estava retornando para o Rio de carro com a minha família quando eu recebi o telefonema e pumba. Faço meia volta e volto para São Paulo e pega o telefone e ligo para algumas pessoas do meio dele, inclusive para a esposa dele e falo aconteceu isso, isso, isso. Acabei de receber esse telefonema, estou voltando para São Paulo. “Eu peço que vocês não comentem absolutamente nada. Se vale a pena ele ir, se não vale a pena ele ir, até eu chegar aí. Vamos sentar e conversar, porque pode ser que aconteça alguma coisa'. E aí quando eu estou chegando em São Paulo, recebo outro telefonema. “Carlos, o Mano aceita ir para a Seleção?'. Eu falei: “manda alguém ligar para ele e faz o convite. Faz o convite'. “Você pode ver para mim?' Não vou entrar em nomes, porque aí eu falei “tá bom'. Ligo: “Mano, aconteceu isso, isso, isso. Uma pessoa próxima ao Ricardo acabou de me ligar e perguntando isso, isso, eu falei para te ligar'. “Você fez muito bem, manda me ligar'.

E aí?

— E assim foi feito. Ricardo Teixeira entra em contato com ele, faz o convite. O Mano não negocia absolutamente nada de valores, até porque a gente conversava muito e um treinador ir para seleção não tem preço. Na minha opinião, não tem preço.

— Estou indo ao encontro dele e ele já liga: "Parabéns! Você é o agente do novo treinador da seleção brasileira". O Ricardo Teixeira ligou para ele. Se acertaram e ele Isso foi numa sexta-feira. No sábado, Mano vai para uma entrevista pós-treino, se não me engano Mário Gobbi e Andrés Sanchez para ele comunicar que ele é o treinador da seleção brasileira. Não tinha uma pessoa da CBF presente.

— No domingo tem o último jogo e na segunda feira ele faz uma convocação. Ou seja, tudo começou de maneira muito errada. Eu recebo um telefonema de uma outra pessoa dizendo o seguinte: "Carlos, você sabe como é que o Ricardo e ele não gosta de sentar com agente. Você toma cuidado..." Porque ainda tinha que negociar valores. Não foi negociado nada. Só aceitou e pronto. Sem problema algum. Não tenho nenhum tipo de problema com isso, nem problema de vaidade.

Você voltou a trabalhar com treinadores?

— Trabalhei com outros treinadores, mas não que nem foi com o Mano. Não de forma efetiva.

Com o Dorival Júnior?

— Dorival eu tinha uma relação muito próxima dele quando ele vem para o Vasco. Era para realmente a gente ter trabalhado juntos naquele momento, mas não trabalhamos. Eu continuei tendo uma relação próxima com ele. Tentei levá lo para o Flamengo algumas vezes, até que a última acabou dando certo.

— Mas agente dele eu nunca fui. Tive uma relação realmente muito próxima dele. Um cara que eu tenho uma admiração, eu tenho um carinho e tenho também uma gratidão, porque ele acreditou no projeto em 2009, porque o Vasco estava esfacelado, ficam cinco jogadores de linha e três goleiros para uma remontagem. Então eu tenho uma gratidão e um carinho enorme por ele, por ele ter aceitado ter ido para lá naquele momento. Naquele momento eu não sei se eu fiz certo, se fiz errado, mas eu fiz um papel de dirigente, né? Misturei um pouco as estações, o que acabou me trazendo alguns problemas, mas não me arrependo porque o trabalho foi legal, foi vitorioso e muito passa pelo Dorival e pelo Rodrigo Caetano.

Você deu um gancho: passou pela sua cabeça em um momento ser presidente do Vasco?

— Cara, se eu falar que não vou mentir para você. Então, como eu sou um cara muito verdadeiro em tudo que eu que eu faço, eu tive um pequeno pequeno momento ali com com o Roberto (Dinamite) que eu comentei isso com ele, mas graças a Deus foi passageiro. Então passou porque, cara, eu estou do outro lado do balcão, então não dá para para misturar, né?

— Mas naquele, ali de 2009, onde eu me envolvi bastante com o clube acabou tendo um pequeno devaneio da minha parte assim de de ser (presidente), mas acho que não combina comigo.

Como foi que você brigou e depois virou amigo do Eurico?

