Coronel Sapucaia
Bairro marcado por serial killer agora tenta ser lembrado pela vida tranquila
Bairro onde morava Nando mudou, ganhou estrutura e hoje é visto como um lugar bom para famílias
BRUNA MARQUES / CAMPO GRANDE NEWS
O Danúbio Azul, em Campo Grande, ainda carrega uma marca pesada. Foi no bairro que morava Luiz Alves Martins Filho, conhecido como Nando, condenado por matar jovens na região em um caso que chocou a Capital no fim de 2016. Quase dez anos depois, a lembrança do criminoso continua associada ao lugar, mas já não resume a rotina de quem vive ali.
Hoje, o bairro tem comércios, igreja, campo de futebol, ônibus circulando, casas construídas onde antes havia barracos e moradores que falam mais de sossego do que de medo. A região, que já foi marcada por estrada de chão, falta de água, ausência de energia e violência, passou por mudanças urbanas e tenta se descolar da fama deixada pelo caso.
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A história voltou ao debate com o livro “A Jornada dos Esquecidos', escrito pela delegada Aline Sinnott Lopes, que comandou as investigações. A obra usa informações reais em uma narrativa ficcional, mas não coloca Nando como protagonista. O foco está nas vítimas, nos jovens que desapareceram sem que a ausência deles provocasse, de imediato, a reação esperada, e no trabalho da polícia para revelar a sequência de crimes.
Parte desse passado ainda está visível fora do bairro. Na Rua dos Astronautas, na Chácara dos Poderes, a cerca de 3 quilômetros da casa onde Nando morava, próximo ao cruzamento das ruas Acrópole e São Crispim, ficava o cemitério clandestino usado pelo criminoso. O local hoje está fechado com cerca, tomado pelo mato e cercado por estrada de chão.
No Danúbio Azul, porém, a vida seguiu. Na esquina das ruas São Crispim e Acrópole, o comerciante Augusto Gomes de Souza, de 76 anos, mantém um bar desde 1997. Ele mora no bairro há 29 anos e acompanhou a transformação da região.
“A gente lembra do pessoal falando, mas eu não tinha envolvimento, não conheci ele pessoalmente, só ouvia falar muito dele. Nunca conversei com ele', disse.
Augusto afirma que, na época, os comentários sobre Nando circulavam entre os moradores. Segundo ele, o bairro era mais perigoso e convivia com violência frequente.
“O pessoal comentava o que ele fazia. Uma vez matou um rapaz bem aqui na frente. Danúbio Azul sempre foi mais violento, era perigoso, pessoal fazia rolo', relatou.
Apesar da lembrança, o comerciante diz que o assunto praticamente desapareceu das conversas. “Sobre esse caso do Nando ninguém comenta nada, não sei nem como está. Hoje em dia raramente chega alguém e fala. Aqui no bar as pessoas que frequentam são tranquilas'.
Para Augusto, a mudança do bairro foi física e social. “Antigamente o bairro era só barraco, foi evoluindo. As pessoas que eram envolvidas no crime, com coisa errada, ou mudaram ou morreram. O bairro cresceu demais. Quando entramos aqui era tudo barraco de lona, não tinha energia, não tinha água, era só mato. Isso aqui foi invasão'.
Entre os moradores mais novos, o caso já não faz parte da memória. Gabrielly Rodrigues, de 18 anos, mora há um mês e meio na Rua Nove de Maio. Antes, vivia na região do Estrela Dalva II. Ela diz que nunca tinha ouvido falar de Nando.
“Nunca ouvi falar. Há 10 anos atrás eu tinha 8 anos. Não lembro nem de ninguém comentando sobre', afirmou.
A mudança para o Danúbio Azul foi motivada pela busca por tranquilidade. “O bairro aqui é bem tranquilo. Mudamos do Estrela Dalva porque era mais movimentado e, como temos crianças em casa, achamos que aqui seria melhor'.
Gabrielly diz que a região ainda é afastada e tem poucas opções de lazer, embora exista um campo onde crianças do bairro costumam brincar. Mesmo assim, ela avalia a mudança como positiva.
“Que bom que a fama do bairro mudou e não é mais como antes. Nós vivemos em paz aqui'.
