Coronel Sapucaia
Isabela saiu do cartório para "levar o casamento" até avó acamada
Neta queria incluir Tuca no grande dia do casal e homenagear a pessoa que mais inspira sua vida
NATáLIA OLLIVER / CAMPO GRANDE NEWS
Se a avó não podia ir ao casamento, o casamento foi até ela. Quando a neta Isabela Cesar Corazza, de 31 anos, e o então noivo Lucas Cabral Fimiani, 34, resolveram unir de vez as escovas, eles sonhavam que Maria Assunção, a Tuca, estivesse na cerimônia. Como ela está acamada, o casal achou uma maneira de compartilhar o momento tão importante. Saíram do cartório de mãos dadas e antes de qualquer comemoração, foram direto encontrar Tuca. A cena mais importante não foi assinando os papéis, as ao lado da cama da avó.
Aos 92 anos, Maria está com a saúde fragilizada, por isso ficou em casa, sob os cuidados da família. Mas, para Isabela, se havia uma pessoa que simplesmente não poderia ficar de fora daquele capítulo, era Tuca.
“Apesar de morarmos agora em Campinas, decidimos que seria aqui. Porque ela infelizmente não iria conseguir estar na festa, então queria compartilhar pelo menos esse momento do casamento civil com ela. Ela e meu avô representam o companheirismo que queremos no nosso casamento. Eles criaram uma família tão unida e com um amor tão grande uns pelos outros. Passaram por tantas coisas desafiadoras juntos e se mantiveram firmes e fortes. Eu gostaria de ter essa sabedoria de construir o mesmo'.
Para Isabela, os dois sempre foram mais do que avós. Eram exemplo. Daqueles construídos sem discursos prontos sobre amor, mas com décadas de parceria, desafios compartilhados, filhos, netos e uma vida inteira caminhando lado a lado. Foram 63 anos de casamento até que a vida levou Diogo.
“Meu avô teve um infarto fulminante e infelizmente faleceu. Foi exatamente um mês depois de fazermos uma festa de aniversário de 92 anos dos dois, e eles estavam tão felizes, mesmo a vó não tendo 100% de consciência que a festa era dela'.
Há alguns anos, Tuca começou a apresentar sinais de demência mais avançada. Os médicos chegaram a diagnosticar o quadro como Alzheimer, mas depois descartaram essa hipótese pela evolução dos sintomas.
“Chegou a um momento que ela realmente foi esquecendo quem era quem, exceto do meu avô. O quadro ficou estável, sem progressão por anos até que no final de agosto de 2025, depois da perda do meu avô, ela piorou muito. A doença progrediu assustadoramente. Ela parou de andar, comer e falar. Buscamos tratamento mas o quadro não se reverteu. Atualmente, ela é acamada, a alimentação é por gastrostomia e ela quase não fala mais'.
Para a neta, o momento de fazer a avó participar da cerimônia foi mágico. O marido é tão apegado a Tuca como a própria neta. A proximidade é motivo de acalento e emoção para Isabela.
“Acho que foi quando eu percebi que amava mesmo ele. Lucas é muito carinhoso, do jeitinho dele, está sempre se mostrando presente e escutando. E ele fez isso com meu avô até o fim da vida dele e segue fazendo isso com ela. É diferente quando alguém acolhe assim sua família. Ele sempre tratou meus avós, meus pais, tios, primos e sobrinhos com tanto carinho, que eu fico até emocionada em falar'.
A história de Isabela e Lucas começa em 28 de dezembro de 2021, durante uma viagem para Pipa, no Rio Grande do Norte. Hoje eles percebem que se encantaram um pelo outro exatamente na mesma data em que Tuca e Diogo haviam se casado, em 1961.
Quase 5 anos depois, o casal oficializou a união cercado pela família e carregando consigo um legado que começou muito antes deles. A visita após o casamento não foi apenas um encontro entre avó e neta. Foi uma forma de juntar passado e futuro na mesma sala. A cena mais importante não aconteceu no cartório, mas ao lado da cama da avó.
“Ela é meu modelo, minha inspiração de vida. Minha vó, para mim, é o exemplo de uma mulher de um coração enorme e de muita força, que construiu tudo em conjunto com meu avô, bens materiais e não materiais. Estes últimos são os que me geram mais orgulho. Nossa família é e sempre foi muito unida'.
Ela relembra com carinho da infância, nas férias escolares, quando o irmão e os primos seguiam para a fazenda dos avós, em Bela Vista, numa contagem regressiva que parecia não acabar nunca. Era lá que a vida tinha cheiro de chipa saindo do forno, gosto de Nescau servido às 16h e o som das gargalhadas provocadas pelo famoso “abraço mixuruca' do avô, uma mistura de abraço e cócegas que ele dava em cada neto na chegada.
Ao fim das férias, havia outro ritual. Tuca fazia queijo com cada uma das crianças, para que levassem para casa. “Não tem lembrança que mais marcou minha infância do que essa. Acho que é uma das recordações mais felizes que tenho', conta.
Acompanhe o Lado B no Instagram @ladobcgoficial, Facebook e X. Tem pauta para sugerir? Mande nas redes sociais ou no Direto das Ruas através do WhatsApp (67) 99669-9563 (chame aqui).
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para entrar na lista VIP do Campo Grande News.