— Eu me exaltei lá num jogo nessa época com o Roberto, falei algumas coisas que não deveria falar e levaram para ele o que eu tinha falado. Só que infelizmente as pessoas aumentam um pouco. E aí, com aquele jeito de ser, ele chega na rádio lá e sai soltando um monte de coisa, falando que eu não era ninguém, que eu era qualquer um e no final ele fala "você vai se borrar todo para sair de casa". Então me fez uma ameaça. Eu falei: "então vamos brincar". Eu fui na delegacia e fiz um boletim de ocorrência contra ele. Até que o Zé Luiz, que foi vice-presidente do Eurico, fala: "vocês não podem ficar assim". Eu falei: "eu não tenho problema com ninguém. Se eu errei, eu tenho a hombridade de me desculpar, mas ele não pode fazer o que ele fez". "Se eu marcar um jantar com ele, você aceita?"

— Então sentei com ele numa mesa. Eu, ele, Zé Luís. Conversamos, expliquei para ele qual foi a minha atitude naquele momento, que se eu tinha ofendido ele, que ele me desculpasse, mas que eu não tinha nenhum problema. Até porque eu não tinha. O futebol tem muito isso. As pessoas criam problemas sem as pessoas se conhecerem, porque é muita fofoca, muito disse-me-disse.

— Dali para frente a gente começou a ter uma relação muito interessante e ele era uma enciclopédia, eu acho Assim, entre erros e acertos, como todos nós na vida temos, eu acho que essas pessoas tem que ser um pouquinho respeitadas, porque elas fizeram o futebol brasileiro e muita gente se esquece no futebol não foi criado agora, os clubes não foram criados agora. Tem uma história passada, uma história de luta, uma história de amor, uma história de certos envolvimentos também. A gente sabe disso. Mas tem muita luta, muitos dos chamados dirigentes amadores com seus clubes, com as suas paixões, muita gente colocando dinheiro nos clubes, muita gente perdendo dinheiro nos clubes e em defesa da paixão. Então eu procuro sempre tirar o melhor das pessoas.

— Eu tive um aprendizado muito grande com ele, muito grande, sabe? Foi uma relação bacana. Peguei ele também num momento de vida já debilitado, com problemas de doença. Isso acabou também mexendo muito com o meu emocional. Eu sou um cara muito emotivo, sou um cara que eu olho muito pelas pessoas, então eu acho que em muitos momentos eu tomei muitas decisões pelo lado emocional, principalmente de ajuda financeira ao Vasco. Mas tudo dentro de uma legalidade, tudo dentro do clube, tudo com contrato. Mas ele me pegou pelo lado emocional, até pela circunstância de vida dele. Mas eu digo que foi legal ter convivido e aprendido bastante com ele.

Você fez que tipo de coisa?

— Ele passou um momento muito difícil lá. Então eu tive bastante coisa lá com o Vasco, mas o Vasco cumpriu com tudo. Quando eu falo que os empréstimos todos eles foram cumpridos. Na verdade, eu não fiz empréstimo. Agora que eu estou aqui lembrando o que eu fiz. O Vasco não tinha crédito. E se eu não ajudo, cara, o Vasco não andava em muitos momentos. Então o que eu acabei fazendo? Eu acabei dando crédito ao Vasco. Então o Vasco abriu conta no banco onde eu tenho conta, o meu dinheiro estava num fundo exclusivo e esse dinheiro servia de garantia ao banco. Então na verdade o Vasco pegava um empréstimo com o banco e o meu dinheiro era o garantidor da operação. Eu pegava uma garantia auxiliar. Então muita das vezes a garantia era o contrato do Campeonato Carioca, onde o dr. Rubens Lopes foi importante, não para mim, com o Eurico, e acabou vindo para mim também, porque eu acabei tendo uma tranquilidade de poder fazer essa garantia e sabia que eles iam cumprir. Então eu dava garantia, mas automaticamente eu pedia para o banco pegar essa garantia da federação. Então a federação deu muito aval nesses contratos que tinham. Então eu não tive nenhum problema com com o Vasco em relação a empréstimos.

Esse tipo de operação você fez em outro clube?

— Não, só com o Vasco.

Por causa dessa situação do Eurico?