O pintor Genivaldo Paes da Luz, de 45 anos, também chegou há pouco tempo. Morador da região há cinco meses, vindo do Nova Lima, ele enxerga o Danúbio Azul como um bairro em valorização.
“O bairro aqui melhorou bastante, antes era gleba, agora asfaltou, a criminalidade diminuiu também. Hoje em dia é um bairro tranquilo de se morar', afirma.
Segundo ele, a infraestrutura ajudou a mudar a percepção sobre o lugar. “Aqui mudou tudo, é um bairro mais valorizado. Antes não tinha casa, era só barraco, asfaltou tudo, antes era só terra'.
Genivaldo cita posto de saúde, creche, comércio e localização como pontos positivos. “Os postos de saúde, creche, trouxeram mais infraestrutura e qualidade de vida para nós. Para mim o bairro é bom, aqui é perto do centro, tem mercado'.
Para ele, a violência não deve ser usada como marca exclusiva do Danúbio Azul. “Sobre o Nando, eu acredito que em todo bairro tem criminalidade, é comum já na cidade', pontuou.
Da fama antiga à vida em paz - A fama, no entanto, não desapareceu completamente para quem vive ali há décadas. O aposentado José Edson de Souza, de 73 anos, mora no bairro há 25 anos e afirma que chegou a conhecer Nando de vista.
“As pessoas esquecem a fama. Eu cheguei a conhecer o Nando, mas de vista, não tinha relação com ele. Ele era baixinho, comigo nunca fez nada, fazia as coisas dele, mas nunca tive problema com ele', contou.
José Edson diz que, no passado, a presença de usuários de drogas era maior e a estrutura era precária. “Antes tinha muito caso de usuário de droga, hoje melhorou. Antigamente aqui era estrada de chão'.
Mesmo com as mudanças, ele reconhece que o bairro ainda convive com o peso da lembrança. “Infelizmente, por mais que anos tenham se passado, o bairro carrega o peso, a fama fica. Mas hoje em dia está bom de se viver aqui. Não tinha água antes aqui, agora tem esgoto'.
A aposentada Ana Lúcia Garcia da Silva, de 71 anos, mora no Danúbio Azul há 29 anos. Ela diz que não conheceu Nando nem as vítimas, mas ouvia comentários sobre os crimes.
“Na época eu trabalhava fora e não ficava em casa, não acompanhei muito, mas ouvia falar que ele era perigoso, matava as pessoas. Não cheguei a conhecer ele e nem as vítimas'.
Ana Lúcia lembra que o bairro já teve muitos problemas. Havia mato, barracos, violência e pouca estrutura. Ainda assim, afirma que nunca pensou em deixar o local por medo.
“Quando eu mudei pra cá era feio, tinha muito barraco, gente ruim, mas apesar disso, nunca ninguém mexeu aqui na minha casa. Sempre saí para trabalhar, mas voltava e estava tudo no lugar', relembra.
A moradora acompanhou a transformação da paisagem. “Aqui nunca teve escola perto, posto de saúde é mais longinho também, era muito mato. Meu marido era vivo, nós tirávamos pasto por aí, ele trabalhava com carroça. Hoje em dia é tudo casa, tudo é bonito, melhorou demais', avaliou.
Para ela, quem conhece o Danúbio Azul apenas pela fama antiga não conhece o bairro de hoje. “Apesar das pessoas terem medo da fama, aqui eu acho tranquilo, já teve muita coisa ruim aqui, mas hoje não mais. Nunca tive medo, sentava aqui na frente com minha vizinha, virava a noite na calçada', recorda.
A aposentada diz que o bairro se tornou um lugar procurado, com imóveis sendo comprados e moradores satisfeitos com a região. “Eu gosto que hoje tem mercado perto, criei meus netos e filhos aqui, não tenho do que reclamar. Descrevo como um bairro bom de se viver, dá para ir no centro a pé, não tem perigo de nada, vivemos em paz aqui'.
A memória do caso Nando ainda acompanha o Danúbio Azul, mas não conta a história inteira. O mesmo bairro que foi associado a mortes, desaparecimentos e medo também guarda a trajetória de quem chegou quando tudo era mato, viu barracos virarem casas e agora tenta viver sem que o passado seja a única referência.
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