— Eu acho que sim. Foi um momento que que eu vi ele muito debilitado, sem muita força já e tentando resolver muita coisa. Tenho que ajudar de alguma maneira, mas também não queria eu ficar colocando o meu dinheiro. Eu não ganhava R$ 1,00. Eu estou tranquilo, pode pegar lá, quem for entrar, vasculhar, o que acabou acontecendo. Depois entrou a oposição e tiveram duas pessoas ali que vasculharam todos os meus contratos, o Adriano (Mendes) e o Paulo (Ganime), vasculharam todos os meus contratos e eu virei para eles: se faltar qualquer tipo de contrato, vocês podem me pedir que eu tenho tudo". Eles passaram duas tardes no meu escritório olhando todos os contratos, muita coisa acabou não tendo no Vasco. Uma questão de administração deles, mas eu tinha tudo documentado. Então eles vasculharam todos os meus contratos e não tinha nenhum tipo de problema.

Interferência em escalação? "Isso é propaganda para a gente"

Você ajudou também com jogadores nesses clubes?

— Totalmente. O Vasco de 2009 foi exatamente isso. Fui pegando os jogadores, fui colocando. Na época a gente podia adquirir direitos, então comprei muito direito. Muitos deram certo, muitos errados, as pessoas só veem cachaças que a gente bebe. Os tombos ninguém vê. Mas perdi, fiz muitos investimentos que não deram certo. Próprio Corinthians, o Grêmio lá na época do Paulo Odone, que foi um grande amigo que eu fiz no futebol. A gente ajudou bastante, não só indicando, pegando em clubes, que a gente tinha boas relações e comprando.

Por isso você era questionado com questão de escalação também. Inclusive na Seleção.

— Sempre, inclusive na seleção. Eu sempre lidei muito tranquilamente com isso. Tenho que deitar no meu travesseiro, tenho que dormir. Você nunca escutou um treinador vir a público comentar que teve interferência de um agente. Podia não citar o nome. Onde eu estava envolvido no clube. Você nunca escutou um diretor executivo falar isso. Nunca existiu.

— Só que isso foi fomentado por muita gente e eu achava engraçado. Eu comentava com a minha equipe e falei: "gente, isso é propaganda para a gente." Eles estão achando que estão nos afetando e eles estão nos ajudando, porque muitos jogadores vão achar que isso é verdade e não é. E muitos jogadores vão acabar vindo trabalhar com a gente pensando que isso vai acontecer. A gente sempre deixava muito claro, mas como a gente vive muita hipocrisia no mundo do futebol, muitos achavam esse cara tá falando isso, mas é mentira. Eu nunca tive nenhum tipo de relação para poder escalar A, B, C ou D. Muitas das vezes lidava rindo de toda essa situação, porque era uma propaganda que estavam fazendo para gente sem a gente ter que fazer nada.

O Douglas Luiz não trabalha mais contigo?

— Hoje não trabalha mais comigo, mas a gente fez algumas transferências dele. Na época da pandemia ele resolveu também trabalhar com um familiar e se juntar a outro agente. Uma decisão que me causou espanto na época. Não fiquei nem um pouco feliz porque era um jogador que a gente apostava. Mas o tempo passa e a gente mantém uma boa relação. Encontro, converso, falo. Tenho uma boa relação com os pais dele até hoje, faz parte do dia a dia. Mas eu não posso falar do que vai acontecer na carreira dele, porque não é comigo.

Foi um momento de tensão entre você e o Giuliano Bertolucci. Um arranca-rabo?

— Sim, sim, é normal, sabe assim... acontece, né? São situações que a gente tem que estar contornando. Faz parte não só com ele, mas como com outros também. Já aconteceu. Mas tudo isso faz parte do dia a dia. Eu encaro com naturalidade, não gostaria que acontecesse. Eu acho que teria que ter um pouquinho mais de de respeito, até porque existia um contrato, né? Para mim os contratos foram feitos para serem cumpridos, mas acontece.

— Então primeiro momento ali tem uma chateação, mas faz parte. Eu não guardo rancor de ninguém. A vida vai seguindo. Amanhã, outro jogador que estava com ele vai trabalhar para cá. Tá tudo certo. Isso aí faz. Faz parte. Eu respeito o Giuliano. Eu acho que ele tem algumas situações que ele ultrapassa um pouquinho, mas ele é um grande agente, é inegável isso, é merecedor de tudo que tem conquistado.

Como é que a história que você não viajar mais de avião?

— Isso aí foi uma fase da minha vida que eu passei. Eu tive uma crise de pânico durante três anos da vida, que foi difícil e que realmente eu fiquei impossibilitado de entrar no avião. Depois disso passou, busquei tratamento.

Pelo estresse de alguma situação?

— Cara, eu acho que não. Eu acho que foram circunstâncias da vida, do dia a dia, de correria, de pressão, enfim, acontece como acontece com sem número de pessoas. Hoje, muito mais divulgado do que era antigamente. Mas eu fiquei três anos, realmente, que eu não conseguia entrar dentro do avião e aquilo foi tomando proporções que eu não cuidei e daqui a pouco eu não conseguia entrar com o carro num túnel. Daqui a pouco eu não consegui entrar no elevador. Aí chegou um momento que eu falei: "para. Porque isso não pode atrapalhar a minha vida".

— Então busquei ajuda médica. Fiquei bem, comecei a viajar novamente e alguns agentes se aproveitaram desse fato. Ficaram sabendo para poder muitas das vezes colocar com nossos jogadores: "mas você vai trabalhar com agente que não viaja? Como é que ele vai te representar?" Usando esse subterfúgio para tentar fazer com que o jogador não ficasse com a gente. Mas não deu muito certo não, porque eles continuaram e eu tenho que agradecer muito a minha equipe toda ela, porque me supriram muito bem e suprem até hoje trabalham muito bem para que a gente possa manter o nosso nível de relação com os jogadores no trabalho.

Quais foram as transferência mais marcantes da sua vida?

— As mais marcantes foram as do início. Foi uma grande virada de chave da minha carreira. Foi a do Anderson, do Grêmio para o Porto. Ela foi muito importante e acabou sendo uma negociação muito difícil. Foram 40 dias em Porto Alegre e ela foi feita dentro do Fórum da Infância e Juventude. Então foi uma coisa assim muito, muito, muito complicada, muito difícil.

O que houve?

— Ele era menor de idade. Ele tinha um suposto agente e ele queria tirar a mãe (da jogada). Ele era de menor, só tinha a mãe e ele (o agente) queria pegar a guarda. Cara, foi uma loucura tão grande que a negociação terminou dentro do fórum, mas acabou dando resultado e eu consegui conciliar e deixar a mãe junto dele. Isso foi uma das coisas também que me marcou bastante, porque existia uma rixa muito grande entre o próprio Anderson e a mãe. E nós viajamos juntos para Portugal e foi uma negociação muito marcante.

O Anderson é um dos casos de jogador que poderia ter sido maior?

— O Anderson foi uma coisa assim absurda. Aqueles jogadores que acontecem e estouram muito rápido. Mas eu acho que ele teve uma lesão no Porto que afetou muito a carreira dele. Ele nunca mais foi o mesmo jogador, apesar de ter conquistado vários títulos no Manchester United. Mas ele nunca mais foi o mesmo jogador com aquela potência que ele tinha, com aquele com que ele iniciou a carreira. Mas acho que muito por isso (pela lesão).

Para encerrar: que jogador você gostaria de ter trabalhado?

— O jogador que torcedor que eu mais admirei foi o Romário. Acho que esse foi o número um. Foi um jogador que eu ostaria muito de ter sido agente naquela época para trabalhar com ele. Para mim foi o maior fenômeno que nós tivemos. É um jogador de muita personalidade, que fez tudo aquilo que ele quis na carreira e tudo deu certo para ele. E dá até hoje. Chegar onde ele chegou a casa, hoje é senador da República.

— Eu tenho uma boa relação com ele. É uma admiração muito grande. Sou fã. Eu não tenho muito essa coisa na minha vida de "ah, aquele cara meu ídolo". Não. Mas o Romário eu tenho uma admiração muito grande pelo que ele foi, pelo que ele representou e pelo que ele representa até hoje aí no mundo do futebol, agora da política. Sair de onde ele saiu, de uma comunidade, conquistar o mundo, voltar para o Brasil no auge da carreira dele com o melhor jogador do mundo.



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